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​A Tenda do Magnificat

· ​O testemunho ·

Se tivéssemos que tirar uma fotografia do lado de fora da Tenda do Magnificat, veríamos algumas mulheres que vivem num apartamento alugado, no coração de um bairro popular, mantendo-se com o próprio trabalho e tecendo relacionamentos fraternais com quantos as circundam. E para explicar no que consiste a Tenda do Magnificat, esta imagem sozinha já é suficiente.

A vida em comum, a renúncia ao supérfluo, a abertura ao próximo são efetivamente os pilares sobre os quais se fundamenta uma experiência singular e poderosa na sua simplicidade. Stefania Lecce, uma das dez leigas consagradas que hoje animam a comunidade feminina fundada em Milão em 1957 com a bênção do então arcebispo Montini e instituída como associação particular de fiéis em 1965, sublinha isto com força: «Para nós, em primeiro lugar é importante estar presentes, inserir-nos no ambiente onde vivemos, mover-nos com o próximo». É relevante «visitar», do mesmo modo como Deus visita o seu povo e Maria visita Isabel: encontros de amor que passam sobretudo pela partilha da Palavra.

Com efeito, desde os primórdios as mulheres da Tenda — que atualmente conta com três comunidades fraternas, em Lamezia Terme, em San Benedetto del Tronto e em Pesaro — arraigam-se nas periferias, anunciando Jesus com uma linguagem que todos podem compreender e, semanalmente, encontram-se com amigos sempre novos nos «grupos do Evangelho» para rezar e ler as Escrituras, à luz da vida quotidiana. Reuniões em nome do Senhor, que aproximam as pessoas umas das outras, mas também de Deus. Reuniões entre leigos, entre fiéis, entre amigos — hoje centenas em toda a Itália — que continuam inclusive quando as mulheres da Tenda, chamadas para outros contextos, neles não conseguem participar.

O que inspira estas experiências é a espiritualidade monástica dos primeiros séculos e o próprio desejo de um retorno às origens, que orientou as grandes testemunhas da história da Igreja. Entre as quais, muitas são mulheres. Cita as religiosas carmelitas, Stefania Lecce, e cita Madeleine Delbrêl, a mística francesa do século XX que, vivendo e sofrendo no meio dos operários, num ambiente impregnado de marxismo, reivindicava a justiça social em nome de Deus.

Uma revolucionária tenaz mas discreta é a fundadora da Tenda do Magnificat, Costanza Badoni, que hoje vive em San Benedetto del Tronto e que, como Madeleine, encontrou terreno fértil para o seu fervor espiritual no mundo dos trabalhadores. Um mundo procurado e eleito, apesar de uma condição social privilegiada. Com efeito, Costanza é filha de um importante industrial de Lecco que, embora lhe tenha transmitido uma educação cristã, considera uma excentricidade o desejo da filha de seguir a mensagem evangélica de forma tão radical, a ponto de preferir viver com e no meio dos últimos. No entanto, foram inúteis as suas tentativas de a dissuadir, entre as quais um pedido de encontro com Montini. Talvez desiludindo as expectativas do pai, o futuro Pontífice sente a profundidade da vocação de Costanza — cujo diretor espiritual é o padre jesuíta Michel Ledrus — e, em vez de a desencorajar, anima-a a prosseguir no seu caminho. Assim começa uma aventura que se identifica com a imagem da tenda, um abrigo sem paredes, não isolado do mundo externo e, ao mesmo tempo, capaz de fazer transparecer a luz que resplandece no próprio interno.

As pessoas acolhem com entusiasmo esta oferta de maternidade, que comporta uma renúncia convicta a todas as certezas materiais e requer «a mesma paciência de tecer» que era própria dos apóstolos.

Quem se sente mais desorientado é o clero. As inquilinas da Tenda frequentam as paróquias do território, mas não são facilmente qualificáveis — «sois religiosas, ou não?», perguntam-lhes — e muitas vezes devem aceitar uma certa marginalidade.

Todavia, foi um bispo que, de Crotone, encorajou a maior transformação vivida pela Tenda em quase sessenta anos de vida: a transferência para o sul da Itália. Trata-se do bispo Giuseppe Agostino que, em 1985, pede a Costanza e às suas irmãs, já presentes em cinco cidades do centro e do norte do país, que levem o seu testemunho à Calábria. Naquela época, Crotone é a Milão do Sul devido à alta concentração de fábricas e de operários: a fundadora decide aceitar a chamada. É um momento difícil para a Tenda, muitas não estão de acordo, mas este passo é dado e revelar-se-á fecundo, replicando-se em diversos contextos meridionais. Na base, sempre a mesma intuição, definida por Juan Maria Laboa o enorme paradoxo cristão: «Permanecermos mergulhados no mundo, sem sermos mundanos, sem que a mundanidade nos domine». 

Silvia Gusmano

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10 de Dezembro de 2019

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