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Também o Papa se interroga sobre a verdade

· O livro «Jesus de Nazaré» de Bento XVI apresentado na Universidade de Urbino ·

Teve início a 16 de Novembro na universidade de Urbino uma série de encontros, organizados pela Libreria Editrice Vaticana, que apresentará o livro de Joseph Ratzinger — Bento XVI em vários ateneus italianos. O primeiro encontro foi inaugurado pelo cardeal secretário de Estado. Publicamos quase na íntegra a sua intervenção.

Os dois volumes [de Jesus de Nazaré] revelaram-se um sucesso editorial além das expectativas do próprio Autor. De facto, se por um momento deixarmos de lado os números — que, naturalmente, não dizem o valor de um livro — damo-nos conta disto: em apenas quatro anos, desde o primeiro volume foram difundidos mais de três milhões de cópias, em quarenta e sete países; e, do segundo, já são mais de dois milhões de cópias impressas e divulgadas em trinta e três países. Mas nós não estamos aqui para analisar este aspecto que, aliás, diz algo acerca do desejo e da expectativa do homem contemporâneo de conhecer Jesus e, talvez, de alcançar uma relação viva e vital com Ele.

Quis mencionar o primeiro volume e a sua ampla difusão porque gostaria de ressaltar como as duas partes do Jesus de Nazaré representam um todo e, precisamente por isto, devem ser lidos juntos, comentados e, eventualmente, criticados.

Por conseguinte, parto desta afirmação, aparentemente óbvia, que faz referência à unidade fundamental dos dois volumes. Esta observação não é nova nem só minha, mas é antecipada pelo próprio Joseph Ratzinger — Bento XVI que a explicita no preâmbulo do segundo volume. Com efeito, naquelas poucas páginas iniciais pode-se ler que entre as reacções e os encorajamentos positivos recebidos pelo Autor depois da publicação do primeiro volume, se tiveram as de grandes mestres de exegese. Entre eles o Autor indica Martin Hengel, Peter Stuhlmacher e Franz Mußner. De todos chega um convite urgente a prosseguir o trabalho iniciado com o primeiro volume.

Qual é o motivo desta solicitação afectuosa e insistente? É bastante evidente a todos os estudiosos que os dois volumes que temos nas mãos obrigaram teólogos e pesquisadores, mas não só, a voltar a debater sobre o «método da teologia», sobre a hermenêutica da exegese, sobre a própria exegese como disciplina histórica e acerca do método histórico-crítico, além das novas descobertas da arqueologia e do estudo sobre os papiros.

Disto deu testemunho, entre outros, um famoso estudioso de Bíblia num encontro organizado pela Faculdade de teologia São Dâmaso de Madrid: «No debate sobre as questões exegéticas concretas Ratzinger demonstrou, de modo paradigmático, uma exegese crítica e ao mesmo tempo teológica revelando em tantas ocasiões as premissas filosóficas ou culturais que limitam a razão moderna aplicada à Escritura» (Inácio Carbajosa, Ratzinger na arena , em «L'Osservatore Romano», 29 de Abril de 2011, p. 4). Por outro lado, já no preâmbulo ao primeiro volume, o próprio Autor nos tinha advertido sobre a necessidade de um tal trabalho para os exegetas e os estudiosos. Aliás, ele afirma com urgência quanto seja indispensável este novo, sério e vigoroso trabalho de pesquisa porque, a partir dos anos Cinquenta, se verificou uma «ruptura entre o "Jesus histórico" e o "Cristo da fé"» e, acrescenta, «uma situação como esta é dramática para a fé porque torna incerto o seu autêntico ponto de referência: a amizade íntima com Jesus, da qual tudo depende, ameaça complicar-se».

Este delicado, mas firme obrigar os estudiosos a voltar a debater, a tornar-se eles mesmos discípulos na busca da verdade e a nunca se sentirem saciados das metas alcançadas, faz intuir a atitude intelectual de Joseph Ratzinger. É um homem — sabemo-lo — que dedicou toda a sua vida ao estudo. Precisamente por isto continua a perguntar-se ainda hoje, como Papa, «o que é, portanto deveras essencial?» (Peter Seewald — Bento XVI, Luz do mundo , Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2010, p. 200). Esta busca, esta sede de verdade, estas perguntas que surgem quer na conversação privada quer na pública de Joseph Ratzinger antes e de Bento XVI agora, tornam-se evidentes na busca do rosto de Jesus e expressam-se de maneira elevada com estes dois volumes. E se na entrevista com Peter Seewald, acima mencionada, sobressaía a necessidade — também como bispo de Roma — de captar o que é deveras essencial, num dos muitos encontros com os seus ex-colegas professores o Papa, falando do trabalho do teólogo, prossegue com a sua corajosa busca afirmando que «para ser teólogo e para desempenhar o serviço para a universidade e, ouso dizer, para a humanidade — por conseguinte, o serviço que dele esperamos — ele tem que ir além e perguntar: mas é verdadeiro o que ali é dito? E se for verdadeiro, diz-nos respeito? E de que maneira? E como podemos reconhecer que é verdadeiro e que nos diz respeito?».

Depois de ter recordado a unidade intrínseca dos dois volumes da obra, somos agora capazes de aceder a uma realidade mais profunda. Trata-se daquela realidade — poderíamos dizer bem, aquele «envolvimento» — que Joseph Ratzinger — Bento XVI menciona delicadamente no primeiro volume, quando escreve: «É certo que não tenho necessidade de dizer expressamente que este livro não é de modo algum um acto magisterial, mas unicamente expressão da minha busca pessoal do "rosto do Senhor"». Aqui o Autor convida o leitor a captar, com clareza límpida, como Ele mesmo se esteja a pôr em questão. Deseja deveras procurar «o que é verdadeiro e o que nos diz respeito».

Correctamente, um semiólogo, Silvano Petrosino, realçou que «também por isto a referência da capa ao nome próprio do Autor deve ser vista não só em relação ao texto produzido, mas também e sobretudo em relação ao facto de que este texto pretende ser expressão de uma "busca pessoal"». O Autor, o Papa, não teme envolver-se na canseira e na alegria da pesquisa. Está consciente de que «a pesquisa contemporânea sobre Jesus histórico parece ter perdido o rosto autêntico do Senhor, reduzindo-o a uma figura obscura do passado, do qual nada se poderia afirmar com certeza, a não ser que foi, no máximo, um moralista, um revolucionário ou um pregador» (Angelo Amato, Gesù. Identità del cristianesimo, Conoscenza ed esperienza , Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2008, p. 11).

É precisamente por isto que falando da imensa necessidade que há da pesquisa do rosto de Cristo hoje, não se pode ter em consideração nem constatar com um certo desgosto aquilo que alguns teólogos com muita frequência ensinaram e difundiram. É interessante recordar, a este propósito, o que o próprio Papa disse aos sacerdotes na conclusão do ano sacerdotal: «Há uma teologia que provém da arrogância da razão, que pretende dominar tudo, fazer passar Deus de sujeito para um objecto que estudamos, quando deveria ser sujeito que nos fala e nos guia. Há realmente este abuso da teologia, que é arrogância da razão e não alimenta a fé, mas obscurece a presença de Deus no mundo. Depois, há uma teologia que pretende conhecer mais por amor do amado, é estimulada pelo amor e guiada pelo amor, quer conhecer mais o amado. E esta é a verdadeira teologia, que provém do amor de Deus, de Cristo e deseja entrar mais profundamente em comunhão com Cristo. Na realidade, as tentações, hoje, são grandes; sobretudo, impõe-se a chamada «visão moderna do mundo» (Bultmann, modernes Welbild ), que se torna o critério daquilo que seria possível ou impossível. E assim, precisamente com este critério que tudo é como sempre, que todos os acontecimentos históricos são do mesmo género, excluiu-se precisamente a novidade do Evangelho, excluiu-se a irrupção de Deus, a verdadeira novidade que é a alegria da nossa fé».

Juntamente com o comprometimento pessoal de Bento XVI na pesquisa, segue-se no itinerário cultural um novo passo importante, ou seja o de realçar de modo essencial, decisivo, o «fundamento histórico do próprio cristianismo»: o Evangelho está relacionado com a história.

Talvez seja precisamente a partir destes tipos de pensamentos que, num seu excelente texto, o cardeal Amato pode escrever que «o volume Jesus de Nazaré de Joseph Ratzinger — Bento XVI se insere neste contexto. Seguindo o ritmo do tempo, situa-se no desenvolvimento mais harmonioso da pesquisa histórico-crítica contemporânea» ( vol. cit. , p. 16) e, adverte, «contém duas importantes premissas para o estudo da cristologia católica: uma metodológica e outra de conteúdo». Pode-se, portanto, afirmar quanto Bento XVI explicitou na recente Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini que «é necessário, antes de tudo, reconhecer o benefício derivado na vida da Igreja da exegese histórico-crítica e dos outros métodos de análise do texto desenvolvidos em tempos recentes. Para a visão católica da sagrada Escritura a atenção a estes métodos é imprescindível e está relacionada com o realismo da encarnação: "Esta necessidade é a consequência do princípio cristão formulado no Evangelho segundo João (1, 14): Verbum caro factum est . O facto histórico é uma dimensão constitutiva da fé cristã. A história da salvação não é uma mitologia, mas uma verdadeira história e por isso deve ser estudada com os métodos da pesquisa histórica séria» (Intervenção na XIV Congregação geral do Sínodo, 14 de Outubro de 2008). Portanto, o estudo da Bíblia exige o conhecimento e o uso apropriado destes métodos de pesquisa. Se é verdade que esta sensibilidade no âmbito dos estudos se desenvolveu mais intensamente na época moderna, mesmo se nem em toda a parte de maneira igual, contudo, na sadia tradição eclesial, sempre houve amor ao estudo da «letra». É suficiente recordar a cultura monástica, à qual devemos o fundamento da cultura europeia, em cuja raiz se encontra o interesse pela palavra. O desejo de Deus inclui o amor à palavra em todas as suas dimensões: «dado que na Palavra bíblica Deus está a caminho em nossa direcção e nós em direcção a Ele, é preciso aprender a afundar no segredo da língua, a compreendê-la na sua estrutura e no seu modo de se expressar. Assim, precisamente por causa da busca de Deus, se tornam importantes as ciências profanas que nos indicam os caminhos rumo à língua» (Discurso aos homens de cultura no Collège des Bernardins, Paris, 12 de Setembro de 2008)».

A obra que hoje examinamos demonstra precisamente isto. De facto, as numerosas e pertinentes citações de autores com os quais Joseph Ratzinger — Bento XVI se confronta nos dois volumes — de modo verdadeiro e directo, pondo em evidência quer as posições partilhadas, quer os motivos de perplexidade ou, por vezes, de aberta e documentada dissensão — demonstram não só quanto cuidadoso e delicado foi o «trabalho científico» ao qual o Papa não se poupou (usando, escreve, «todos os momentos livres para levar em frente o livro»), mas sobretudo o compromisso intelectual «para responder» a nível científico, e depois de ter ouvido «os outros saberes», a uma pergunta exigente para o homem contemporâneo: «é verdadeiro aquilo em que cremos ou não? Na teologia está em jogo a questão acerca da verdade; ela é o seu fundamento último e essencial».

E que esta «preocupação acerca da verdade» seja o núcleo dos dois volumes é realçado de modo perspicaz por um estudioso judeu, Jorge Israel. É certamente significativo reler hoje o seu comentário ao volume publicado em Março deste ano. Com efeito, o professor Israel afirma que existe «uma ameaça que hoje tem muitos rostos, entre os quais o de uma simplificação cientista que avilta a riqueza da razão humana» ( Em diálogo olhando para a mesma verdade , em «L'Osservatore Romano», 27 de Maio de 2011, p. 5) e para tal finalidade faz seu o pensamento lúcido de Joseph Ratzinger — Bento XVI o qual escreve: «A crescente cegueira sobre a própria «verdade», sobre a pergunta acerca do que é a nossa verdadeira realidade e o que é a nossa finalidade parece caminhar bastante ao passo com o conhecimento crescente da verdade funcional».

A obra de Joseph Ratzinger — Bento XVI é uma clara declaração da própria confiança nos Evangelhos. Afirma-o claramente já no preâmbulo do primeiro volume, depois de ter fornecido ao leitor as indicações metodológicas necessárias: «Para a minha apresentação de Jesus isto significa antes de mais que eu tenho confiança nos Evangelhos». Talvez esta afirmação poderia parecer desapropriada ou até desencorajadora para um leitor hipercrítico. Mas é-nos oferecida pelo Autor com simplicidade. Para Ele, depois de ter lido muito, estudado o possível e avaliado tudo com grande discernimento torna-se fundamental partir dali, dos Evangelhos. Mais uma vez, portanto, Evangelho e história encontram-se. É decisivo expressar aquela confiança simples nos Evangelhos, aquela confiança que todos nós aprendemos a ter no texto bíblico ouvido na Igreja ou lido ao lado dos nossos familiares mais velhos desde quando éramos crianças, ainda não sofisticados ou suspeitosos como o somos hoje.

Se é verdade e se podemos partilhar plenamente quanto escreveram alguns jornalistas, ou seja, que este mais do que um livro é um «testemunho comovedor, fascinante e libertador sobre a figura de Jesus», é preciso acrescentar imediatamente outro aspecto. O Papa é um teólogo e estes são dois excelentes volumes de teologia. Dito desta forma para nós pode parecer um pouco estranho, porque somos filhos do nosso tempo. Já não estamos habituados a pensar na teologia como algo comovedor, ou atraente, ou libertador. Na realidade, ninguém esqueceu o texto mais sublime e admirado da literatura italiana: A Divina Comédia. Pois bem, o que é a obra-prima de Dante se não uma obra teológica escrita de forma poética?

Eis que estes dois volumes sobre Jesus — e é outra observação que gostaria de fazer nesta sede — são um fruto maduro da teologia católica, ou seja, daquela teologia que, como disse na apresentação de Março passado o cardeal Ouellet, sabe ter em conta «a unidade da Sagrada Escritura, do conjunto da Tradição da Igreja e respeita a analogia da fé». São textos nos quais não só o católico se sente «em casa», mas o leitor que deseja conhecer e confrontar-se com a fé e com a doutrina católica pode fazê-lo com rigor e honestidade intelectual.

Aqui, se me permitis, considerando que o mencionámos acima, gostaria de prosseguir e dizer algumas palavras sobre a teologia, aliás, mais precisamente sobre a cristologia, porque é disto que se escreve amplamente nos dois volumes que estamos a tratar. Poder-se-ia afirmar sinteticamente que a cristologia tem como tarefa anunciar a fé — a que é expressa no símbolo niceno-constantinopolitano de 381 — e depois torná-la compreensível ao homem de hoje.

Que é, então, a cristologia senão procurar dizer — hoje — uma palavra «verdadeira» sobre Jesus? E como descobrir quem é Jesus e dizer uma palavra verdadeira sobre Ele? Vemos bem que sobre Jesus a história não é indulgente. Aliás, entre os personagens da história Ele é aquele sobre o qual se vai investigando; aliás, há ainda quem ponha em dúvida a sua existência.

É evidente que esta contínua contestação tem também um aspecto positivo, porque revela indirectamente quanto Jesus é importante; evidencia pelo menos que perante Ele é difícil permanecer indiferentes. Mas é também verdade que a contestação expõe o crente e o homem em busca a um exame contínuo. Para o crente não há um momento de trégua. Portanto, a cristologia é aquela mão estendida que procura acompanhar o crente e o homem que procura com sinceridade enfrentar este «exame sobre Jesus», para lhe oferecer a possibilidade de alcançar uma resposta razoável, motivada e historicamente fidedigna para defender a fé n'Ele.

Por conseguinte, o primeiro passo que a cristologia dá é ouvir a Sagrada Escritura e fazer com que se torne a alma de cada discurso sucessivo. E nestes dois volumes, tem-se a prova (e o valor) deste trabalho feito de modo excelente.

Depois, o segundo passo que a cristologia dá é fazer referência aos Padres da Igreja, aos grandes teólogos e também à liturgia porque, esta, é o modo concreto e histórico com o qual se expressa a fé da Igreja e toma forma de oração pública com o passar lento do tempo e dos séculos. Seria suficiente reler com atenção o quarto capítulo do segundo volume, e o quarto capítulo do primeiro, para se dar conta pessoalmente de como os Padres e os teólogos e a própria reflexão rabínica são a trama sobre a qual é construído todo o discruso.

Por fim, o terceiro passo dado pela cristologia — passo que não é absolutamente de pouca importância — é o de estar em constante diálogo com a cultura do próprio tempo. Daqui brota a atenção, por exemplo, pelo secularismo ou pelo pluralismo religioso, pelo relativismo ou pela pós-modernidade. São os âmbitos concretos, os lugares e as palavras onde se oferece à Palavra de Deus a possibilidade de ser acolhida, escutada, amada. Mas são também os âmbitos mais difíceis porque podem levar à traição da Palavra esquecendo e fazendo esquecer dramaticamente «a realidade vital, a presença de Deus, a sua presença entre nós, o seu falar hoje, não só no passado» (Bento XVI, Diálogo do Santo Padre com os sacerdotes , Cidade do Vaticano, 10 de Junho de 2010).

A este ponto parece-me importante adentrar-se no texto do segundo volume que, como sabemos, explora o Jesus histórico da entrada em Jerusalém até à ressurreição. Gostaria de chamar em causa, como exemplo, a pesquisa sobre o contraste entre os Evangelhos sinópticos, por um lado, e, por outro, o Evangelho de João para a data da Última Ceia, que ocupa todo o quinto capítulo. Trata-se de uma pesquisa muito interessante que demonstra uma certa convergência e compatibilidade entre as duas narrações. Ela chega à conclusão de que na realidade a morte expiadora de Jesus, «novo cordeiro pascal», se consumou no mesmo momento em que eram imolados os cordeiros pascais.

O Autor pergunta o que podemos esperar da pesquisa histórica e o que ao contrário devemos deixar à fé no momento em que a certeza alcançou os seus limites, e responde: «Sob o ponto de vista teológico é preciso dizer que, se a historicidade das palavras e dos acontecimentos essenciais pudesse ser demonstrada impossível de modo deveras científico, a fé perderia o seu fundamento. Por outro lado, como já foi dito, devido à própria natureza do conhecimento histórico não podemos esperar provas de certeza absoluta sobre cada pormenor. Por conseguinte, é importante para nós averiguar se as convicções de fundo da fé sejam historicamente possíveis e credíveis também face à seriedade dos actuais conhecimentos exegéticos. Portanto, podem permanecer abertos muitos pormenores. Mas o factum est do Prólogo de João (1, 14) é válido como categoria cristã fundamental não só para a encarnação como tal, mas deve ser reivindicado também para a última ceia, para a cruz e a ressurreição: a encarnação de Jesus está ordenada para o sacrifício de si mesmo pelos homens e este para a ressurreição; de outra forma o cristianismo não seria verdadeiro. Podemos olhar para a verdade deste factum est — como foi dito — não no modo da certeza histórica absoluta, mas reconhecer a sua seriedade lendo de maneira justa a Escritura como tal».

Se este trecho já nos abriu uma perspectiva interessante, de igual modo pode-se fazer o mesmo discurso para o capítulo nove do segundo volume sobre a ressurreição de Jesus da morte.

Cito: «Na nossa pesquisa sobre a figura de Jesus, a ressurreição é o ponto decisivo. Se Jesus existiu só no passado ou ao contrário existe ainda no presente, isto depende da ressurreição: No «sim» ou no «não» a esta questão não nos pronunciamos sobre um único acontecimento ao lado de outros, mas sobre a figura de Jesus como tal. Por isso é necessário ouvir com particular atenção o testemunho sobre a ressurreição oferecida no Novo Testamento. Mas devemos então, como primeira coisa, constatar que este testemunho, considerado sob o ponto de vista histórico, se nos apresenta de forma particularmente complexa, de modo a suscitar muitas perguntas. O que aconteceu ali? Isto claramente, para as testemunhas que tinham encontrado o Ressuscitado, não era fácil de expressar. Tinham-se encontrado diante de um fenómeno para eles totalmente novo, porque ultrapassava o horizonte das suas experiências. Por muito que a realidade do acontecimento os envolvesse fortemente e os estimulasse a dar testemunho dele, era uma situação totalmente nova. São Marcos narra que os discípulos, descendo do monte da transfiguração, reflectiam preocupados sobre a palavra de Jesus segundo a qual o Filho do homem teria «ressuscitado dos mortos». E perguntavam-se uns aos outros o que significava «ressuscitar dos mortos» (9, 9s). E de facto: em que consiste isso? Os discípulos não o sabiam e tinham que o aprender do encontro com a realidade».

Depois de ter examinado as narrações evangélicas de alguns milagres de cadáveres reanimados como o jovem de Naim (cf Lc 7, 11-17), a filha de Jairo (cf, Mc 5, 22-24.35-43 par.) ou de Lázaro (cf. Jo 11, 1-44) que depois de um tempo mais ou menos breve voltaram à sua vida de antes para depois mais tarde, a um certo ponto, morrer definitivamente, o Autor prossegue a reflexão: «Os testemunhos neotestamentários não deixam dúvida alguma de que na «ressurreição do Filho do homem» tenha acontecido algo totalmente diverso. A ressurreição de Jesus foi o ressuscitar rumo a um género de vida totalmente novo, rumo a uma vida já não sujeita à lei do morrer e do tornar-se, mas colocada além disto — uma vida que inaugurou uma nova dimensão do ser homens. Por isso a ressurreição de Jesus não é um acontecimento singular, que poderíamos descuidar e que pertenceria apenas ao passado, mas é uma espécie de «transformação decisiva» (para usar analogicamente esta palavra, mesmo se equívoca), um salto de qualidade. Na ressurreição de Jesus foi alcançada uma nova possibilidade de ser homem, uma possibilidade que interessa todos e abre um futuro, um novo género de futuro para os homens».

Para que metas conduz Joseph Ratzinger — Bento XVI o leitor com estes dois volumes? «Exagerando um pouco — responde o próprio Autor — poder-se-ia dizer que eu queria encontrar o Jesus real, unicamente a partir do qual, se torna possível algo como uma "cristologia a partir de baixo"». Só encontrando «Jesus real» acontece que «a Igreja «prossegue a sua peregrinação entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus», anunciando a paixão e a morte do Senhor até que ele volte». Do Senhor ressuscitado «tira a força para vencer com paciência e amor as aflições e as dificuldades, que ele tem quer de dentro quer de fora» (Bento XVI, Porta fidei , n. 6).

Ao crente que, mesmo gozando da luz da fé em Cristo, experimenta viver imerso entre os poderes obscuros de forças inimigas, permanece a pergunta que Judas Tadeu dirigiu a Jesus no cenáculo: «Senhor, como é possível que tenhas que te manifestar a nós e não ao mundo?» ( Jo 14, 22). Pois bem, também esta pergunta encontra uma resposta sábia no volume que estamos a analisar.

«Faz parte do mistério de Deus — escreve o Autor — agir de modo submisso. Só lentamente ele constrói na grande história da humanidade a sua história. Torna-se homem mas de um modo que pode ser ignorado pelos contemporâneos, pelas forças influentes da história. Sofre e morre e, como Ressuscitado, quer chegar à humanidade só através da fé dos seus aos quais se manifesta. Continuamente ele bate à porta dos nossos corações e, se lhe abrirmos, torna-nos lentamente capazes de «ver». E contudo — não é porventura este o estilo divino? Não subjugar com o poder exterior, mas dar liberdade, doar e suscitar amor. E o que aparentemente é tão pequeno não é porventura — pensando bem — verdadeiramente grande? Porventura não provém de Jesus um raio de luz que cresce ao longo dos séculos, um raio que não podia provir de um simples ser humano, um raio mediante o qual entra deveras no mundo o esplendor da luz de Deus? Teria podido, o anúncio dos apóstolos, encontrar fé e edificar uma comunidade universal, se não tivesse agido nele a força da verdade?».

É interessante, a este ponto, observar — como remate deste nosso encontro, do qual ainda agradecemos sinceramente — como todo o caminho de fé que a Igreja fez no tempo e continua a percorrer hoje é um caminho que nasce precisamente a partir do encontro com uma Pessoa real, verdadeira e vivente, uma pessoa que «abençoando vai embora e com a bênção Ele permanece. As suas mãos permanecem estendidas sobre este mundo. As mãos abençoadoras de Cristo são como um tecto que nos protege».

E destas «mãos abençoadoras» que nos protegem Bento XVI quer ser uma testemunha séria, credível, competente, apaixonada.

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7 de Dezembro de 2019

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