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Talvez fosse necessário

· A esterilidade de Sara, Rebeca e Raquel serve para nos explicar a importância do seu contrário ·

Habitar o mundo, gerá-lo: sejam elas mães ou não, leigas ou crentes, as mulheres desde sempre o fazem. Não é um destino imposto pela genética nem uma vocação inata, mas uma habilidade preciosa com a qual as mulheres se relacionam com o mundo. A atualidade, certamente, evoca outros cenários. Qual fé, qual vida, qual mundo tem no coração uma mãe que chora feliz diante do seu filho levado ao martírio?

Ava Gardner interpreta Sara no filme «The Bible: in The Beginning...» (1966) de John Huston

Gostaria de falar sobre o papel da vida e da morte no seio da fé e da cultura, assim como dos equívocos exiciais que, no decurso dos séculos, se engendraram à volta deste nós crucial. Faço-o como mulher e judia. Haurindo dos ensinamentos dos meus mestres e das minhas mestras.

«Quando os anjos viram que o Senhor tinha ouvido a oração de Abraão e curado o rei dos filisteus da sua enfermidade, levantaram altos brados a Deus: “Senhor do mundo! Ao longo de todos estes anos Sara permaneceu estéril, e também a esposa de Abimeleque. Mas agora, logo que Abraão te invocou, esta última concebeu um filho: portanto, seria justo que te recordasses também da Sara!”. Era o primeiro dia do ano, quando no céu se decide o destino dos homens para o tempo vindouro, e por isso as palavras dos anjos surtiram o seu efeito: sete dias mais tarde, no primeiro dia de Páscoa, Isaac veio à luz. O nascimento de Isaac não foi um acontecimento feliz apenas para a casa do seu pai: com efeito, além de Sara, Deus recordou-se então de todas as mulheres estéreis, fazendo feliz o mundo inteiro. E não só elas se tornaram fecundas, mas os cegos voltaram a ver e os coxos a caminhar normalmente, os mudos falaram e os loucos recobraram a razão».

Assim Louis Ginzberg, na obra Lendas dos judeus, narra o nascimento de Isaac, um nascimento através do qual o Senhor fez feliz o mundo inteiro. Mas como pode um único evento – aliás, íntimo, privado, familiar – fazer feliz o mundo inteiro?

O Midrash Tanchumà explica que toda a Criação – a terra, os céus, o sol, a lua – rejubilou pelo nascimento de Isaac, porque sem este evento o mundo teria deixado de existir. E em Bereshit Rabbà lemos: «Todos aqueles que ouvem falar do nascimento rejubilam – exclamou Sara – porque Hashèm (o Nome) abençoou o mundo inteiro graças a mim».

Um nascimento, não um martírio. E não um nascimento qualquer, mas o nascimento. Aquele que não só abre o seio de Sara, mas sustenta o mundo e o faz existir. Na Torá, sabemos, nada é dito nem acontece por acaso. Por conseguinte, não pode ser um acaso que a esterilidade aflija e aproxime as nossas matriarcas, exceto Lia.

O termo 'aqarà (estéril) deriva de uma raiz hebraica que exprime também o sentido de desenraizamento (laaqor, desenraizar; leìaaqer, ser desenraizado). É nesta base que a exegese rabínica interpreta o longo período de esterilidade das matriarcas – todas erradicadas de uma terra “impura” – como um tempo necessário a fim de que se realize uma real separação do mundo panteístico.

Uma interpretação que, todavia, ajuda pouco a desatar os nós que a esterilidade cria até no âmbito de uma leitura do texto bíblico: como considerar, por exemplo, o mitzvà (preceito)do perù urvù (crescer e multiplicar)? E que sentido damos à bênção concedida a Abraão, «farei de ti uma grande nação (…) Por teu intermédio abençoarei todos os povos sobre a face da terra»? Aliás, que sentido damos a todas as bênçãos que, na Torá, são sempre dom de fecundidade e de vida?

Hashèm (o Nome) abençoa, mas as matriarcas permanecem estéreis. Decerto: chegará o momento em que abrirá o seu seio, mas entretanto Sara, Rebeca e Raquel sofrem fechadas na sua “incompletude”. Incompletas, ainda não “edificadas”, eis como se sentem.

Disse Sara a Abraão: «Já que o Senhor me impediu de ter filhos, toma a minha serva; talvez eu possa formar família por meio dela» (Gênesis, 16, 2). E Raquel: «Aqui está Bila, minha serva. Deite-se com ela, para que tenha filhos em meu lugar e por meio dela eu também possa formar família» (Gênesis 30, 3). Maternidade sub-rogadas, diremos hoje, que, porém, não servem para aliviar a dor e o sofrimento. Sara, Rebeca e Raquel permanecem estéreis.

Porquê? Talvez porque era necessário. A sua esterilidade serve para nos dizer a importância do seu contrário. Seja claro: não estamos a falar de relógios biológicos que batem a hora enlouquecidos nem da tão elogiada vocação feminina para a maternidade.

O nascimento é, aqui, uma categoria necessária para pensar o mundo. O plano sobre o qual se move é teológico-existencial: preceitos e bênçãos correm o risco de cair no vácuo enquanto não abrir o seio da mulher. Mesmo a Criação teme pela própria vida e sorri de forma libertadora só no momento em que Isaac vem ao mundo: o perigo é esconjurado. O ventre de Sara (re)pôs no mundo o mundo.

Com uma passagem fundamental – o nascimento como pedra angular do mundo e da sua dizibilidade – a Torá descarta qualquer outra tradição, anula o valor do martírio e volta ao mundo terreno. Um mundo nem sempre em contraste com aquele celeste, como alguém estaria inclinado a pensar. «Assim na terra como no céu» recita o Pai-nosso e é o próprio Jesus que se apresenta como «o caminho, a verdade e a vida». Não fala de morte. Portanto, de Sara não nasce apenas Isaac.

Se a realidade não é o conjunto de factos nus e crus mas, pelo contrário, a ordem simbólica que o pensamento (linguagem, cultura, códigos sociais) atribui ao mundo, então – com o nascimento – Sara dá vida a uma imprevista ordem simbólica feminina. Uma ordem em cujo seio se destaca serena uma forma de autoridade feminina que, longe de se contrapor à forma masculina do poder, a esquiva subtraindo-se às suas regras.

O nascimento é o lugar do qual aquela autoridade tem origem, porque sem nascimento o mundo não existe. Eis o que nos diz Hashèm (o Nome) revelando o seio materno incrédulo de Sara e colocando o nascimento no centro do mundo.

Estamos no âmago de uma verdadeira revolução gnoseológica. Escreve Hannah Arendt em A vida do espírito: «Ao longo de toda a história da filosofia [Ocidental] persiste a ideia deveras singular de uma afinidade entre filosofia e morte». Grande paradoxo! Existiriam dois mundos: um real e um que é apenas mera aparência. Qualquer pessoa dotada de bom senso seria levada a pensar que o mundo real é aquele onde se nasce e se morre, as pessoas se apaixonam, estabelecem amizades, se faz política, se constroem famílias.

Mas não. O mundo real é aquele que os filósofos definiram «o mundo das ideias» e que outros preferiram chamar inferno ou paraíso. Para alguns é o mundo do pensamento, para outros o da alma. Em ambos os casos foi o mundo que separou a alma do corpo condenando, este último, à irrelevância. Corpo aparente e caduco. E então o que pode ser o martírio? Reais a alma e o pensamento.

A tradição judaica vai numa direção totalmente diferente, porque o nascimento de Isaac resgatou aquele mundo da irrealidade e colocou a praxe no lugar de um pensamento que infrutuosamente, e por séculos, pensou só em si mesmo.

A mudança de perspetiva é total. O nascimento permite o enraizamento na realidade, chama para a vida sujeitos singulares que recosem incessantemente aqueles corpos e pensamentos que o Ocidente queria manter separados e inconciliáveis. E é por esta razão que o mundo sorri.

Este mundo, juntamente com as criaturas que nele habitam, pode ser finalmente pensado e dito – em síntese, tornado real – dentro de uma nova ordem simbólica que nasce do corpo de mulher.

Aliás, não é por acaso que precisamente graças à reflexão de uma mulher – de uma mulher judia – a categoria da natalidade tenha assumido uma posição absolutamente central na filosofia do século XX. De facto, deve-se a Hannah Arendt o mérito de ter desenvolvido uma categoria crítica – precisamente a da natalidade – capaz de fazer saltar todo o aparelho metafísico construído sobre a morte e acerca da “mortificação” do aparecer.

Portanto, o mundo nasce quando o Senhor abre o seu seio. Renasce o mundo, sob o olhar acolhedor, mas sempre valioso das mulheres. Nasce e põe-se a caminho.

Iaia Vantaggiato

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22 de Outubro de 2019

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