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Sursum corda, padre Baptista!

· A correspondência entre o futuro Paulo VI e a mãe Judite Alghisi ·

 Os quarenta anos do colégio universitário feminino Santa Catarina, que surgiu em Pavia em 1973 por vontade do Papa Montini, foi de recente festejado com o convenho «Paulo VI, Catarina, as mulheres». O objectivo era testemunhar a especial atenção sempre demonstrada por este Pontífice à figura feminina: uma atenção que surgiu na família e depois sempre cultivada com uma sensibilidade profética.

Judite Alghisi com os seus filhos numa fotografia de 1906 (João Baptista é o primeiro à esquerda)

Colaborador da revista mensal «La Madre Cattolica» desde os primeiros anos de sacerdócio, Montini é chamado diversas vezes pela directora da revista Angela Bianchini a oferecer às leitoras uma orientação sobre o sufrágio feminino (estamos em 1921 e fala-se por agora de eleições administrativas). Escrevendo em nome da redacção, o futuro Paulo VI diz-se de acordo com esta oportunidade – inspirada por evidentes razões de justiça – contanto que seja tomada a sério, isto é preparando-se cuidadosamente para o voto de modo a torná-lo útil para o bem de todos. Uma convicção amadurecida sem dúvida com a experiência vivida em casa.

A mãe de João Baptista, Judite Alghisi, é uma mulher com uma boa cultura seja graças à família de onde provém (que lhe consentiu de ser educada nas Marcelinas, no colégio milanês de rua Quadronno); seja graças à família adquirida, onde fé e cultura se misturam reforçando-se uma à outra e alargando-se aos assunto sócio-políticos contemporâneos, lidos sempre numa perspectiva providencial.

Da primeira parte da correspondência epistolar montiniana (1914-1923), publicada em 2012 pelo Instituto Paulo VI, e das cartas dos anos 1928-1929 que tenho o privilégio de ter lido como colaboradora da próxima tranche do carteiro, assoma a importância para Montini de algumas figuras femininas, e quanto elas contaram na formação do seu particular feminismo. Entre todas, revelam-se fundamentais as cartas da e para a mãe.

É com ela que João Baptista tem um diálogo intenso, facilitado pela extrema confidência que ambos possuem com o meio epistolar, mas sobretudo por uma especial afinidade de sentimentos. A mãe escreve ao filho com regularidade (de preferência durante as tardes dos dias de festa, dedicados especialmente às relações familiares e de amizade), provendo a informá-lo de todas as novidades da família – sobre a saúde, as viagens, os compromissos de trabalho ou de caridade – e sem poupar recomendações para a sua saúde delicada. O padre Baptista não é tão constante nas respostas; mas nunca está muito tempo sem dar notícias e, mesmo nas cartas endereçadas quase sempre de modo genérico aos familiares («Caríssimos» é o afectuoso e habitual início), sente-se que a sua interlocutora directa é a mãe, através da qual são filtradas as informações que chegam até Roma de Brescia, de Verola, de Dosso ou dos lugares de férias frequentados pela família. Escreve o padre Baptista no dia 8 de Dezembro de 1929: «Recebo com pontualidade as vossas cartas e dão-me sempre muito prazer. Agradeço-vos com afecto: elas duplicam a minha vida, fazendo-me participar nas coisas daí, que são sempre queridas e, vistas com a piedade da Mãe, todas são boas e consoladoras».

Além da crónica, porém, revelam-se aqui e ali nas cartas momentos de profunda inquietação. O carácter atormentado do padre Baptista, diante das incertezas da estrada que se lhe via abrindo diante, fá-lo algumas vezes cair em perturbações que a fé pode sim conter e explicar, mas que contudo necessitam de palavras de consolo humano: melhor ainda, de consolação materna.

Por exemplo, escreve Montini à família em 9 de maio de 1921, referindo-se ao empenho político do pai e do irmão: «também nesta batalha estou escondido: deve ser assim toda a minha vida?»; responde-lhe a mãe a seguir em 13 de maio. «E nós... escondidos..., com a nossa coroa na mão, com o coração um pouco em apreensão, mas confiante... estaremos alerta. Oh, caríssimo, não penses que estás sem fazer nada: a tua parte, aquela que o Senhor te confiou é santa como uma missão e terá o seu mérito, a sua compensação quanto mais tu a aceitares, desempenhando-a com o espírito sereno e generoso. Não todos devem desempenhar a mesma função e não todos devem manejar o mesmo instrumento: assim a Providência dispôs porque com a diversa e multíplice canseira de cada um, se cumpra o harmonioso desígnio do edifício divino».

E ainda, esta vez de Varsóvia em 2 de Setembro de 1923: «Algumas vezes vejo que a minha habitual falta de forças não me deixa esperar de ter alguma vez uma ocupação fixa, orgânica e simultânea com a dos outros, vem-me o desejo de “retirar-me para vida privada”; penso nisto no caso que me fizessem voltar para a Itália. Sou um incapaz, um insuficiente, e ainda por cima impaciente; a minha saúde adverte-me que, como a tela de Penélope, a minha vida, de um ponto de vista humano, não pode ter nenhuma continuidade; e parece-me de viver na presunção de ser também eu, como os outros, apto para qualquer trabalho e para qualquer empenho; de modo que às vezes enfraquece a mola de qualquer desejo de actividade. É talvez a cobardia de quem recebeu um único talento? Se é o caso, digam-mo sinceramente (...) e ensinem-me depois na prática o que de bem eu possa e deva fazer».

A resposta da mãe é do dia 9 de Setembro: «A tua última carta deixava-nos perceber no teu espírito o retorno daqueles momentos escuros que são a causa, ou o efeito, de um pouco de mal-estar, de cansaço... nós conhecemo-los bem e sabemos também como são fugazes... Portanto esperamos, que terás bem depressa superado a crise e a confiança, a serenidade terão regressado para o teu coração, as tuas forças terão recuperado energia e vigor. O Senhor que quer o sacrifício e dar-nos-à a recompensa, permite com frequência nós sintamos-lhe todo o peso e a amargura. Então torna-se escuro à nossa volta, a via parece-nos difícil e o nosso passo torna-se vacilante, pesado o nosso trabalho como se fosse superior às nossas forças, o seu fim inútil... Como eu conheço estes momentos em que tudo perde a cor da esperança!... Mas então sabes o que faço? Tento aproximar-me do Senhor, apesar da minha miséria que me oprime e... penso em ti! Em ti que lhe pedes por mim, que és o Ministro dele, que o serves debaixo da sua ordem directa e... parece-me de ter um pouco de direito à sua piedade... assim a hora fosca passa, depressa, e sinto pelo Senhor, por ti, um novo e cordial reconhecimento. Sursum corda, portanto, tudo!»

A fé profunda de Judite Alghisi não se deixa abater; a robusta figura materna une autoridade e amor, energia e compaixão: próprio o que é necessário para transmitir ainda mais força a uma vocação inequívoca e, ao mesmo tempo, difícil como a do filho. Qualidade de carácter, amor de mãe, mas também e sobretudo fé, além de formação religiosa e cultural, são indispensáveis para apoiar uma conversa – que na realidade é uma conversa espiritual – a estes níveis. Judite mostra possuir tais qualidades e com convicção continua a fazê-las crescer durante a sua vida. É ainda a correspondência epistolar a demonstrá-lo (ao referir leituras, participação na vida social e política, as frequentações formativas), juntos com os testemunhos biográficos que ficaram.

Encontramos nela todas as características da mulher que Montini via pronta para o voto e em grau, também através deste instrumento, de beneficiar à sociedade. E é com probabilidade ao pensar nesta figura feminina ideal – que não renuncia e ser esposa e mãe mas, graças às qualidades adquiridas com o estudo e a reflexão, consegue agir para o bem de todos – que Paulo VI quis um colégio onde as jovens, aplicando-se nos estudos sem negligenciarem as exigências do espírito, pudessem desenvolver os seus talentos não com o objectivo da carreira ou por aquela que hoje chamaríamos uma reivindicação de género, mas em virtude de uma caridade intelectual capaz de exprimir o melhor do génio feminino e de consumi-lo pelos outros. Com o trabalho que fazemos no Santa Catarina, interpretando o mudar dos tempos mas sem deixarmo-nos condicionar pelas modas, empenhamo-nos em não desiludir as expectativas.

Maria Pia Sacchi Musini
Reitora do colégio universitário Santa Catarina de Sena (Pavia)

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18 de Outubro de 2019

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