Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Sonho de criança

· Em diálogo com o cardeal Gerhard Müller que guia o antigo e temível Santo Ofício ·

O cardeal Müller – prefeito da Congregação para a doutrina da fé, o antigo e temível Santo Ofício, é considerado um conservador ratzingueriano numa cúria que se está a abrir a uma visão menos rígida da tradição católica – impressiona-me desde o início ao receber-me na sua casa, pouco distante do Vaticano, de sandálias e t-shirt preta.

O cardeal Gerhard Ludwig Müller, que nasceu em Finthen em 1947, é o prefeito da Congregação para a doutrina da fé. Teólogo, em 1977 obteve o doutoramento em teologia sob a guia de Karl Lehmann com uma tese sobre Dietrich Bonhoeffer.

Cordial e alegre, desculpa-se pela informalidade da sua roupa devido ao calor e leva-me para o seu lindo escritório, onde os livros estão colocados em ordem. Recorda-me imediatamente que aquele foi o apartamento ocupado pelo cardeal Ratzinger e então observo-o com um olhar diverso, ao tentar imaginar ali a presença doce e o amor pelo estudo do Papa emérito. Gerhard Müller, um gigante renano, é diverso do seu ilustre predecessor de cuja obra omnia se está a ocupar. É muito extrovertido, quase brincalhão, ao mencionar-me que não quer falar de mulheres mas sim da Nossa Senhora. Contudo conduzo a conversa para o nosso tema, a sua relação com as mulheres, e fala-me da sua mãe com muito carinho.

«Creio que constitua, para todos os homens, uma ligação especial, ao estar vinculada à sua vinda ao mundo. Hoje penso nela com o olhar de um adulto e apercebo-me que foi o meu primeiro, e mais importante, ponto de referência para todas as experiências, iniciando pela oração. Recordo-a ainda à noite, sentada na minha cama, a ensinar-me a rezar e a reconhecer a presença de Jesus, um rosto verdadeiro, uma referência certa. Recebi dela aquele sentido de confiança original que é a base de qualquer fé, mesmo da relação de uma criança com Deus. Com ela entendi que Deus se importava realmente de mim e que não era um conceito filosófico abstracto. No quarto havia imagens de Maria e fomos habituados a nos dirigirmos à Igreja como a um aspecto do rosto de Deus».

A relação da família com a paróquia era viva e constante, pergunto-lhe qual foi a reacção dos seus pais com a sua escolha sacerdotal, que adveio depois que frequentou o liceu católico local onde encontrou bons professores, e também óptimas professoras, especialmente de matemática e de inglês.

«Recordo que desde sempre tive o desejo de ser sacerdote, como o testemunha um episódio de família: a minha mãe contava que um dia – tinha eu quatro anos – encontramos o bispo de Mainz, Albert Stohr, um excelente teólogo, o qual me impressionou tanto que exclamei: quando for grande quero ser bispo! A minha mãe era dona de casa, muito atenta à educação dos seus quatro filhos, dois meninos e duas meninas, que seguiu sempre com amor e, quando era necessário, rigor. O meu pai era operário na Opel, mas para manter a numerosa família também trabalhava a terra. As duas irmãs mais velhas foram mulheres emancipadas, empenhadas nos seus empregos, uma professora primária e a outra empregada numa companhia de seguros. Hoje tenho vinte e três sobrinhos e se alguém diz que nós sacerdotes estamos longe da vida, penso neles que me mantêm bem ligado às mudanças e aos problemas de hoje».

Quando lhe pergunto se, além destas figuras familiares, também cultivou amizades com mulheres, fica em silêncio alguns instantes. Depois fala-me das boas irmãs da sua creche, que continuou a frequentar e que, nos anos sucessivos, também ajudou. Recorda ainda as jovens estudantes que encontrou quando ensinava, mas não parece que tenha tido uma relação de amizade mais estreita com alguma delas.

Fala com carinho das duas irmãs bávaras que vivem com ele há muitos anos e que partilharam com ele as suas experiências pastorais. «Recordo de modo especial que uma delas durante quarenta anos tratou de crianças abandonadas, sobretudo as crianças daquelas famílias que se desagregaram e que sofrem a solidão e o abandono. Para mim foi muito importante ouvi-la e partilhar esta missão. Sempre pensei que o trabalho dela com as crianças fosse tão importante como o meu de bispo». E não mudou de ideia agora que é prefeito: quando foi visitar o Papa Francisco, ao apresentar-lhe os que trabalham na Congregação, quis que estivessem presentes também os que se ocupam da limpeza.

Na formação de um católico culto há sempre espaço para os livros escritos por mulheres, não é fácil excluí-las de uma formação teológico-espiritual. Aconteceu o mesmo com o cardeal. «Certamente, para mim, foi muito importante a leitura de Teresa de Ávila, junto com a da outra Teresa, a de Lisieux. Mas sobretudo estudei Hildegard von Bingen, à qual dediquei três ensaios. Interessou-me a sua teologia por imagens, uma teologia que revaloriza os símbolos e o poder deles como modo para compreender realidades mais complexas. A ideia de chegar a decifrar os mistérios da teologia através de imagens, portanto revalorizando a função da intuição, equilibra a teologia racional de Tomás e da primeira Escolástica. Seguindo Hildegard, atraiu-me muito a mística feminina da Idade Média, desde a ideia de Igreja de Catarina às visões de Brigida da Suécia. Depois, óbvio, também me impressionou muito Edith Stein, a sua biografia e as suas obras, escritas num alemão muito bonito. Foi muito importante para mim, como para todos os crentes alemães, Elizabeth da Turíngia, contemporânea de são Francisco de Assis, que seguiu a sua mesma via de doação total aos pobres. Ela própria, mesmo governando depois da morte do marido, torna-se pobre e dedica-se aos miseráveis e aos leprosos. É um grande exemplo de doação de si próprio e de admirável gestão do poder».

Mas passemos agora aos problemas das mulheres de hoje, que o cardeal conheceu não só na Alemanha, mas também durante as frequentes viagens à América Latina. Ali Müller denuncia a infeliz condição em que vivem muitas mulheres, que nasce da instabilidade da vida familiar – circunstância que obriga cada vez mais mulheres a aguentarem sozinhas o peso dos filhos para sustentarem e educarem – e de uma mentalidade que não hesita em definir machista. Recorda também que, quando era bispo de Ratisbona, trabalhou em estreita colaboração com as dioceses dos países do Leste contra os traficantes de mulheres imigradas que eram trazidas para os ocidentais enganadas, para se prostituírem. A este respeito recorda de ter encontrado muitas dificuldades nos ambientes políticos.

Obviamente a sua história pessoal determina a sua atitude em relação à colaboração das mulheres. «Hoje as mulheres são colaboradoras bem-vindas nos escritórios diocesanos, onde desempenham tantas funções, muitas vezes directivas, e portanto já colaboram de modo intenso na vida da Igreja».

Quando observei que as mulheres ajudam mas queixam-se de serem pouco ouvidas, ficou admirado: a sua experiência alemã é muito diferente, ali as mulheres contam realmente, e o papel delas é reconhecido oficialmente – recebem um salário – e não é somente assimilável ao trabalho voluntário. Também na Congregação para a doutrina da fé, Müller já encontrou um bom número de colaboradoras, que desempenham também funções não secundárias. Não esconde a estima pela sua secretária, Clothilde Mason, e por outras colaboradoras, quase todas mulheres casadas e com família. E também nota que há dificuldade para chamar para colaborar com a Congregação teólogas que, se têm família, não estão dispostas a transferirem-se para a Roma. Adianta-me que a nova Comissão teológica internacional, que está para ser nomeada pelo Papa, contará com um maior número de mulheres que aquela está para sair. Parece-me que passarão de duas para cinco ou seis.

A propósito da presença feminina na vida da Igreja – que ele define muito diversa da masculina mesmo no que diz respeito à busca teológica - o cardeal recorda um texto de Bergoglio sobre os jesuítas, no qual o futuro Papa salienta que a diferença entre os católicos e os calvinistas esteja na capacidade dos católicos de terem em consideração também as emoções, e não só o intelecto, na via que conduz a Deus.

É uma reflexão que impressiona, sobretudo hoje que as confissões protestantes abriram as portas ao ministério feminino, e portanto aparentemente são mais “feministas” que a católica. Deste modo Müller salienta que a presença feminina deve ser reconhecida na sua especificidade e não por imitar o modelo masculino. Por isto ele insiste no facto que é necessário recordar que a Igreja deve ser mãe, não instituição, porque não se pode amar uma instituição, mas uma mãe sim. O modelo da Igreja é a família, a primeira Igreja doméstica, onde as mulheres desempenham uma função importante mas diversa.

A última pergunta é a mais quente, sobre a conflitual questão das freiras americanas da Leadership Conference of Women Religious, com as quais o cardeal teve de recente uma complexa negociação. «Temos que recordar que não são todas as freiras americanas, mas um grupo de freiras da América do Norte reunidas numa associação. Recebemos muitas cartas de outras freiras desoladas, que pertencem às mesmas congregações, que sofrem muito muito devido ao endereço que elas dão à missão delas. Por outro lado, as congregações não têm mais vocações e correm o risco de extinguir-se. Tentamos sobretudo de estabelecer uma relação menos conflitual, de fazer baixar a tensão, graças ao bispo Sartain que mandamos ir negociar com elas, um homem muito brando. Sobretudo devemos esclarecer que não somos misóginos, não queremos eliminar uma mulher por dia!

Sem dúvida temos uma visão diversa da vida religiosa, mas esperamos poder ajudá-las a encontrarem a identidade delas».

Sem dúvida o cardeal Müller, o alemão que depois do americano Levada sucedeu a Ratzinger na posição talvez mais difícil no governo da Igreja, quer estabelecer com as mulheres relações cordiais e abertas, de verdadeira colaboração, sem pensar em grandes revoluções internas.

Lucetta Scaraffia

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

20 de Novembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS