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Somos os invisíveis

Na tarde de 2 de março o Papa visitou em Roma a casa refúgio para mães detidas com filhos menores e recebeu uma carta que publicamos na íntegra.

Santidade, querido Papa, somos os invisíveis.

Somos alguns dos milhares de meninos e meninas, filhos de pais detidos nas prisões italianas e vivemos com eles na prisão ou vamos visitá-los.

Somos apenas marcas deixadas em pavimentos sujos e frios, onde chegamos depois de viagens extenuantes, para encontrar ou conhecer pela primeira vez a nossa mãe ou para ali crescer na violência e no abandono.

Para defender a dignidade dos nossos pais detidos contam-nos mentiras dizendo que entramos num colégio ou num lugar de trabalho, «num lugar onde se constroem torres, navios e aviões». Mas nós sabemos que nestes lugares os aviões não voam e não há mar. Os nossos pais, diante de nós, sentem vergonha das suas culpas, dos seus erros. As nossas mães, diante de nós, têm vergonha até de pronunciar a palavra “prisão”.

Para ir visitar os nossos pais em desprezíveis e inacessíveis prisões situadas nos campos desolados e de difícil acesso, nós pagamos com extenuantes viagens de comboio, com a moeda das emoções e dos receios. Receios que invadem os nossos pesadelos noturnos e medos que crescem à medida que nos aproximamos da prisão.

Por um abraço atravessamos a Itália em comboios cheios, com as nossas mães carregadas de pacotes e de irmãozinhos ao colo. Partimos da Sicília para chegar a Milão, de Veneza para Palermo. Chegamos cansados e somos obrigados a esperar horas sem fim debaixo de chuva e ao frio, ou sob o calor do sol.

Somos revistados, violentados na nossa intimidade pelas mãos de adultos desconhecidos, que nos tiram os peluches, os brinquedos simples que são os nossos amigos, e abrem-nos, controlam-nos, por vezes tiram-nos até as cuecas para se certificarem que as nossas mães não esconderam ali drogas.

Somos flores frágeis no deserto da burocracia e das medidas de segurança, na indiferença de adultos alienados pelo trabalho rude e violento. Somos marcas nos muros desencrostados, nos vidros de balcões divisórios. Para muitos somos estatísticas, números: 4.500 crianças têm a mãe na prisão, cerca de 90.000 têm o pai detido. Para outros somos instrumentos de propaganda, até os nossos pais por vezes especulam sobre nós.

E eis como, de um dia para outro, nós crianças entramos numa vida diária de silêncios, de palavras ditas e não ditas, de lugares e não lugares. É como se nascêssemos pela segunda vez, tornamo-nos assim os filhos dos detidos. E todos os dias e em todos os lugares onde vamos, da escola ao bairro no qual vivemos, nós pagamos um preço elevado por erros nunca cometidos.

Somos filhos da complexidade, da pobreza, da ignorância. Em nós está impresso o estigma social. Vivemos em solidão com um só dos pais que não nos pode dedicar tempo porque trabalha para manter a família, porque tem que se encontrar com os advogados para defender o outro que está preso, ou porque vivemos juntos em celas pequenas e sobrelotadas onde não se tem tempo para o amor, para crescer serenos, onde não se vive um crescimento normal e por vezes nem sequer há tempo para um abraço.

A maior parte somos abandonados por parentes ou amigos, ou até famílias desconhecidas, na escola somos marginalizados e afastados pelos nossos companheiros. Quando escrevemos temas ou pensamentos sobre os nossos pais, para não nos expormos contamos que os nossos pais trabalham em países fantásticos e distantes e as nossas mães são rainhas.

Para nos defendermos tornamo-nos agressivos e intratáveis, mas não somos maus. São os outros que nos veem e nos querem assim. Somos os filhos dos presos.

Querido Papa, obrigado por nos ter dado hoje a sua mãe, recorde-nos nas suas preces a Deus e peça-lhe perdão pelos nossos pais. Nós amámo-los, apesar de tudo, para nós são sempre os melhores, são os nossos heróis que com um abraço fazem desaparecer todos os monstros noturnos e não os trocaríamos por todo o ouro do mundo.

Papa Francisco, nós pedimos apenas para sermos reconhecidos pelo que somos: crianças. Nós tivemos a “sorte” de ter uma mãe detida numa das prisões de Roma e isto permitiu-nos encontrar pessoas amorosas que se ocupam de nós.

Homens e mulheres, agentes e voluntários de organizações sociais que criaram para nós uma alternativa à prisão. Ofereceram-nos um alojamento com espaços coloridos e acolhedores, onde podemos ter uma vida mais normal, ir à escola como os outros, brincar e viver durante todo o tempo que as nossas mães tiverem que pagar a sua dívida à sociedade e à justiça.

Há anos que estes homens e mulheres lutam a fim de garantir os nossos direitos, para nos proporcionar um acolhimento mais à medida de criança, para permitir que estejamos com os nossos pais como quando se está em casa, sentados num sofá ou em cima do tapete a desenhar.

Estão ao nosso lado, ajudam a nossa mãe a resolver os problemas, a ter um futuro, educam-nos no respeito, procuram incutir em nós aqueles sentimentos que nos são negados por outros.

Nós, crianças, dependemos de vós, adultos, se nos abandonardes nós somos o medo, se nos reconheceis nós somos o amor. Mas queremos crescer, aprender, ouvir e sobretudo nós queremos mudar o nosso destino infame e o dos nossos pais.

Hoje Vossa Santidade abraça-nos com o seu amor imenso, conforta-nos com as suas carícias, acolhe-nos amorosamente na imensa casa de Deus.

Nós rezamos para que Vossa Santidade a preserve.

Nós rezamos para que Deus lhe conceda a força necessária para acolher em si os males e os sofrimentos do mundo.

Muitas crianças como nós estão a morrer cruelmente no silêncio e na indiferença, na violência de guerras causadas pelo ódio e pelo rancor de quem, no mundo, não quer ver nem amar.

Pelas meninas e meninos

Luigi Di Mauro, responsável da Casa de Leda

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20 de Outubro de 2019

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