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Sob a protecção da Virgem Maria

· A infância de Jesus no livro de Bento XVI ·

Depois do magistral Jesus de Nazaré , dedicado à última semana da vida de Cristo, nada era mais esperado do que o novo livro do Papa sobre a primeira semana. A Paixão é narrada nos mínimos pormenores e em diversos capítulos pelos quatro evangelhos. À semana do nascimento é dedicada apenas uma página em Mateus, duas em Lucas, e é praticamente tudo. Mas nela se concentram as festas mais populares da devoção cristã, queridas até a quantos não têm uma recordação da sua religião: Anunciação, Visitação, Natal, Santos Inocentes, Epifania, Apresentação no Templo. E quanto espaço ocupa na arte e na iconografia! Os pintores imergem-se literalmente com grande alegria na representação destes acontecimentos, que são chamados precisamente «mistérios gozosos».

A infância de Jesus é um tema difícil. É compreensível que o Papa o tenha deixado para o fim. A documentação tão escassa expõe a qualquer fantasia, a qualquer erro, e só Deus sabe quanto foram férteis  estes vinte séculos. É uma recolha requintada para o «histórico-crítico» que pode  sugerir numerosos argumentos tirados da história geral, da história comparada das religiões, da ciência mitológica, e também do conhecimento filológico das Escrituras e dos  costumes do mundo judaico.  É decisivo o que está em jogo, pois se trata do mistério central, a Encarnação. Ou o Menino jesus é Deus (e homem) desde a sua concepção, ou é só um homem particularmente bom que teve um fim trágico.

É  portanto com uma certa ansiedade que se pega neste livro que o Papa assina na sua dupla veste de sumo Pontífice e de teólogo «privado». É bastante diverso dos precedentes. Não se apresenta sob forma de tratado, mas antes como uma sucessão de homilias ou de meditações espirituais, que têm como fio condutor a fé. Esta virtude é a base necessária para uma compreensão autêntica do texto. Praestet fides supplementum sensuum defectui. Sem a inteligência da fé a narração sobressai como uma lenda ou como uma trama de absurdidades. É  preciso também ciência. Com o método que lhe é próprio o Papa relacionao Antigo Testamento com o Novo como uma só Revelação. Não se limita a fazer como Mateus que justifica as palavras do evangelho através de citações dos salmos e dos profetas. Com efeito, aos olhos dos judeus ou da exegese moderna, aquelas palavras proféticas não designam de maneira unívoca os acontecimentos futuros. Não são previsões. Os factos também não são ilustrações das palavras antigas. Segundo  a expressão de Joseph Ratzinger, estas últimas são palavras «sem dono». A realidade que trazem não era directamente reconhecível, mas adquirem o seu significado mediante o acontecimento no qual se tornam realidade. Se se esvazia o acontecimento, permanece só um «midrash haggadico», uma interpretação da Escritura mediante uma narração. Mas Lucas não constrói uma narração piedosa, refere acontecimentos positivos e procura o seu significado através de palavras claras ou «na expectativa», ouvidas à luz da fé. É o que a Igreja sempre afirma.

No momento em que apresenta este quadro metodológico, Bento XVI examina pormenorizadamente os poucos versículos, as poucas palavras que os evangelistas consideraram suficientes para a salvação do mundo. Compete a nós descobrir até que ponto são inexauríveis. Nada é descuidado, nada é saltado. Faço um exemplo: o anúncio do nascimento e o parto virginal. Todos os sentidos possíveis de Mateus e de Lucas são crivados. Que pretendia dizer Isaías ao profetizar: «Eis que a Virgem irá conceber e dar à luz um filho, e chamá-lo-á Emanuel»? É uma palavra que se dirige ao rei Achaz, que assume um significado político numa circunstância histórica particular? Ou é uma «palavra na expectativa» dirigida a Israel ou a toda a humanidade? No final da pesquisa, no fim da análise, palavra por palavra, e de uma exegese que pretende ser ao mesmo tempo científica, teológica, espiritual, a jovem de Nazaré é identificada como sede da Shekinah, trono da Sabedoria, Arca da Aliança e todos os títulos que a Igreja desde sempre atribuiu à Mãe de Deus, semper virgini .

Há tempos que uma pergunta atormenta o mundo cristão. A partir da expressão «irmãos de Jesus», muitos fiéis perguntam-se: por que Maria não poderia ter tido outros filhos? Não é natural nem conforme a Torah? Poderíamos portanto esperar que, sem entrar no debate exegético, o Papa declarasse com a sua autoridade que segundo qualquer evidência teológica uma tal suposição é impensável. De facto, ela derruba o dogma da encarnação e em definitiva toda a fé católica. O Papa não o faz. Deixa os fiéis deduzir sozinhos que – considerando o que é a Virgem Maria, do modo como ele a apresenta, e o que é José – uma tal suposição é simplesmente impossível. De resto, era o que pensavam também Lutero e Calvino. O Papa está tão certo disto que aplica, se podemos dizer, o aforismo de Wittgenstein: onde não se pode falar, é preciso silenciar.

Todo o livro está imerso numa atmosfera serena. Nenhuma polémica, mas uma reflexão pacata, de uma grande densidade e ao mesmo tempo de grande doçura. Evidentemente para o escrever o Papa pôs-se sob a protecção da Virgem Maria, que é o seu argumento principal.

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10 de Dezembro de 2019

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