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​Simone de Beauvoir mãe do feminismo

Não se nasce mulher, torna-se mulher. Esta frase simples resume o conteúdo explosivo da obra-prima de Simone de Beauvoir, a qual, ao ser publicada em 1949, provocou um grande escândalo (vindo a ser inserida, em 1956, no Índice dos livros proibidos). Ser mulher não é um dado natural, não se explica com a biologia e nem sequer com a psicanálise. É um acontecimento cultural, o resultado da ação de processos de construção simbólica que estão na origem da história humana. As mulheres que atualmente adquiriram os direitos de uma igualdade formal encontram-se, segundo a escritora francesa, perante a grandiosa tarefa de descobrirem quem são. Com efeito, nenhuma mulher pode pretender colocar-se mais além do próprio sexo: nem sequer uma mulher privilegiada como ela, que não experimentou diretamente a discriminação. Aquilo que nenhuma mulher pode evitar é a pergunta sobre o que significa ser uma mulher. A identidade feminina é algo estranho, construída pelo olhar do homem. A mulher não é ela mesma, mas outro em relação ao homem, o seu objeto. O relacionamento entre os dois sexos não é uma relação de reconhecimento recíproco, na qual as duas consciências se relativizam mutuamente. Por isso, a mulher é apenas o segundo sexo: entre os sexos existe uma hierarquia. O homem constrói a sua liberdade no relacionamento com o outro, que é a mulher; a mulher não edifica a sua liberdade, porque não apresenta o homem como o seu outro, e não consegue sair da sua posição de objeto. Ela permanece enredada na biologia, prisioneira da espécie e, por isso, à mercê das construções culturais sobre a essência do feminino.

À distância de mais de sessenta anos, se nos questionarmos qual é a herança deixada pela filosofia ao feminismo de Novecentos, não podemos deixar de relevar o caráter seminal do seu pensamento. A negação do fundamento biológico do ser mulher, não obstante seja declinada de modos diversos, é maioritária no feminismo, assim como a identificação do caráter atribuído à mulher pelo pensamento masculino. Através deste aspeto podemos ver na sua abordagem um primeiro exemplo de desconstrução da identidade. No entanto, a razão principal do interesse pelo Segundo sexo hoje está precisamente na estrutura filosófica de origem existencialista, e por conseguinte no seu pôr no centro a questão da liberdade. A liberdade é o tema para o qual convergem formas de feminismo até muito diferentes entre si, e é entendida exatamente como a própria Simone de Beauvoir a considerava: não como uma soma de direitos ou de oportunidades, mas como um modo livre e originário de definir o seu estar no mundo por si só, assente na própria base. Nela esta intuição adquire as tonalidades da filosofia sartriana. Esta abordagem parece distante da mais recente sensibilidade da investigação feminina aos temas do cuidado e das relações. Mas a tensão ética para a reapropriação de um sentido universal do ser mulher como ser humano que deve conquistar uma própria posição independente no mitsein, no ser-com, faz desta filósofa uma inesquecível mãe do feminismo.

Claudia Mancina

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22 de Agosto de 2019

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