Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Separados por amor

· A família filipina confronta-se com a migração ·

Os ritmos vertiginosos do mundo actual colocou a vida familiar numa situação muito complexa. É como se estivesse sob o assédio dos numerosos desafios e dos problemas com os quais hoje se deve confrontar. A Igreja está bem ciente das rupturas que actualmente se verificam no âmbito familiar. Ao anunciar a proclamação, por parte do Papa, de um Sínodo extraordinário sobre a família em 2014, o director da Sala de Imprensa da Santa Sé afirmou: «É justo que a Igreja se mova comunitariamente na reflexão e na oração, assumindo orientações pastorais comuns nos pontos mais importantes - como a pastoral da família - sob a guia do Papa e dos bispos». Durante a visita às Filipinas em Janeiro de 2015, no discurso às famílias, o Papa Francisco observou que «inumeráveis famílias sofrem ainda as consequências das catástrofes naturais. A situação económica provocou a fragmentação das famílias com a emigração e a busca de um emprego, para além dos problemas financeiros que atormentam muitos lares.

Enquanto muitas pessoas vivem em pobreza extrema, outras caem nas malhas do materialismo e de estilos de vida que abolem a vida familiar e as exigências mais fundamentais da moral cristã». Quais são os desafios que deve enfrentar a vida familiar na Ásia como consequência da emigração e da sua feminização? Quais desafios apresentam estas mudanças à missão evangelizadora da Igreja? Estas são as questões que tencionamos enfrentar. Quando se fala da estrutura familiar de numerosas culturas asiáticas, as analogias são maiores do que as diferenças. As famílias são muito unidas, bastante hierárquicas e alargadas, compostas por pessoas de diversas gerações ou graus de consanguinidade que vivem debaixo do mesmo tecto ou muito próximas entre si. Tradicionalmente, dá-se por certo que é o pai quem trabalha para manter a família. Também a mãe pode trabalhar, mas muitas vezes fica em casa para cuidar dos filhos. Embora esteja a aumentar o número de mulheres asiáticas que escolhem seguir uma própria carreira fora de casa ou que decidem trabalhar para uma realização pessoal ou para satisfazer as necessidades financeiras da família, em muitas famílias asiáticas geralmente é a mãe que permanece em casa ou tem a responsabilidade pela mesma. Todavia, a grande pobreza, os desequilíbrios sócio-económicos que ameaçam a vida e o pedido ilimitado de mão-de-obra e de produtos baratos no mercado mundial estão a alimentar o movimento migratório, modificando a visão global da família asiática tradicional. A realidade da migração humana existe desde os tempos antigos. Conhecemos narrações bíblicas de migração, que mostram esquemas da migração humana que atravessam as épocas, a história e as culturas. As pessoas serão sempre impelidas a procurar a vida, não a morte (cf. Dt 30, 19b), correndo riscos para a sobrevivência, a segurança, o progresso e o amor. Na Ásia, o fenómeno da migração tem uma história longa e multifacetada. A partir das tribos nómadas que atravessaram as vastas extensões do continente asiático em busca de água e pastagem, as caravanas comerciais que percorreram a famosa rota da seda e os exércitos invasores, que afugentaram povos e comunidades das suas terras ancestrais, a migração sempre caracterizou o continente asiático em todos os tempos. Nas Filipinas, nos últimos quarenta anos verificou-se um aumento imenso da emigração de trabalhadores. Segundo as estatísticas governamentais, o número de filipinos, que tende a aumentar, no mundo inteiro é calculado por volta de dez milhões e meio, ou seja, quase onze por cento da população do país.

Todos os dias quatro mil trabalhadores em média, conhecidos como Overseas Filipino Workers (Ofw), deixam a sua pátria para procurar trabalho em mais de 193 países no mundo. Os Ofw constituem o maior grupo de migrantes da nova economia global. Todavia, por causa da crescente competição entre outros países do Leste e do Sudeste asiático, o que promete um trabalhador filipino não é meramente um trabalho de boa qualidade, mas, no fundo, um trabalho barato. Nos anos oitenta do século passado, a necessidade global de trabalhadores passou para novos sectores, abrindo a possibilidade de empregos para as mulheres migrantes no âmbito do comércio, da saúde e dos serviços, do qual os trabalhadores domésticos constituíam uma ampla parte. Depois de 1992 a migração feminina sofreu um forte crescimento, incentivada sobretudo pelo pedido de amas ou empregadas domésticas nas economias asiáticas desenvolvidas, como Japão, Singapura, Hong Kong, Macau e Taiwan, onde o pedido de trabalhadores no sector de prestação de cuidados é particularmente forte. Agora as mulheres são mais numerosas do que os homens. Definido feminização da migração, este fenómeno foi causado pelas transformações no mercado global do trabalho, onde se constata uma dificuldade crescente dos homens de encontrar um emprego a tempo inteiro no próprio país ou naqueles de destino, obrigando as esposas ou as filhas a desempenhar o papel de artífices principais do sustento da família. Mulheres do Sudeste asiático (e também outras) chegaram aos países da Ásia oriental, especialmente ao Japão e à Coreia, em resposta a um grande pedido de trabalhadoras do sexo, expondo assim as migrantes a abusos e ao tráfico de pessoas.

A noção de feminização está ligada à questão da diferença sexual: as experiências dos homens migrantes são muito diferentes daquelas das mulheres migrantes. Uma lente que tenha em conta a diferença permite modificar o foco, concentrando-a no afecto e no impacto que a migração, especialmente a feminização da migração, tem sobre a vida familiar e sobre as migrantes mulheres. Pesquisas realizadas sobre as mulheres migrantes asiáticas indicaram que os migrantes estão habituados a considerar a emigração como algo feito «para o bem da família». Faz parte do sacrifício materno que aquelas mulheres fazem para permitir que as suas famílias sobrevivam e gozem de uma vida melhor. Em primeiro lugar, há a separação da família, muitas vezes por longos períodos, com os filhos que crescem sem pai, sem mãe ou sem os dois. O cardeal Tagle, arcebispo de Manila, recentemente expressou a sua preocupação pela chaga dos filipinos que, por causa da pobreza, são obrigados a ir ao estrangeiro para encontrar trabalho e ganhar o suficiente para manter as famílias que deixaram em casa. Muitos casais separam-se não por desavenças matrimoniais, mas por amor, um amor disposto a suportar a dor da separação para o bem da família. Em segundo lugar, mudou a estrutura familiar e nasceram «casas transnacionais» ou «maternidades transnacionais». Baseando-se nas numerosas experiências dos Ofw e nos estudos realizados em diversas disciplinas, o impacto sobre a família devido à partida da mãe é muito maior do que quando são os pais que a deixam. Quando é a mãe que emigra, a organização da vida sofre maiores adaptações para encher o vazio na responsabilidade de educação que geralmente é assumida pela mãe. Ao contrário, quando são os pais que trabalham no estrangeiro, as mães continuam a oferecer cuidados e a desempenhar outros papéis que antes cabiam ao pai. As mulheres que deixam os filhos em casa experimentam um fenómeno definido «maternidade transnacional». Separados pelas distâncias, as relações familiares são mantidas com a ajuda das tecnologias das comunicações. Em terceiro lugar, verifica-se uma inversão dos papéis de género. Uma mulher que emigra devido ao trabalho torna-se a figura que mantém a família, ao passo que o marido deve tomar conta dos filhos e da casa. Se o marido que fica em casa não for capaz de desempenhar este papel no seio da família verificam-se conflitos matrimoniais. Em muitos casos constatou-se a incapacidade dos pais de assumir de forma eficaz o papel materno. Com a inversão dos papéis, alguns perdem o próprio sentido de masculinidade e outros encontram refúgio no álcool e no sexo para fugir à sensção de falência. Nestas situações as crianças tornam-se mais vulneráveis. É possível que se peça apoio a outros membros da família para cuidar dos filhos, de forma a tranquilizar os migrantes sobre o facto de que as famílias deixadas em casa, especialmente as crianças, estarão nas mãos de parentes. Quarto, é inevitável que se verifique uma mudança pessoal no trabalhador migrante. As Nações Unidas observaram que «embora todos os migrantes possam ser agentes de mudança», é mais provável que as mulheres migrantes vejam impedido o seu desenvolvimento pessoal. Todavia, nalguns casos as mulheres tendem a considerar a emigração mais como parte do desenvolvimento pessoal, dado que permite que elas possam escapar às convenções sociais, adquirindo maior espaço e liberdade pessoal e uma condição económica e social mais elevada. Quinto, verificam-se mudanças no sistema de valores da família. Com um rendimento mais elevado em relação a quanto ganhavam no próprio país, os migrantes tendem a esbanjar o próprio salário em consumos inúteis, comprando coisas para a família a fim de compensar a própria ausência de casa ou de exibir aos outros uma «imagem de prosperidade». O conceito de vida melhor é assimilado à aquisição de maiores bens materiais. Os migrantes desprovidos de força psicológica e espiritual tendem a responder à solidão, à alienação e às condições de trabalho opressivas através do consumo, do materialismo, do sexo e do jogo de azar. Estas cinco transformações não são as únicas que incidem sobre o indivíduo e a família. Mas são suficientemente abrangente a ponto de desafiar a Igreja a responder às necessidades pastorais prementes das famílias actuais. A Federação das Conferências episcopais da Ásia (Fabc), como organismo, está há muito tempo ciente do impacto da migração na Ásia. Afirma que a migração não pode ser separada do complexo entrelaçamento de factores sociais, económicos, de classe, religiosos e políticos que interagem para afastar as pessoas da sua pátria. Reconhecendo a necessidade urgente de levar a sério as consequências da migração sobre o matrimónio e a vida familiar, a Igreja na Ásia está chamada a «acompanhar o migrante como pessoa humana, seguindo o exemplo do próprio Cristo. Este caminho da Igreja com o trabalhador migrante é um sinal da solidariedade na Igreja universal e uma participação na missão evangelizadora comum confiada a todos os seguidores de Cristo». Os bispos concluíram que «os trabalhadores migrantes e as suas famílias têm necessidade urgente de assistência pastoral das Igrejas dos países de origem e de acolhimento». É evidente que se abrem muitas possibilidades ao ministério. Gostaria de mencionar algumas delas: no serviço de acompanhamento da pessoa do migrante e da família que deixou em casa, é preciso oferecer apoio psicológico e espiritual, formação nos valores, aconselhamento matrimonial, assistência sócio-cultural para ajudar nas adaptações interculturais. O ministério da vida familiar nas paróquias pode ir ao encontro das famílias deixadas no país de origem, oferecendo-lhes apoio moral e espiritual e organizando reuniões familiares, especialmente quando o migrante regressa depois de uma longa ausência. As dioceses dos países que recebem os migrantes são convidadas a oferecer acompanhamento pastoral, em particular a quantos devem confrontar-se com a solidão, as tentações, um tratamento injusto no emprego e outras dificuldades. As igrejas, as casas religiosas e os centros pastorais são chamados a dar conforto e hospitalidade ao migrante que se sente perdido ou não tem um emprego. Os governos e as organizações não governamentais, juntamente com a Igreja, quer nos países de origem quer nos de acolhimento, são chamados a colaborar e a formar uma rede para preparar os migrantes e as suas famílias a enfrentar as mudanças que acontecerão nas suas vidas, oferecendo-lhes conhecimentos concretos, como por exemplo a gestão do rendimento. Constatamos que com a globalização cada vez maior do mundo, a migração aumenta a um ritmo veloz, incidindo sobre as famílias e os indivíduos, especialmente com a sua feminização da migração. A imagem da família está ligada à transformação da sua forma tradicional em algo que ainda se está a desenvolver, como a emergente estrutura familiar transnacional. A Igreja está chamada a oferecer não só orientações pastorais para o ministério das famílias, mas também serviços imediatos e de apoio às pessoas e às famílias para fortalecer a sua fé, ajudar os migrantes a adaptar-se a novas culturas, consolidar os relacionamentos em família, não obstante as distâncias, e para os chamar a serem evangelizadores da Boa Nova onde quer que se encontrem. A Boa Nova não deve ser só pregada e ensinada, mas também vivida e testemunhada nas situações concretas do dia-a-dia entre pessoas de muitos credos e culturas.

Judette Gallares

A autora

Nascida nas Filipinas, Judette Gallares é uma religiosa do Cenáculo que se dedica aos retiros e à direcção espiritual. Professora de teologia e espiritualidade no Instituto de vida consagrada na Ásia (em Manila, nas Filipinas) e visiting professor de espiritualidade e cultura na universidade de São José em Macau, actualmente dirige a missão do Cenáculo na China e trabalha com os migrantes em Macau. É autora de diversos livros e artigos sobre a espiritualidade e a vida consagrada.

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

24 de Outubro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS