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A sentinela de Bukavu

· Clotilde Bikafuluka e a sua fundação que acolhe e cuida de mulheres estupradas ·

Na época em que Jesus realizava o milagre em benefício da hemorroíssa, a condição feminina não era muito diferente da actual na República Democrática do Congo, onde a uma religiosa que sofre de graves hemorragias não é consentido fazer os votos perpétuos: «Uma mulher doente é considerada um fardo inútil, uma cruz. Para aceder ao mosteiro a vocação passa para segundo plano, contam só a saúde e a força física, a força laboral que uma monja deve ter para criar o gado e para outros trabalhos pesados». Quem narra é Clotilde Bikafuluka, leiga consagrada, nascida na pequena aldeia de Bunyakiri, um recanto do sudeste do Congo, onde encontrou o grande universo de Deus.

Clotilde Bikafuluka juntamente com as mulheres e as crianças que acolhe

Tinha-me falado dela Denis Mukwege, conhecido como médico que «conserta» as mulheres vítimas de estupro colectivo, uma das horríveis chagas que desde 1996 aflige o país africano. Mukwege disse-me que graças à ajuda de mulheres como Clotilde pôde empreender a sua luta contra as violences sexuelles et basées sur le genre até criar a Cité de la Joie de la Fondation Panzi em Bukavu, o hospital onde operou quarenta mil mulheres devastadas pelas violências acolhendo-as depois no adjacente centro de assistência e de reabilitação. Estas mulheres, muitas das quais são religiosas, põem em perigo a sua vida, indo buscar as vítimas sem dar nas vistas e recebendo ameaças pela ajuda que dão. Desafiando o risco de se expor publicamente, Clotilde aceitou participar no seminário internacional organizado por «mulheres igreja mundo», realizado no Vaticano em finais de Maio de 2015. Clotilde receava aller au Vatican, ela que viveu sempre nas aldeias conguesas mas o seu desejo de rencontrer le Pape era enorme, queria contar-lhe o sofrimento do seu povo e da sua terra.

Encontrei-me logo depois do congresso com esta jovem mulher com passo decidido, harmonioso como o sorriso; só o olhar por momentos se abstrai e atraiçoa o choro antigo de gerações de mulheres. Veste um hábito de cores vivas que fez sozinha, expressamente para o colloque; angariou o dinheiro para comprar o tecido doando o sangue. Faz admirar a espontaneidade com a qual fala de si, sem aquelas reticências a que nós estamos habituados. Procedamos em ordem, digo-lhe: queres contar-nos a tua história?

«Nasci a 18 de Agosto de 1972 em Bunyakiri. Somos nove irmãos, cinco moças e quatro rapazes. O meu pai era director da escola católica: foi ele quem construiu a capela dos cristãos numa parte do seu terreno. Faleceu quando eu tinha quatro anos, e assim a minha mãe cresceu nove filhos sozinha. Todos nós estudamos, e todos os meus irmãos são casados. Dela aprendi a lei do amor. O seu exemplo fez-me compreender que na mulher a família encontra aquela força extraordinária para suportar e superar os obstáculos.

Que reacção teve a tua mãe quando lhe falaste da tua vocação?

«É uma grande alegria para mim – respondeu a minha mãe – ter uma filha que se põe ao serviço do Senhor». Frequentei a escola básica de Bunyakiri, mas depois da morte do meu pai abandonei os estudos. Depois entrei no convento das Filhas da Ressurreição em 1987, onde fiz a profissão de fé temporária, até 1995. Ocupava-me da criação do gado e seguia uma escola de meditação. Logo a seguir à profissão temporária adoeci de hemorragia uterina. Entretanto, em Outubro de 1996 tinha começado a guerra – chamada «de libertação», mas na realidade de invasão do Congo por parte do Ruanda – e neste período encontrei-me com o padre Simone Vavassori, missionário xaveriano que marcou profundamente a minha vida. Ocupou-se da minha saúde e foi ele quem me apresentou Denis Mukwege no hospital local onde me tinha levado para me curar. Todos os dias o padre Simone me dava um dólar para comprar os remédios prescritos por Mukwege. Estive doente durante seis anos e por este motivo as irmãs não me autorizaram a fazer a profissão perpétua. Na opinião delas, a minha invalidez não me tornava digna de ser monja porque não podia desempenhar trabalhos pesados. A lei da sobrevivência em África é muito cruel, por vezes enfurece-se injustamente, até contra uma vocação de fé como aconteceu comigo. Deus colocou no meu caminho o padre Simone, graças a ele sarei e por fim a minha vocação realizou-se.

Que papel desempenhou o padre Simone na tua escolha de consagrar a vida às vítimas de estupro?

É a fé que me leva a dizer que foi o padre Simone quem me curou. Não posso ignorar os sinais evangélicos que se mostraram ao longo da minha doença e depois da minha cura. O padre Simone tinha mandado vir da Itália três médicos, três franciscanos, o padre Emílio e outros dois para operar as mulheres. Operaram-me no dia em que o padre Simone faleceu: no dia seguinte estava curada. Cinquenta dias depois da sua morte, em sonho, o padre Simone pediu-me para continuar o seu trabalho em Bunyakiri em ajuda das vítimas de estupro e ditou-me tudo o que ele tinha feito, de bom e de mau, pedindo-me que levasse o escrito à casa provincial de Bunyakiri. Escrevi das duas até às cinco da madrugada: naquela noite o padre Simone elegeu-me sua herdeira espiritual. Por outro lado encontrava-me juntamente com ele quando vivi aquela trágica experiência que determinou o meu alistamento pela causa das mulheres vítimas de violências. Uma sexta-feira em que o padre Simone e eu, como de costume, estávamos a caminho de Bunyakiri para preparar a missa dominical percorrendo o parque nacional de Kahuzi-bwega, deparámo-nos com um cenário terrível: corpos sem vida que jaziam por terra, cabeças decapitadas penduradas nas árvores, mulheres com os órgãos íntimos mutilados. Depois, quando chegámos à paróquia de Bunyakiri, uma mulher de oitenta e cinco anos caminhou na nossa direcção envolta numa nuvem de moscas. Senti repulsa e vontade de fugir, mas a mulher disse-me: «Minha filha, vem ver o que me fizeram». Enchi-me de coragem, pedi-lhe que tirasse a roupa e vi o horror. Estava massacrada, as moscas amontoadas em massas de sangue purulento que continuava a escorrer. Um número indefinido de carnífices tinha-se enfurecido contra aquele corpo, faleceu dois dias mais tarde. Naquele dia abriu-se uma ferida profunda, não só em mim mas em todas as mulheres, juntas devemos gritar raiva e dor. As pessoas que veem o que continuo a fazer incessantemente perguntam-me se também eu fui violentada; a minha resposta é directa e simples: a dor física é menos cruel do que a moral. Aquilo que vi e que continuo a viver ao lado destas mulheres é para mim muito pior que uma violência sexual. Quem de nós resistiria a uma experiência deste género? A prática das violências sexuais supera a nossa compreensão, porque é usada por alguns como arma de guerra, por outros como comércio. Aquilo que vi é o estupro de que também eu fui vítima: quarenta e quatro meninas às quais foi arrancado o útero, cordas com as quais foram degoladas as mulheres vendidas como objectos.

E depois fundaste a Fsv, Fondation Simone Vavassori...

Para honrar a memória do padre Simone decidi consagrar a minha vida ao serviço dos sobreviventes às violências sexuais e das pessoas indefesas. Agora sou uma consagrada da Fraternidade das irmãs de Santa Doroteia de Cemmo. Ao arcebispo Munzihrwa, assassinado em 1996 pelas tropas da Alliance des Forces démocratiques pour la Libération du Congo, dizia que sou uma sentinela, aqui em Bukavu. Dou-me conta de que também a nossa fundação, da qual sou a coordenadora, é uma gota no mar, pois a violência continua a alastrar-se na parte oriental do Congo. A Fsv está agora activa em três províncias do leste do país, ou seja, no Kivu do Sul, no Kivu do Norte e no Maniema. Não nos poupamos: as estatísticas nacionais de casos de estupro nos últimos cinco anos referem que foi fornecida assistência a quase cem mil mulheres que sobreviveram à violência, e nós da Fsv assistimos mais de seis mil. A consequência mais devastadora do estupro de massa é a demolição da família, porque a mulher estuprada é considerada pelos familiares um ultraje e rejeitada. Contudo conseguimos reconciliar quase setecentos núcleos familiares. Outras mulheres repudiadas pelos maridos, cerca de cento e cinquenta, estão hospedadas nas estruturas da fundação e cento e vinte e cinco mães solteiras foram educadas através da alfabetização e da formação para actividades que produzem rendimento. Da nossa «família» fazem parte também os órfãos de guerra, mais de quatrocentos, dos quais quase metade são filhos de mulheres estupradas, o mais pequenino tem seis meses. Estes órfãos estão confiados aos cuidados de idosos para que sintam o calor humano, outros são seguidos pelo centro Sos, outros ainda estão nas casas de acolhimento em Bukavu e Goma. Assistimo-los e procuramos dar-lhes uma formação escolar. Desenvolvemos também uma rede de assistência multissectorial (assistência holística) para as vítimas: médica, psicossocial, jurídica, socioeconómica e/ou escolar. A reinserção socioeconómica é a maior necessidade. Algumas mulheres, rejeitadas pelos maridos, mais não fazem do que vaguear por falta de uma ocupação, outras caem na prostituição, outras ainda praticam as uniões livres para satisfazer as necessidades primárias. E assim assiste-se a casos de gravidez indesejada, abortos e difusão de infecções sexualmente transmissíveis e Vih. Partimos do nada. A Fao, por exemplo, doou-nos sementes e máquinas para moer a mandioca a fim de obter a farinha. Recebemos velhas máquinas Singer e ensinamos as mulheres a costurar. Outras actividades para as quais orientamos as vítimas a fim de as reinserir são cabeleireiro, trabalho de croché, arte culinária, criação de gado e agricultura, noções agrícolas.

A tua fé obriga-te a ser concreta e exigente: é importante fazer ouvir a tua voz.

O mundo é governado por lideranças económicas, que são as que desencadeiam as guerras, que vendem armas em troca das nossas matérias-primas: o columbite-tantalite e a cassiterite para fabricar computadores e telemóveis estão manchados com o nosso sangue. A liderança moral compete à Igreja, que se deve comprometer, denunciando todos os casos de violências à justiça. É tarefa da Igreja fazer pressão moral sobre os governos envolvidos no conflito, para que cesse esta brutalidade do homem.

A este ponto Clotilde mostra-me um projecto que me deixa sem palavras pela precisão e perícia da redacção. Ano por ano e mês por mês, item por item, estão registadas as compras e as despesas efectuadas pela fundação, os resultados alcançados e os que estão suspensos. O balanço anual é incrível: Clotilde consegue fazer funcionar o seu centro com cifras para nós irrisórias. Contudo é evidente que agora as despesas superaram as receitas, que os trabalhos das pequenas habitações estão abandonados e que se torna cada vez mais difícil providenciar às necessidades.

Sandra Isetta

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18 de Outubro de 2019

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