Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Semeadoras de paz

· Pesquisa sobre as mulheres que procuram debelar os conflitos na África ·

«Li na transparência da alma as palavras da minha salvação. E os olhos abriram-se para  horizontes de luz. Ergui a cabeça. E encaminhei-me ao longo da estrada, onde a sabedoria encontra o amor,  na qual o esforço se torna liberdade, onde a experiência nutre a sabedoria. Eu, caminhadora incansável. Eu, semeadora de paz. Eu, mulher da África».

Este texto poético de autoria africana, citado por Dacia Maraini,  é anónimo. Assim como são quase sempre anónimas as muitíssimas mulheres da África artesãs de paz, portadoras de valores e sabedoria, grandes trabalhadoras e lutadoras silenciosas, na difícil busca de liberdade e dignidade, para si e para os próprios filhos.

«São as mulheres que ajudam a mitigar as tensões e a curar as feridas terríveis das quais a África sofre por causa da violência. Elas desempenham um papel fundamental na resolução dos conflitos, no processo de reconciliação e na realização de um contexto jurídico capaz de garantir a paz e prevenir os ataques às liberdades fundamentais». Escreveu recentemente  num artigo publicado no «Jeune Afrique» , Graça Machel, esposa de Nelson Mandela, presidente da Fundação para o desenvolvimento comunitário e membro do Africa Progress Panel.

Muito raramente estas mulheres, que representam a estrutura  de sustentação da África, saem do anonimato e recebem o justo reconhecimento. Também por isso foi importante que no ano passado o Prémio Nobel para a Paz fosse atribuído a duas delas (e simbolicamente a todas as outras): Ellen Johnson Sirleaf, presidente da Libéria e à sua concidadã, a advogada Leymah Gbowee (premiadas juntamente com a iemenita Tawakkul Karman).

Antes delas, outra africana, a queniana Wangari Maahtai, recebeu o prestigioso reconhecimento em 2004. Comprometida na causa ambientalista, Maathai nunca perdeu de vista a luta pelos direitos das mulheres. Juntamente com Johnson, Sirleaf e Gbowee, certamente faz parte de uma pequena vanguarda que contudo representa um exemplo significativo para muitas outras mulheres africanas, uma esperança de não permanecer confinadas no espaço doméstico, poder aceder à educação e aos cuidados médicos, poder escolher pela própria vida e ser reconhecidas pelo papel essencial de pacificadoras que desenvolvem no âmbito das comunidades.

Segundo o comité de Oslo, «não é possível alcançar  a democracia e uma forma de paz duradoura na África e no mundo se as mulheres não puderem obter as mesmas oportunidades dos homens na influência do desenvolvimento da sociedade a todos os níveis». Este mesmo conceito retorna nas palavras do secretário-geral da Onu, Ban Ki-moon: «Enquanto as mulheres não forem libertadas da pobreza e da injustiça, todos os nossos objectivos  – a paz, a segurança e o desenvolvimento sustentável – estarão em perigo».

Já hoje, não obstante as muitas dificuldades, são precisamente elas, estas mulheres – chefes de Estado, mas também simples camponesas, empresárias ou donas de casa – que promovem, muitas vezes a partir da base e de maneira silenciosa, percursos de justiça, paz e reconciliação, com os instrumentos da lei ou da tradição, no âmbito das famílias, das sociedades e dos países. Milhões de mulheres mantêm a África em pé, não só sob o ponto de vista económico, especialmente nos sectores da agricultura e do pequeno comércio, mas representam também a estabilidade dentro de contextos atormentados pelos conflitos.

Também a segunda Assembleia especial para a África do Sínodo dos bispos enfrentou o tema, depois retomado na exortação pós-sinodal Africae munus : «Na África, as mulheres prestam um grande contributo à família, à sociedade e à Igreja com os seus numerosos talentos e os seus dons insubstituíveis. (...) A Igreja e a sociedade precisam que as mulheres ocupem o lugar todo que lhes compete no mundo, “para o ser humano poder viver nele sem se desumanizar totalmente”» (55). E prossegue: «Vós, mulheres católicas, inseris-vos na tradição evangélica das mulheres que davam assistência a Jesus e aos apóstolos. (...) Quando a paz está ameaçada e a justiça é denegrida, quando cresce a pobreza, estais prontas para defender a dignidade humana, a família e os valores da religião» (58).

Contudo, este papel não só é pouco reconhecido, mas em muitas partes da África as mulheres continuam a ser discriminadas no acesso à educação e à saúde e não adequadamente valorizadas nos campos económico, político, social e eclesial.

Também no estrangeiro, a imagem da mulher africana permanece muito estereotipada e banalizada dentro de clichês funcionais à difusão  de certos factos, com um primado da tragédia. A este propósito a advogada Leymah Gbowee diz: «Um correspondente do estrangeiro, uma vez perguntou-me: “A senhora foi estuprada durante a guerra liberiana?”. Quando respondi que não, ele perdeu todo o interesse por mim. Durante a guerra na Libéria, quase ninguém descreveu outros aspectos da vida das mulheres: o facto que escondiam filhos e maridos dos soldados que os procuravam para os recrutar ou assassinar, que percorriam quilómetros a pé no meio do caos em busca de comida e água para a família, que iam em frente com a própria vida para ter um ponto do qual recomeçar quando a paz voltasse. Quase ninguém falou sobre a força que encontrámos na irmandade entre as mulheres  e do modo como pretendemos a paz em nome de todos os liberianos».

«Para cada homem que vai à guerra – dizia Wangari Maathai – uma mulher nutre o mundo».

Obviamente a não-violência não  é uma prerrogativa feminina, mas certamente em muitos contextos africanos  apoiam-se sobre os ombros de mulher a difícil resistência durante os conflitos, o peso complexo da família, a tarefa de recompor o que se separou e tecer os fios intrincados da paz e da reconciliação. Inclusive nas situações mais difíceis e extremas.

Como no Kivu, a leste da República Democrática do Congo, onde mais de cinquenta mil mulheres foram brutalmente violentadas, mas onde é possível encontrar exemplos iluminadores de luta não violenta e de trabalho obstinado pela reconciliação. O Centro Olame de Bukavu é um deles. A sua responsável, Mathilde Muindo, guiou uma coalizão de organizações pela defesa dos direitos das mulheres que conseguiu fazer com que uma lei contra as violências sexuais, usadas como «armas de guerra» na total impunidade, fosse aprovada.

No Sul  do Sudão, durante os mais de vinte anos de guerra, as mulheres continuaram com força de suportação e dignidade extraordinárias a lutar diariamente para manter em pé o que restava das suas famílias, para conservar e transmitir os valores positivos da tradição contra a cultura dominante da guerra, para exigir justiça diante da prepotência e da opressão.

«Basta com a morte de mulheres e crianças» gritavam as mulheres sudanesas do sul no passado mês de Maio pelas ruas da capital Juba e nas principais cidades do país. Invadiram as praças, jovens e idosas, de grupos étnicos diversos, cristãs e muçulmanas, ministras e donas de casa, para reafirmar o seu «não» à guerra e o seu «sim» à paz. Participaram todas as organizações civis e religiosas femininas, unidas no desejo único de viver em paz e de colaborar para o desenvolvimento integral do país. Recordaram aos políticos como sofreram durante os longos anos de guerra, elas,  as primeiras vítimas de uma estratégia destinada a aniquilar a dignidade humana. E recordaram aos «grandes» o seu dever de se comprometer por uma solução pacífica e negociada dos problemas não resolvidos.

«É uma grande batalha – afirma Aminata Traoré, ex-ministra da Cultura do Mali e líder do movimento altermundista – a que somos chamadas a enfrentar, nós mulheres africanas. Querem confinar-nos no espaço doméstico. E nós, ao contrário, queremos sair, não para pedir piedade, mas respeito e solidariedade. A resistência deve começar a partir de nós, mulheres. Desempenhamos um papel importante: curar as chagas de um sistema cínico, no qual prevalecem as lógicas do lucro e do conflito, da comercialização de todas as coisas. As mulheres têm algo a dizer e muito a fazer. Resistir, mas também mudar as coisas, é uma exigência. Hoje é preciso construir uma visão mais fraterna do mundo».

Anna Pozzi

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

20 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS