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Sem medo de perder a credibilidade

· ​Os exercícios espirituais da Cúria romana em Ariccia ·

Diante de quem se encontra em dificuldade usamos o parâmetro da rigidez e das categorias estabelecidas ou o abraço da misericórdia? Foi esta a última pergunta feita durante a meditação pelo padre Bruno Secondin, na tarde de quarta-feira, 25 de Fevereiro, em conclusão do dia dos exercícios espirituais quaresmais que decorrem em Ariccia para o Papa e a Cúria romana.

No âmbito da reflexão sobre o tema do «deixar-se surpreender por Deus», o carmelita analisou a leitura do trecho bíblico de Elias e da viúva de Sarepta (1 Rs 17, 2-24) comparado com aquele paralelo no qual Eliseu faz ressuscitar o filho da sunamita (2 Rs 4, 25-37). Um contexto que levou o pregador a frisar um aspecto fundamental na vida de fé, ou seja, o facto de que «os pobres nos evangelizam».

A viúva pobre que, apesar de ter «só um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na ânfora», hospeda Elias, torna-se ocasião propícia de crescimento interior para o profeta. Elias, frisou Secondin, «era impaciente, agressivo». Já os Padres da Igreja, ao comentar este trecho bíblico sugeriram que «Deus procura endireitar Elias para que se torne meigo». E o profeta é enviado a Sarepta onde recebe uma lição da mulher: a pobreza e a morte aceites com dignidade.

Inicialmente o profeta, através do milagre do alimento que não termina, apresenta-se em vestes poderosas, taumatúrgicas. Mas depois a morte do filho da viúva leva-o a outra dimensão: sente-se impotente e pode unicamente invocar Deus, «recomendar-se a Deus na sua nudez», reconhecer que tem apenas o poder de «bradar a sua dúvida e implorar». E é então, diante dos seus gestos ternos e da admissão da sua debilidade, que a viúva reconhece a outra face de Deus: o «Deus de compaixão», o «Deus de misericórdia», o «Deus que abraça, que leva na sua identidade a nossa ferida».

Trata-se de uma história que origina perguntas para a história pessoal de cada um de nós: «Somos capazes de encontrar os pobres para chegar à verdade? Ou temos receio de perder a credibilidade?»; sabemos reconhecer e abraçar quem tem «”um menino morto” no seu coração: violências, traumas infantis, divisões, horrores...»? A nossa palavra é como a palavra pedante do taumaturgo ou como «a palavra que implora»? Face a situações de dor «mandamos à frente o canonista», usamos «o bordão» ou «abrimos os braços para abraçar»?

Escolhas concretas, atitudes claras, como as que foram sugeridas pela primeira meditação de quinta-feira 26, na qual o padre Secondin falou sobre o tema da justiça. Tema central porque, frisou o pregador, «o compromisso pela justiça faz parte integrante do nosso seguimento de Cristo, porque os pobres são os privilegiados do Evangelho: não é uma mania populista».

Outro episódio da vida de Elias narrado no primeiro livro dos Reis (21, 1-29) forneceu o tema da reflexão. O rei Acab quer comprar a vinha do humilde Nabot, mas o camponês recusa-se porque não queria ceder-lhe a herança recebida de seus pais. Então a pérfida rainha Jesabel organiza uma assembleia ritual com os representantes do povo na qual, graças a duas testemunhas falsas, acusa Nabot de blasfémia e manda matá-lo, permitindo assim que Acab obtenha o seu «brinquedo». Elias pronuncia então a condenação divina contra Acab, o qual se arrepende obtendo de Deus uma diminuição da pena.

Um texto longo, no qual as psicologias dos vários personagens – Acab o frustrado, Jesabel a poderosa sem escrúpulos, Nabot o piedoso, os representantes do povo privados de consciência e submetidos a dinâmicas de tipo mafioso – podem fazer vir à tona também tantos aspectos das nossas vidas. Um texto que ofereceu a ocasião ao pregador carmelita para lançar muitas provocações.

Por exemplo, quantas vezes «elementos sagrados são usados como cobertura de procedimentos iníquos»? Verdadeiros «abismos de violência abrem-se em nome de Deus» e «também entre nós cristãos» se reencontra «o sono da consciência». Mas, sublinhou o padre Secondin, «quanto terão que bradar os pobres e os oprimidos?». E pensando nas violências que se perpetram em África e no Médio Oriente, questionou: «A consciência dos europeus nada tem a reprovar-se?». A chamada que vem das Escrituras é forte: «devemos estar da parte de todos os Nabot da terra, defender os direitos, acolher as vítimas, despertar as consciências, promover estruturas, porque a terra é de Deus, é um dom para a vida de todos e não para os caprichos de alguns».

Mas a Escritura, disse o pregador, propõe também uma «pedagogia dos pequenos gestos». Ou seja, é preciso «começar por nós mesmos», converter o próprio estilo de vida, rever os consumos («quantos alimentos desperdiço...»), ser transparente nas acções, fazer o próprio dever com honestidade, não exercer a autoridade como poder e fonte de privilégios. E ainda: «interromper a cumplicidade, as coberturas, os abusos».

O padre Secondin considerou portanto de novo dinâmicas e problemas de interesse planetário: face a violências como as da poluição, do açambarcamento das terras férteis e das águas em desvantagem dos povos locais, ou como as financeiras nas quais sem escrúpulos, com um simples «clique», fazem morrer as pessoas, devemos recuperar a força do canto do Magnificat e «ter a coragem de denunciar». Porque «Deus não suporta os prepotentes». Eis então a questão que concluiu a meditação: «Sabemos familiarizar publicamente com os humilhados, com os descartados da violência, ou temos medo de ousar pelo Evangelho?

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26 de Agosto de 2019

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