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Sede de nada

· ​A terceira e quarta meditações durante o retiro espiritual em Ariccia ·

Há um livro da Bíblia que «nos faz sorrir, e sorrir salutarmente de nós mesmos, em vez de dramatizar por tudo e por nada»; um livro através do qual se aprende que «a sabedoria está do lado dos anunciadores de esperança e não dos apocalíticos pregadores de tragédias». É o de Jonas, figura escolhida pelo padre José Tolentino de Mendonça para explicar – na manhã de terça-feira 20 de fevereiro, na quarta meditação dos exercícios espirituais realizados em Ariccia para o Papa Francisco e a Cúria romana – uma situação particular na qual o homem se pode encontrar: a preguiça.

Permanecendo no tema geral dos exercícios («Elogio da sede»), trata-se daquela situação em que somos invadidos por uma paralisante «sede de nada». De facto, explicou o pregador, a sede considerada no sentido mais amplo e existencial «nos ensina a arte de procurar, de compreender, de colaborar, a paixão de servir», então «quando renunciamos à sede, começamos a morrer».

Este é um perigo, advertiu, que não só se pode viver «a nível individual», mas que se pode experimentar também «nas instituições e práticas comunitárias. A própria Igreja pode deixar-se arrastar por esta deriva do desejo de nada».

A «terapia do desejo», a capacidade do homem de gritar ao Senhor “Vem!” para matar a sede, pode chegar se nos tornarmos cientes de um problema ulterior: com efeito, pode acontecer «que nos sentimos completamente sedentos sem nos darmos conta». Este foi o aspeto abordado pelo pregador português na terceira meditação pronunciada na tarde de segunda-feira 19. Uma meditação que foi, essencialmente, uma forte chamada a estar com os pés firmes no chão, a não cismar em muitas pseudo-certezas intelectuais, a dar-se conta «da existência real e não da ficção de nós mesmos à qual muitas vezes nos adaptamos». É necessário estar cintes, explicou padre Tolentino de Mendonça, de que «entrar em contato com a própria sede não é uma operação fácil, mas se não o fizermos a vida espiritual perde aderência à nossa realidade». Tornamo-nos como um terreno tão árido a ponto de ficarmos impermeáveis porque «a chuva tem dificuldade em penetrar até às camadas internas». Por conseguinte, em primeiro lugar não devemos «ter medo de reconhecer a nossa sede e a nossa secura», compreendendo em que nível de aridez interior estamos. É necessário sobretudo não «intelectualizar demasiado a fé». Com efeito, acontece que «ficamos mais preocupados com a credibilidade racional da experiência de fé do que com a sua credibilidade existencial, antropológica e afetiva»: acontece, em síntese, que «nos ocupamos mais da razão do que do sentimento». Mas como podemos «verificar o estado da nossa sede»? A literatura pode ajudar porque, explicou o pregador, possui algumas caraterísticas funcionais para este objetivo: de facto, ela propõe uma «metáfora integral da vida» e principalmente sabe tocar a existência concreta. Portanto, pode ser um suporte valioso para a vida espiritual que «não é pré-fabricada», mas está «envolvida na radical singularidade de cada sujeito». Assim, padre Tolentino de Mendonça inspirou-se precisamente num trecho autobiográfico da escritora brasileira Clarice Lispector, em que a artista explica como se «deu conta de estar sedenta», para convidar todos a uma escuta «profunda da própria vida».

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24 de Agosto de 2019

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