Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

A salvação das futuras gerações

· Yolande Mukagasana enfermeira vítima do genocídio ruandês explicou como é possível a reconciliação no seu país ·

Já passaram mais de vinte anos desde o genocídio no Ruanda. Depois de um lento trabalho de reconstrução, a população comprometeu-se na tarefa, ainda mais difícil, da reconciliação. Enfermeira de origem ruandesa e belga de adoção, Yolande Mukagasana perdeu a família inteira. Deste drama hauriu a força para escrever um livro de testemunhos onde cede a palavra quer às vítimas quer aos carnífices.

 «Vinte anos depois do genocídio do Ruanda» é o título do projeto e da exposição do fotógrafo Pieter Hugo que documentou o processo de reconciliação no país africano ao lado das vítimas e dos carnífices. Na foto: Dominique Ndahimana e Cansilde Munganyinka

A sua preocupação principal são as gerações futuras, como testemunha o projeto de construir uma escola no Ruanda, ao lado de um monumento comemorativo, «para que as crianças possam conhecer a história completa do genocídio, conservando só os aspetos positivos»: uma escola onde as pessoas se definam em primeiro lugar ruandesas, sem qualquer distinção étnica. Sob este ponto de vista, Yolande está convicta, os jovens terão necessidade de ser acompanhados por mulheres, «mães e reconciliadoras». «A mulher é como uma religião para as crianças», afirma. «A religião mexe com a consciência, com o coração, está dentro da pessoa». Portanto, Yolande rejubila quando «os filhos das vítimas se casam com os filhos dos carnífices», comprovando que o perdão está tão enraizado na cultura ruandesa a ponto de poder «funcionar com os crimes de sangue». «Acho que serão precisamente as próximas gerações que nos salvarão», conclui Yolande Mukagasana, «desde que lhes seja permitido crescer com os valores do amor, da luta contra o ódio, do viver juntos».

Já passaram vinte anos desde o genocídio no Ruanda. O que a senhora fez desde então?

Não fiquei parada na época do genocídio, reconstruí. Todos os ruandeses querem reconstruir um país que já não existe. Tudo foi destruído durante o genocídio: as vidas humanas, as coisas materiais, as instituições. Não havia mais nada, foi necessário recriar tudo. As mulheres foram realmente as primeiras que participaram na reconstrução e isto para mim é motivo de orgulho. É também uma das razões pelas quais regressei: queria dar testemunho do genocídio no mundo inteiro, porque constatava que o mundo não compreendera o que tinha acontecido no meu país. Obviamente, nem todos queriam entender. Alguns carnífices precederam-nos pregando o seu evangelho. Eu queria absolutamente que a minha voz prevalecesse sobre a deles e acho que consegui isto em muitos países. Em Les blessures du silence fiz testemunhar os carnífices. Queria que eles falassem do genocídio, narrassem o que tinham cometido. Foi o motivo principal pelo qual escrevi o livro, que contém entrevistas quer com as vítimas quer com os verdugos e com os justos.

O que mudou dentro da senhora?

Eu devia saber: sou capaz de viver no Ruanda, de encarar os carnífices dos meus familiares? Inicialmente, não acreditava na reconciliação, porque eu via o que os ruandeses tinham feito uns aos outros. Questionava-me como podia levantar-me de manhã e ver o rosto do algoz da minha família. Finalmente dei-me conta de que a população ruandesa tinha o desejo de reconstruir e conseguira fazê-lo. Atenção, é um caminho difícil, sempre em evolução.

Como vivem isto os jovens?

É aqui que se insere o papel das mulheres. A mulher é mãe, reconciliadora. Constatei algo. Há homens polígamos. Na nossa realidade a poligamia não é permitida, é a lei que o estabelece. Mas em todos os lugares vi mulheres com filhos de pais diferentes, aqueles filhos davam-se bem. Ao contrário, no caso de um pai com filhos de mulheres diferentes, estes não tinham um bom relacionamento.

É interessante...

Sim, é uma constatação pessoal, aqui como na Bélgica, e em todos os lugares onde vivi: a mulher é mais forte do que o homem, sobretudo no que diz respeito à educação dos filhos. Não é mais forte em tudo, claramente. A mulher é como uma religião para os filhos. A religião mexe com a nossa consciência, com o nosso coração, no fundo. E a transmissão dos valores de uma mãe para os filhos acontece de forma muito interior, íntima, e portanto age mais sobre os filhos, tornando-os adultos com valores, sobretudo no amor.

De qualquer maneira, a reconciliação passa pela educação...

A educação, no meu parecer, é uma conditio sine qua non para que todo o povo possa evoluir. No Ruanda uma população que se dilacerou durante o genocídio foi educada a «viver unida». Se alguém, que antes não era um assassino, se torna tal significa que algo aconteceu. O quê? De facto, compreendeu-se que muitos ruandeses sabiam ler e escrever, conheciam a sua história, a nossa história verdadeira, não a revista pela colonização. Mas constatou-se também que algumas pessoas não a tinham entendido. Ouviam a rádio Rtlm [considerada cúmplice do genocídio, tendo incitado a erradicar os tutsis] todos os dias, porque as divertia, transmitia boa música, mas ao mesmo tempo arrastava-as para a ideologia do genocídio. Aqueles que liam os jornais de fontes diversas e conheciam outras línguas não se deixaram influenciar facilmente. Durante o genocídio, prometiam-se inclusive recompensas a quem matava mais. E assim aconteceu. Perante tudo isto, demo-nos conta de que a educação era deveras fundamental.

Pode falar sobre o projeto que lhe está a peito...

Hoje o Estado ruandês tem um projeto que se chama Je suis rwandais. Vou abrir um jardim de infância que terá o mesmo nome. Na época da colonização éramos identificados como hutus ou tutsis. Aquele bilhete de identidade foi abolido desde há muito tempo e agora somos identificados com a nossa verdadeira identidade: eu sou ruandesa antes de qualquer outra coisa. Portanto, desejo que as crianças cresçam com este espírito, porque compreendi a importância da educação. As crianças que aprenderam a divisão, à noite na cozinha com as mães ou conversando entre elas, tornaram-se depois artífices do genocídio. Agora é necessário fazer com que as crianças tenham a força de dizer «não, não é isto que nos ensinam na escola». Porque outrora na escola nos ensinavam precisamente a divisão. Hoje são outros os valores com os quais gostaria que as crianças crescessem: o amor, a luta contra o ódio, o «viver juntos». Eu sou ruandesa.

Nos anos após o genocídio, a senhora refletiu muito sobre a reconciliação. Foi à África do Sul, ao Yad Vashem em Jerusalém, para meditar sobre as modalidades, não para chegar ao perdão, mas para ir além do genocídio...

Interessam-me tanto o perdão quanto a reconciliação. Não entendia como se pudesse perdoar o que tinha acontecido, como as pessoas podiam viver novamente juntas e reconciliar-se. Mas no final dei-me conta de que tudo isto faz parte da cultura, muito antes da colonização. Tudo começa com a verdade, a confissão. É a primeira coisa. Que o culpado queira pedir perdão. Se alguém cometeu uma injustiça contra ti e não te quer pedir perdão, é porque não ama a ideia da tua reconstrução. Pois bem, enquanto não te reconstruíres, ele não se reconstruirá, permanecendo bloqueado no ódio.

Tudo isto diz respeito ao pedido de perdão. Mas para perdoar?

Não é difícil perdoar quando alguém o pede. Na nossa cultura, quando alguém se comportava de forma incorreta com o seu próximo, pedia perdão, em primeiro lugar em frente da família, e confessava o mal cometido. O outro tinha o direito de perdoar ou não. Mas perdoava-se para sempre. A única diferença é que ainda não se tinham verificado crimes de sangue, delitos horríveis como o genocídio. Também eu pensava que tudo isto não podia funcionar com os crimes de sangue. Então como fazer? Parece-me — mas posso estar enganada — que os pontos são dois. O primeiro, é a presença do perdão na nossa cultura, como já expliquei. O segundo, é que os ruandeses se tinham casado entre eles, sem se preocuparem com serem hutus ou tutsis, sobretudo onde eu nasci, em Butare. Dizia-se que Butare era a cidade intelectual do país porque era ali que a Igreja católica se tinha desenvolvido e também porque havia uma universidade. Penso que é este o motivo pelo qual o genocídio iniciou muito tarde em Butare, depois do dia 20 de abril. O presidente de então teve que ir pessoalmente para incitar as pessoas a matar-se. Todavia, penso que foi também um dos motivos para perdoar. Por quê? Suponhamos que o teu cunhado tenha vindo para matar o teu marido... Os vossos filhos são primos: como lhes se poderia impedir que vivessem juntos? Impossível. Para mim é muito bom ver que ainda hoje os filhos das vítimas se casam com os filhos dos carnífices. Portanto, temos um ponto do qual partir precisamente graças aos nossos filhos. Penso que serão precisamente as próximas gerações quem nos salvará.

A recordação do bem é mais forte que a do mal?

Sim. A recordação do mal destrói, ao passo que a do bem constrói. No lugar onde eu gostaria de abrir a minha escola, há um monumento comemorativo que permitiria que as crianças compreendessem a história do genocídio. Não quero que retenham o horror. Gostaria que conservassem só os aspetos positivos. Por esta razão, desejaria criar precisamente ali o primeiro jardim de infância dos justos. Os justos virão dar o seu testemunho às crianças, sentadas naquele jardim. O jardim do bem, justamente, onde se falará das pessoas que rejeitaram o mal, arriscando a própria vida, que fizeram o bem. Assim as crianças conhecerão a história completa do genocídio, preservando só o bem. Procurarão ser como os bons, não como os maus.

Charles de Pechpeyrou

Yolande Mukagasana


Nascida no Ruanda em 1954, Yolande Mukagasana foi enfermeira anestesista por 19 anos no centro hospitalar da capital Kigali, em seguida enfermeira-chefe no ambulatório construído nessa mesma cidade. Vítima dos massacres que devastaram o país em 1994, sobreviveu ao genocídio dos tutsis, mas perdeu a família e os amigos.

Encontro de Yolande Mukagasana com Patrice culpado do assassínio de cem pessoas, descrito no livro «Les blessures du silence» realizado com o fotógrafo Alain Kazinierakis

Ao longo dos cem dias do genocídio, na maior parte do tempo escondeu-se na mata. Foi até hospedada numa casa onde se encontrava um dos carnífices. Refugiou-se na Bélgica e foi naturalizada em 1999. Contudo, as suas competências profissionais no campo da saúde não foram reconhecidas. Em 1999 regressou ao Ruanda, acompanhada pelo fotógrafo grego Alain Kazinierakis, para entrevistar quer as vítimas quer os carnífices do genocídio de 1994. Aquele trabalho meticuloso deu vida ao livro Les blessures du silence. Mas Yolande Mukagasana escreveu também outros textos sobre o genocídio ruandês: peças teatrais, contos, artigos autobiográficos. No seu livro La mort ne veut pas de moi narra como sobreviveu, enquanto o seu marido, os três filhos, o irmão, as irmãs e outros familiares foram assassinados. Regressa frequentemente ao Ruanda, mas já não reside lá de forma estável, porque é perseguida pelas recordações da tragédia.

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

25 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS