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A riqueza da dependência

Por que, quando foram abatidos os numerosos obstáculos legais, as mulheres tiveram tantas dificuldades em afirmar-se naqueles âmbitos que no passado eram ocupados pelos homens? Por outras palavras, por que motivo as mulheres permanecem escassamente representadas nos setores de poder e de influência? Por que continuam a obter um rendimento tão inferior àquele dos homens, mesmo quando desempenham o mesmo tipo de trabalho? Em breve, por que a igualdade se demonstrou tão inalcançável para as mulheres?

As estatísticas, pelo menos nos Estados Unidos, falam claro. As mulheres que não desempenham responsabilidades relacionadas com os cuidados, que não têm filhos, aproximaram-se um pouco mais da igualdade de ordenados e retribuição com os homens. O mesmo não se pode dizer em relação às mulheres com filhos, não obstante os altos níveis de participação no trabalho e de instrução que as mulheres obtiveram como grupo.

Nos Estados Unidos e em todo o mundo, as mulheres que desempenham responsabilidades relacionadas com a dependência são mais pobres e nunca conseguiram alcançar a igualdade. Não obstante todos os progressos das mulheres, as sociedades na maior parte do mundo, mas marcadamente nas nações mais ricas, como os Estados Unidos, não conseguiram chegar a compreender as exigências da dependência. Enquanto nós mesmos as concebermos como criaturas cujas vidas não só são profundamente interdependentes mas também, nalguns momentos, inevitável e necessariamente dependentes, estas exigências continuarão a tornar utópico um mundo no qual vigore uma igualdade plena de género. Devemos rejeitar a visão segundo a qual a dependência, quando é inevitável e não é simplesmente a consequência de estruturas injustas, é um estado miserável que se deve evitar. Enquanto não aceitarmos nem compreendermos esta dependência como origem dos nossos vínculos mais profundos e como raiz de qualquer organização social humana, nunca encontraremos o caminho rumo a uma sociedade plenamente justa e assistencial na qual se realize a igualdade de género.

Lutei com estas mesmas questões e cheguei à conclusão de que somente através das mudanças estruturais da sociedade poderemos começar a ser determinados em relação ao que era tão significativo para as relações estreitas mais importantes, no respeitante aos relacionamentos de dependência, e a um espaço para a deficiência, mesmo no momento em que as mulheres procuravam realizar-se de maneiras novas.

A independência que muitas vezes as mulheres procuram não é aquela forma de independência isolada que a filosofia liberal proclama, mas uma forma que exige o pressuposto da responsabilidade social a fim de ajudar e apoiar as relações de dependência.

Se devemos trabalhar por um mundo no qual as conquistas de algumas mulheres não dependam da exploração do «trabalho de dependência» de outras mulheres (que deixam de se dedicarem às suas famílias) devemos pensar na assistência e na justiça num contexto global.

(Da introdução de E. Feder Kittay, La cura dell'amore; Milão, Vita e Pensiero, 2010)

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21 de Agosto de 2019

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