Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Relações redimidas

O Papa Francisco falou diversas vezes sobre a necessidade de «criar mais amplas oportunidades para uma presença feminina mais incisiva na Igreja» (por exemplo na Evangelii gaudium, n. 103-104) e de encontrar modos para incluir as mulheres em funções de decisão nos diversos âmbitos da Igreja. É muito evidente que é isto o que se está a empenhar a fazer. Por outro lado, contudo, anunciou repetidas vezes que isso não pode incluir a admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial. E desconfia das propostas que aparecem inspiradas no que ele define «machismo feminino». Para contrastá-lo, auspicia uma «teologia da mulher» mais profunda. Espera da mulher uma contribuição especificamente feminina, de facto algo materno, na obra e no testemunho da Igreja no mundo. Considera a colaboração entre homens e mulheres um valor para a Igreja, porque a complementaridade dos sexos é um valor. Também muitas mulheres católicas que esperam em mais amplas oportunidades e na admissão a funções de decisão consideram a colaboração entre homens e mulheres na Igreja um valor. Contudo, nem todas elas aspiram a dar uma contribuição especificamente feminina! As feministas católicas e as teólogas feministas que esperam em um “discipulado de iguais” vêem com grande suspeita os apelos à complementaridade dos sexos. Desconfiam da perspectiva do Papa e do seu interesse em desenvolver uma “teologia da mulher”. Trata-se de uma situação curiosa: o Papa exprime a própria intenção de responder ao pedido apresentado pelas mulheres católicas, mas muitas delas não concordam com os motivos pelos quais o faz! Também há outras que pensam que a Igreja já possua uma “teologia da mulher” adequada, mas que lhe sirva uma “teologia do homem”, ou seja do ser humano masculino. Em que modo devemos interpretar estas reticências? Embora haja poucas mulheres que neguem a diferença entre os sexos, são muitas as que na tradição anglo-americana do feminismo liberal recusam a teoria da complementaridade dos sexos. Contestam a ideia que seja o sexo físico a ditar os traços específicos da personalidade masculina e feminina. Por outras palavras, perguntam-se se o sexo (um facto biológico) origine necessariamente o gender (isto é, os aspectos psico-sociais da identidade sexual) masculina ou feminina. Segundo eles, reconhecer a importância da diferença sexual conduz ao “estereótipo” e isto, por sua vez, leva à injusta discriminação das mulheres, por exemplo excluindo-as dos papéis sociais, especialmente da leadership pública, que por tradição são desempenhados pelos homens, e delimitando-as às funções domésticas. A teoria por elas contestada supõe que os aspectos da personalidade sejam repartidos entre os sexos de maneira reciprocamente exclusiva, em vez de partilhados, e atribui aos homens as características mais apreciadas e às mulheres as menos desejáveis, mas “complementares”. Portanto justifica uma ordem hierárquica dos sexos. Por fim, implica que as mulheres existem para “completarem” os homens. Como se os homens representassem a norma do ser humano e as mulheres somente uma complementação ou como se cada um dos dois sexos possuísse somente a metade (ou uma outra fração qualquer) do que é o ser humano. Nesta base, as feministas consideram impossível reconciliar a teoria da complementaridade dos sexos com a verdadeira igualdade. Esta, pelo contrário, aparentemente justifica uma ordem “patriarcal” na qual as mulheres são subordinadas aos homens. As feministas liberais insistem no facto que as mulheres não devem ser vistas como membros de uma classe, mas sim como indivíduos, “pessoas em si”, que possuem, ou são capazes de desenvolver, os mesmos traços e as mesmas capacidades dos homens. Uma vez que a designação dos aspectos da personalidade como “masculinos” ou “femininos” varia muito de uma cultura para a outra e de uma época histórica para a outra, elas concluem que a identidade sexual (gender) é construída socialmente e não é um dom de Deus radicado objectivamente na natureza humana. Algumas delas, chamadas “feministas do gender”, recusam completamente o “sistema do gender binário”! Estas feministas pretendem “libertar” as mulheres da discriminação bseada no género, ao negarem que a complementaridade dos sexos tenha uma base sólida na natureza humana. Sonhando uma sociedade “multi-gender” onde aos seres humanos não sejam impostos os limites do seu sexo biológico. As feministas católicas talvez não aceitem as teorias radicais do “feminismo do gender”, mas tendem a preferir as explicações que minimizam a importância da diferença sexual na identidade pessoal. Querem ter acesso a funções de decisão que agora estão reservadas ao clero, mas não exactamente contribuir com «maternidade, afecto, ternura e intuição de mãe» (como disse o Papa Francisco às participantes na assembleia plenária da União internacional das superioras gerais em 8 de maio de 2013). É verdade que até há bem pouco tempo a teoria da complementaridade servia de apoio a uma visão da mulher como “outra”, inferior ao homem, definida principalmente pelo seu “justo” papel sexual e pelas presumidas características da sua personalidade e vista por Deus como subordinada ao homem. Contudo, nos últimos quarenta anos o magistério enfrentou a questão diversas vezes. João Paulo II respondeu de modo detalhado às críticas feministas na carta apostólica Mulieris dignitatem (1988). Por ocasião do Ano internacional das mulheres proclamado pelas Nações unidas (1995), publicou uma Carta às mulheres e fez uma série de catequeses, defendendo a dignidade e a paridade dos direitos das mulheres. 

O ensino papal esclareceu e desenvolveu a compreensão da complementaridade dos sexos que se encontra na revelação cristã. Baseia-se na narração bíblica da criação do homem (homem e mulher) à imagem de Deus. Não propõe uma teoria fundada nas características da personalidade masculina e feminina, nem presume que tais características pertençam aos homens e às mulheres de modo reciprocamente exclusivo ou que sejam ordenados de modo hierárquico a favor do homem. Não sugere que justamente só os homens desempenhem funções sociais na esfera pública, mas encoraja também as mulheres a participarem nela. Não presume que o homem represente a humanidade normativa ou que, do ponto de vista humano, o homem e a mulher sozinhos estejam incompletos. No entanto, a Igreja ensina que a pessoa humana se completa somente ao doar-se (cf. Gaudium et Spes, n. 245), um dom que se exprime concretamente no matrimónio e na parentalidade. Paternidade e maternidade, portanto, nunca são simplesmente “especializações reprodutivas” ou “papéis sociais”, são fruto ou cumprimento de um desígnio de Deus. Isso inclui também a paternidade e a maternidade “espiritual” (porque a teria feminista ignora a importância pessoal da sexualidade humana para a expressão do amor altruístico no matrimónio e na procriação, esclui a possibilidade de basear a contribuição específica das mulheres sobre algo de diverso das características da personalidade ligadas ao gender). Uma vez que estes dois modos de ser corpo são, de facto, reciprocamente exclusivos, indicam os parâmetros fundamentais entre os quais exercemos a nossa liberdade e nos apropriamos da nossa identidade masculina e feminina. A complementaridade dos sexos, no desígnio de Deus, não é somente física, mas também psicológica, espiritual e ontológica (Carta sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo, n. 87). Segundo a visão bíblica, o homem e a mulher foram criados “um para o outro” e destinados não somente a viverem “um ao lado do outro”, mas a tornarem-se “uma única carne” em uma “comunhão de pessoas”, uma “unidade em dois” que reflecte a Trindade. Portanto, a sexualidade é um “componente fundamental” da personalidade humana, revela a capacidade de manter relações interpessoais, a capacidade amar. Isto, por sua vez, revela a vontade de Deus para a humanidade, para o matrimónio e para a família. Por outras palavras, a criação em dois sexos pertence à revelação de Deus. É doutrina católica e não simplesmente uma teoria entre tantas (cf. Catecismo da Igreja católica, art. 369-372). Para superar o sexismo não é necessário eliminar a diferença entre os sexos, mas basta acabar com a oposição que há entre eles e que nasce do pecado. A relação entre os sexos está «ferida e precisa de ser curada», mas a graça de Cristo convida à conversão e oferece a cura e a integridade nas relações redimidas. Em consideração disto, a Carta sobre a colaboração apoia a «colaboração activa ao reconhecer a própria diferença entre o homem e a mulher» (n. 4; a carta explica como os “valores femininos” contribuam para a sociedade, mas limita-se a sugerir que a própria Igreja tem uma identidade feminina). Evidentemente é isto que tem na ideia o Papa Francisco. Segundo João Paulo II, «feminilidade e masculinidade são complementares entre si, não somente de um ponto de vista físico e psíquico, mas também ontológico. É somente graças ao dualismo do “masculino” e do “feminino” que o “humano” se realiza completamente». Na Mulieris dignitatem identifica o “génio feminino” como a capacidade especial da mulher de dar atenção à pessoa. Sugere que esta capacidade está radicada na constituição física da mulher e na sua vocação para ser mãe. Mas qual é o “génio masculino”? O Papa Francisco espera que as mulheres dêem uma específica contribuição feminina, mas o que constitui uma contribuição especificamente masculina? Se o magistério quer afirmar que a complementaridade dos sexos é algo fundamentalmente positivo, isto é que os homens e as mulheres devem oferecer uma qualquer contribuição especial, é necessário responder a esta questão. Se for ignorada, a humanidade normativa parece que se identifique com o masculino, e o feminino aparece mais uma vez como “outro” e como expressão complementar da humanidade. Esta impressão pode ser corrigida somente com a identificação do “génio masculino”. Se os pensadores feministas colocam em contraste o “positivo feminino” com o “negativo masculino”, o remédio está em uma qualquer articulação do “positivo masculino”. Se a Igreja é incapaz de construir uma explicação positiva do ser homem e da masculinidade, não nos podemos admirar se continuamos a ser ambivalentes em relação à paternidade de Deus, à importância teológica do ser homem de Jesus e ao facto que Deus tenha reservado o sacerdócio para os homens! Qual é o tipo específico de complementaridade que há entre o homem e a mulher, e porque deveria ser de benefício para a vida e a missão da Igreja? Sobre isto parece que haja um consenso: o exemplo do nosso Senhor Jesus Cristo, um homem que se esvazia de si próprio até à morte na cruz e que se dá completamente à humanidade pecadora num amoroso serviço, altera todos os esquemas patriarcais de domínio. Nele vemos realizada a vocação de cada pessoa, que deve cumprir-se através do dom de si ao próximo mas, por último, a Deus. Este exemplo profundamente contra-cultural de Jesus servidor reflecte-se na imagem de Maria , que consentiu livremente a ser a serva do Senhor, dando a carne humana ao seu filho e acompanhando-o até à cruz. É a nossa fé que nos coloca diante esta imagem de relações “redimidas” entre os sexos. Inclui o corpo e a expressão da pessoa, e afirma que a criação como homem e mulher à imagem de Deus é uma coisa “muito boa”.

Sara Butler


A autora: Sara Butler ensinou teologia primeiro na Mundelein Seminary (arquidiocese de Chicago, 1989-2003) e depois, até 2010, no seminário St. Joseph (arquidiocese de Nova Iorque). Actualmente voltou para o Mundelein Seminary onde é professora emérita de teologia sistemática. Foi consultora teológica da Conferência episcopal dos Estados Unidos e membro da Comissão internacional anglicana-católica (1991-2004) e da Conversação Internacional entre católicos e baptistas (2008-2011), está na Comissão teológica internacional desde 2004.

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

21 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS