Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

​Regina Jonas a rabina esquecida

Quando em Cincinnati, em 1972, a judia reformada Sally Priesand recebeu a ordenação como rabina do Hebrew Union College, foi considerada a primeira mulher rabina na história. Os meios de comunicação apresentaram-na deste modo e assim ela mesma se julgava. Na verdade, era apenas a segunda, já houve uma, mas foi esquecida, ninguém se lembrava do seu nome nem do seu percurso. No entanto, o que a tinha levado a receber a ordenação rabínica na Alemanha de Hitler em 1935, e depois a morrer em Auschwitz em 1944, fora um caminho interessante, anómalo. Chamava-se Regina Jonas, e tinha nascido em Berlim, em 1902. Na altura a sua história suscitou um certo clamor e foi relatada inclusive na imprensa alemã. Mas depois, Regina Jonas foi completamente esquecida. Sua figura reemergiu do esquecimento só após a queda do Muro de Berlim, no início dos anos noventa, quando uma estudiosa, Katharina von Kellenbach, encontrou num arquivo na Alemanha Oriental um envelope com alguns dos seus documentos, entre os quais uma certidão da ordenação rabínica. Desde então, a sua figura tem atraído cada vez mais a atenção, não só na Alemanha, mas também nos Estados Unidos onde, a partir do início dos anos setenta, surgiu um movimento feminista judaico muito ativo que impulsionou, entre outras coisas, um debate animado sobre as rabinas.

Marlis E. Glaser, retrato de Regina Jonas

De Regina só possuímos uma fotografia: vestida de preto, com os cabelos cobertos, um rosto bonito e olhos intensos. Parece mais uma mulher ortodoxa do que a primeira rabina da história. Era de uma família modesta e tradicionalista, tanto seu pai quanto sua mãe tinham nascido na Alemanha, seu pai era um pequeno comerciante que morreu prematuramente. Depois da sua morte, a família começou a frequentar a sinagoga de Rykerstrasse, inaugurada em 1904, uma sinagoga mista onde o culto era principalmente tradicionalista, mas com aberturas à mudança. Ali oficiava nos anos da primeira guerra mundial também o rabino Max Weil, que se tornou o mestre de Regina, seguindo-a nos seus estudos. Era um rabino ligado à tradição, mas particularmente atento à questão das mulheres, de modo que foi um dos primeiros a introduzir o bat mizvah, a maioridade religiosa para as meninas. Em síntese, um mundo complexo de entrelaçamentos entre referências à tradição e inovação que Regina modulará do seu jeito mas que, em outras formas, encontramos também no seu percurso de estudos. Um percurso que atinge a primeira etapa em 1924, quando Regina obtém o diploma e é contratada pela escola religiosa de Annenstrasse, dirigida pelo rabino Bleichrode, também ele bastante próximo dos tradicionalistas, mas não sem aberturas especialmente no campo educacional. No ano seguinte, Regina matricula-se na Hochschule für die Wissenschaft des Judentums. Era o seminário de estudos rabínicos fundado em Berlim em 1872 por Abraham Geiger, uma escola surgida na vaga do movimento de reforma, mas oficialmente desprovida de uma adesão formal a qualquer movimento religioso, ortodoxo, liberal ou reformado que fosse. O professor de Regina na Hochschule, Eduard Baneth, atribuiu-lhe uma dissertação intitulada significativamente «Podem as rabinas oficiar como os rabinos?».

Este é o contexto no âmbito do qual se forma Regina, em que completa o seu complexo projeto de se tornar rabina. Um contexto que certamente não é irrelevante, uma mistura entre apego à tradição religiosa e abertura à novidade que se sedimenta na mente da jovem estudiosa, que a marca e a move. Regina não é nada extravagante, como na altura se tentou apresentá-la. Estuda em escolas com mentalidade aberta, assim como são todas as que não são exclusivamente ortodoxas (então os ortodoxos eram uma minoria entre os judeus alemães), e tem acesso a um instituto de estudos rabínicos que nasce diretamente da Haskalah e do movimento de reforma. Uma instituição, é de sublinhar, em que desde a sua criação eram admitidas mulheres (ao contrário, no instituto rabínico ortodoxo, Hildesheimer, as mulheres não eram admitidas): de facto, em 1872, de cada 12 alunos 4 eram meninas e, posteriormente, a proporção cresceu ainda mais. Na verdade, nenhuma delas aspirava à ordenação rabínica, mas ao diploma de ensino e à relação com a sociedade judaica. Apenas Regina queria com todas as suas forças tornar-se não professora, mas rabina. Entre os seus mestres na Hochschule estava também Leo Baeck, que tinha grande estima por ela, mas no momento de a apoiar tentou dissuadi-la. Finalmente, em 1935, Regina obteve o tão desejado título e tornou-se a primeira rabina da história. Quem lhe concedeu a ordenação foi o rabino liberal Max Dienemann, de uma forma quase privada.

No período entre 1935 e 1942, em que Regina exerceu em Berlim a função rabínica, sobressaiu o seu carisma e as suas capacidades. Embora inicialmente mantida à margem, tornou-se logo uma figura conhecida e apreciada. Morava com a mãe e tinha renunciado, não muito em sintonia com a tradição judaica, a formar uma família. Contudo, teve uma relação de amor com um rabino de Berlim, Joseph Norden, muito mais velho do que ela, também ele deportado para Theresienstadt e ali falecido em 1943. Foi precisamente Norden, em 1942, quem se interessou por ela fazendo com que emigrasse para os Estados Unidos, longe do perigo. Mas Regina recusa-se a deixar Berlim, a sua mãe, a congregação. A 6 de novembro, juntamente com a mãe, foi deportada para Theresienstadt.

Fechada no gueto, começam para Regina dois anos intensos, todos finalizados a trabalhar para aliviar os sofrimentos dos judeus, especialmente das crianças e dos idosos. Em síntese, durante a deportação cumpre totalmente o papel de «protetora» que sempre sublinhara como tarefa dos rabinos quando, alguns anos antes, tinha afirmado a importância do rabinato feminino. Entre os dirigentes do Conselho judaico estava Leo Baeck, seu antigo professor, que dez anos antes lhe tinha recusado a ordenação. Regina desempenha a sua função ao lado dele, proferindo inclusive conferências, colocando a sua extraordinária capacidade oratória ao serviço dos judeus que esperavam a deportação para Auschwitz. Trabalha também com Viktor Frankl, o psiquiatra austríaco inventor da logoterapia.

A lista dos deportados para Auschwitz de 12 de outubro de 1944 cita o seu nome ao lado da mãe, e também indica a sua profissão: Rabbinerin.

Nem Baeck nem Frankl, ambos sobreviventes, jamais a nomearão nos seus escritos. Baeck, falecido em 1956, nunca fez qualquer menção. Frankl, que morreu em 1997, só falou dela depois que a sua história foi redescoberta, na década de noventa. Mas porquê?

Apesar de tudo, Regina Jonas tinha sido uma figura conhecida, a primeira rabina da história. A sua atividade como rabina nos anos trinta em Berlim fora importante. Depois da sua redescoberta, surgiram vozes e testemunhos que evocavam o seu carisma, os seus sermões. Pessoas que a tinham visto, conhecido e que enfim a recordavam. Então por que razão não Baeck, por que não Frankl, homens de letras? Por que motivo esta aniquilação, que nos impede também de saber qual tinha sido o seu papel quando trabalhava ao lado de Frankl, quando proferia conferências organizadas por Baeck? Na ausência de testemunhos, podemos inclusive supor que o seu papel foi importante, mais do que se pensa. E, portanto, que o gás de Auschwitz tenha impedido que lhe fossem reconhecidas capacidades fundamentais.

Uma das hipóteses que podemos fazer para explicar o silêncio é que recordá-la se tivesse tornado difícil depois do Shoah. Que a primeira rabina se perdeu no grande mar dos falecidos, aniquilados, esquecidos. Se tivesse sobrevivido, as coisas teriam sido diferentes. Podemos imaginá-la retomando as suas funções rabínicas na Berlim do pós-guerra, permanecendo na Alemanha como escolheu fazer quando lhe ofereceram a oportunidade de partir. Outra hipótese é que foi precisamente o seu papel de rabina que a condenou ao silêncio. Que quem a conheceu tenha pensado que o Shoah tivesse arrastado consigo também esta mulher estranha, que quis assumir um papel só masculino, e demonstrar que as mulheres são talvez mais adequadas do que os homens para exercer este cargo. Então, o que talvez a tenha condenado ao esquecimento foi precisamente aquilo que, ao contrário, lhe deveria ter dado celebridade e memória.

No momento da sua ordenação rabínica, Regina tinha respondido por escrito a uma jornalista que lhe perguntava os motivos da sua escolha. «Mas se tenho mesmo que revelar o que me guiou como mulher a tornar-me rabina, vem-me à mente dois pontos: a minha fé na chamada de Deus e o meu amor pelas pessoas. Deus colocou aptidão e chamadas nos nossos corações, sem distinção de género. Portanto, cada um de nós, homem ou mulher, tem o dever de realizar e trabalhar de acordo com os dons que Deus lhe concedeu. Analisando a questão nesta perspetiva, devemos considerar homens e mulheres por aquilo que são: seres humanos».

Anna Foa

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

14 de Outubro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS