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Reflexões sobre uma pastoral malograda

«A realidade vê-se melhor a partir da periferia do que do centro»: Francisco está verdadeiramente convencido disto, como o reitera na entrevista a «La Cárcova News», o jornal de bairro fundado por parte dos jovens do padre Pepe, numa villa miseria de Buenos Aires. As perguntas dirigidas ao Sumo Pontífice, elaboradas entre os jovens naquele bairro degradado da cidade, não são as mesmas que a imprensa faria. Pelo contrário, vem ao de cima a vida de uma geração inteira, tecida de temores, dificuldades e grandes aspirações. O diálogo à distância que sobressai é de uma intensidade surpreendente: pura evangelização. Pois bem, o que mais se propõe o Sínodo extraordinário sobre a família? A aposta é missionária: indicar Jesus Cristo presente em infinitas histórias de amor. Roma reúne, em duas sessões consecutivas, centenas de pontos de vista provenientes das periferias: deste modo o Papa demonstra, cada vez mais, que considera os bispos como os naturais portadores do «cheiro» do seu povo, um caleidoscópio da experiência humana de amar e de ser amado. Por isso, os meses que separam a primeira convocação da segunda exigem um regresso activo às dioceses: oportunidade formidável para sentir a palpitação da realidade. Eventualmente, deve-se combater a tentação de resolver a complexidade mediante um jogo de agrupamentos curiais. Com efeito, se a atenção à vida não for predominante, o regresso a Roma pode reduzir-se a uma mera prova de força, num conflito entre sensibilidades teológicas que já se comediram umas às outras.

Giovanni Segantini, «Ave Maria em transbordamento» (1886)

Efectivamente, não está bem claro se os meios de comunicação geraram, ou simplesmente amplificaram, o desvio do Sínodo para uma controvérsia totalmente eclesiástica sobre a comunhão aos recasados e as uniões homossexuais. Então, primeiro procurarei aderir àquilo que observo, se possível a fim de contribuir para o discernimento em andamento. Não sou bispo e não vivo em Roma, e por conseguinte não me encontro de modo algum no centro da Igreja. Simplesmente tenho o dever de dar voz à periferia, de maneira particular a partir do ponto onde foi posto. Se a minha intuição for correcta, no Sínodo sentiu-se novamente a tensão entre Igrejas ricas e cansadas, e Igrejas pobres mais vitais, e muitos observadores puseram em evidência um desvio irrefreável rumo ao sul do baricentro da catolicidade. Pois bem, Milão – arquidiocese na qual vivo – e o norte da Itália em geral constituem um caso realmente extraordinário de cristianismo popular, embora o clima seja de pós-modernidade. Depois de seis anos de ministério em bairros difíceis dos territórios interiores, há mais de seis anos que agora me dedico à pastoral juvenil numa Brianza plasmada pela civilização paroquial. Culturalmente, com os meus fiéis, respiro tudo aquilo que desperta e confunde a Europa: um universo em crise. Contudo, isto acontece no meio de igrejas que permaneceram apinhadas. Não obstante muitas situações tenham mudado ao longo do tempo, aqui cristianismo e sociedade não chegaram ao divórcio. Ensino em escolas superiores estatais e noventa por cento dos estudantes continua a valer-se da hora de religião. Tais percentagens estão até em leve incremento. A maioria dos meus quase quatrocentos alunos testemunha que teve uma boa experiência do oratório ou de outras realidades do associacionismo católico, que em numerosos casos continua também na idade adulta. Além disso, posso contar com um elevado número de jovens na animação das atividades paroquiais; a catequese é frequentada; o confessionário, de forma particular durante a adolescência, não é desatendido. Portanto, está propagada a vida cristã? A resposta não é simples. Na realidade, impõem-se-me dados que o Sínodo sobre a família deveria ter em consideração. Recordo-me de um título, publicado em «Il Corriere della Sera» há pouco mais de um ano, que me impressionou: «Recorde de divórcios nas cidades brancas». Fidelidade e amor eterno, observava a jornalista, estão em via de extinção, principalmente na Lombardia: depois, enumeram-se os últimos dados da Istat sobre as famílias italianas, que colocavam no pódio das províncias com o maior número de separações e divórcios, nesta ordem, Lodi, Monza e Brianza, Pavia. Comento do diário sobre o primado de Lodi: «Uma surpresa, talvez, para uma cidade de fortes tradições católicas, com tantas associações comprometidas no mundo da família, igrejas e paróquias numerosas e frequentadas, inserida num ambiente bucólico». Por outro lado, na arquidiocese de Milão, os matrimónios cristãos parecem ter passado de 15954 em 1999 para 6135 em 2014; na capital da Lombardia a diminuição alcançou quarenta e quatro por cento unicamente nos últimos dez anos. A queda é demográfica, mas não só: é mais radical uma ruptura de ordem simbólica. Com efeito, até aqueles que encontram o catolicismo na própria infância e adolescência sentem cada vez menos o amor homem-mulher como uma questão pública, como um bem para a sociedade. Além disso, parece demasiado distante da experiência comum a certeza de que Deus fala de si mesmo, de modo novo, a partir de dentro de cada história de amor, de tal forma que quanto é oferecido ao casal é uma dádiva que diz respeito a todos. É natural perguntar se a família cristã tradicional tinha a sensação do seu ser sacramento. Deus narra-se a si mesmo nas alegrias e nas dificuldades do nosso amar-nos uns aos outros: é possível que a enormidade deste perfil tenha desaparecido repentinamente? Quando o digo aos jovens, tenho a impressão que arregalam os olhos. Para eles, o matrimónio é um dia especial, uma celebração, a solene assinatura de um pacto. E não obstante a família constitua um dos valores mais excelsos e os pais, até separados, representem pontos de referência certos, não é «matrimónio» a palavra para indicar o caminhar juntos em frente diariamente. Aquele vínculo, de modo particular quando tudo funciona bem, é transparente, confiado ao álbum das lembranças, sepultado durante décadas no armário da sala de estar. Ao contrário, sacramento significa vertigem, encanto, sentido da presença de Deus num sinal extremamente frágil. Aquilo que nos dia do namoro faz bater o coração transforma-se com o passar do tempo, através de crises e desafios, e é obrigado a um descobrir-se sempre novo, é forjado pela densidade da vida. E neste movimento, do qual sentir o atrito e a dificuldade é apenas a sua confirmação, os amantes são plasmados, tornam-se um homem e uma mulher nunca vistos antes no mundo, graças à constatação de que o outro existe. Que Deus se revela também assim, que o proceder através de estações e de responsabilidades narra a realidade com a qual Cristo se vinculou à Igreja, que o Espírito Santo não assiste de fora mas vivifica a partir de dentro o amor de dois esposos, tudo isto é mistério de uma beleza de tirar o fôlego! Uma casa construída por quem tem consciência disto não pode deixar de estar repleta de perfume. Então, no Sínodo deveriam ser percorridos de novo os séculos em que os leigos foram pensados essencialmente como objectos da atenção pastoral, e não como sujeitos da evangelização. A vida secular dificilmente era considerada um lugar de revelação e, menos ainda, o encontro tão carnal entre o homem e a mulher assumiu um relevo teológico ou missionário. Na história de dois cônjuges, talvez da nossa mãe e do nosso pai, não relemos o Evangelho. A diminuição numérica de matrimónios documenta unicamente a constatação de que nenhum vínculo público é necessário para um amor romântico: não se institucionaliza o puro sentimento. Desta maneira, o hábito compartilhado de casar pôde dissolver-se inclusive numa terra em que se cresce entre oratório, juventude estudantil, voluntariado e escotismo. Então, é natural perguntar-se quem frequenta os cursos para noivos? Geralmente pessoas adultas, com um vínculo afectivo estável, depois de meses de coabitação, por vezes coroados com o nascimento de um filho: uma fase em que já se configurou uma boa parte da vida matrimonial. Evidentemente, graças a Deus, orientando-se para o sacramento eles procuram algo mais: a evangelização da experiência em andamento. No plano pastoral, trata-se de uma oportunidade extraordinária. Contudo, também é necessário interrogar-se: nos últimos anos em que o hábito de amar adquiria forma, o que soube oferecer a comunidade? Observo os jovens com os quais me encontro e admito: quase nada. No amor, parece óbvio que cada qual deve agir sozinho. Talvez seja o pudor, ou talvez porque de uma minuciosa casuística moral nós já passamos para visões antropológicas demasiado gerais, mas aquilo que desperta o coração na mocidade não encontra escuta, acompanhamento e nem sequer investimento algum. Entre os praticantes, a excepção é constituída por quem pede um conselho; não obstante se aprecie a educação para não separar corpo e coração, a norma é que cada qual decline a própria ética sexual e a vida afectiva sem referências à tradição e distante de qualquer circuito de confronto e de amizade. Isto interroga-me tanto sobre o que o oratório oferece a nível institucional, como sobre a solidez dos vínculos que surgem de maneira espontânea no seu interior. São suficientemente francos? Ou então predomina aquela cortesia pela qual nem sequer aos amigos se dirigem perguntas autênticas? E, principalmente, se se trata da tua vida, nunca devo dizer como te considero e o que eu faria se estivesse no teu lugar! Eventualmente, temos grupos nos quais, como em quase todos os contextos humanos, é permitido falar dos ausentes: sobre cada situação forma-se uma opinião comum, mas depois em que solidão radical certas «boas» maneiras abandonam cada um! Em contrapartida, recordo-me de dois adolescentes de periferia, de dezasseis anos, que há anos vieram à minha procura e tocaram a campainha: eram daqueles que não entram numa igreja desde a primeira comunhão, e que já estão inseridos no elenco das forças da ordem. Muito decidido, um deles queria submeter ao sacerdote, em nome do seu amigo, que parecia melancólico e silencioso, um caso tremendo: «Na discoteca, a sua namorada faz jogos eróticos com as suas amigas. Para ele, é pior de uma traição, e agora sente-se furibundo. Elas, por sua vez, afirmam que não há nada de mal, porque não envolve outro homem, e trata-se apenas de um modo de se divertir e para aprender a beijar melhor. Padre, pode dizer-nos como estão as coisas, o que se pode pensar? Senão, ele vai e mata-a!». Muito afastados da vida cristã, chegaram à paróquia para dirimir aquilo que perturbava o seu coração: interessante percepção do que procurar na Igreja. Como favorecer nos presentes, nos praticantes, algo desta mesma liberdade? Não necessariamente no que se refere ao sacerdote, mas pelo menos na mais vasta gama de relações de educação, de afecto e de confiança, que ainda temos a força de gerar. Tudo isto, com maior razão, agora que parece cada vez mais desconcertante o papel desempenhado pela pornografia: a disponibilidade da internet nos smartphones coincidiu com a difusão, até entre crianças de nove ou dez anos, de um imaginário que em seguida arrebata muitas horas, em delicadíssimas fases da vida. Assim, hoje em dia a atracção sexual e o namoro são completamente redesenhados desde o seu aparecimento, inclusive entre jovens cristãos, por uma exposição sem precedentes a fantasias noutros contextos totalmente extraordinários. Isto acarreta consigo novas inquietações, de maneira especial quando, de repente, se manifesta a divergência entre experiências virtuais e consistência da realidade. Hoje, um inteiro império financeiro alimenta-se do desejo sexual, separando-o do seu contexto interpessoal, mas relevá-lo é um tabu. E no entanto, este fenómeno tem consequências antropológicas, psíquicas e afectivas, e não unicamente morais. Não se pode esgotá-lo no confessionário. No Sínodo, eu sugeriria a oportunidade de indicar hoje – de forma solene e com lucidez inédita – carne, sangue e coração humanos como templo do Espírito, de tal maneira que a realidade do amar-se seja claramente entendida pelos cristãos como espaço de santificação. Testemunhas disto já são milhões de homens e mulheres, aos quais a Igreja teria simplesmente o dever de dar a coragem de narrar. Juntamente com eles, deveriam ser escritas a teologia do sacramento, a moral matrimonial e a pastoral familiar. Deste modo, numa época que exalta a liberdade e a felicidade, o vínculo indissolúvel que gera as famílias poderia parecer repleto de positividade. Beleza que faz arregalar os olhos!

Sergio Massironi

                o autor

Sergio Massironi nasceu no ano de 1977 em Merate (Lecco, Itália) e como sacerdote foi incardinado na arquidiocese de Milão em 2002. Depois da primeira experiência como vigário paroquial nas localidades de Corsico e Buccinasco (Milano), desde 2010 é encarregado da pastoral juvenil das paróquias de Cesano Maderno (Monza). Obteve a licenciatura em filosofia e, sucessivamente, estudou teologia na faculdade teológica de Lugano, na Suíça, e na faculdade de teologia da Itália setentrional. A partir de 2003 começou a ensinar religião católica em escolas superiores estatais. Desde o dia 1 de Outubro de 2014 colabora com o Departamento para a pastoral social e o trabalho, da arquidiocese de Milão. 

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