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As razões de uma união

· Debilidades europeias diante da emergência dos refugiados ·

Foram 16 os primeiros refugiados que experimentaram as novas regras de restrição impostas pela Hungria que, a partir da meia-noite de 15 de Setembro, considera o ingresso ilegal no seu território como um reato punível com a expulsão ou a detenção até três anos. Antes da entrada em vigor desta norma, muitos procuraram atravessar a fronteira.

Um confim que já parece intransponível e não só por causa do arame farpado que separa o território húngaro da Sérvia, com muitos militares a cavalo, deslocados como impedimento. O que parece verdadeiramente insuperável é a incapacidade persistente da Europa de recorrer aos valores que a fundaram. A tal ponto que, depois da falência de mais um e inútil (ou quase) encontro dedicado à questão das migrações, poder-se-ia perguntar se ainda vale a pena falar de Europa unida.

E pensar que a reunião dos ministros do Interior de ontem, 14 de Setembro, foi convocada — há duas semanas — com a finalidade de encontrar «medidas imediatas» para responder à emergência. Toda esta pressa resolveu-se em nada, com os vinte e oito ainda divididos sobre o programa de acolhimento de cerca de cento e vinte mil refugiados, enquanto a Turquia sozinha hospeda quase dois milhões deles. Tudo foi adiado para 8 de Outubro, durante um encontro no qual, diversamente da reunião de ontem, as decisões não serão tomadas por unanimidade, mas segundo uma maioria qualificada. Mas deve-se considerar que as nações contrárias à redistribuição dos refugiados com base em quotas estabelecidas dificilmente aceitarão uma decisão tomada com o seu voto contrário.

Entretanto numerosos países, vista a falta de um entendimento, restabeleceram os controles na fronteira, não obstante o tratado de Schengen que, nesta altura, não poucos observadores consideram em risco. E se um dos princípios europeus — como o da livre circulação das pessoas — vacila sob o impulso de algumas dezenas de milhares de migrantes, significa que a própria ideia de união é realmente frágil. Frágil, porque o processo que levou à ampliação rumo ao actual formato de vinte e oito países provavelmente foi empreendido com base em avaliações económicas e estratégicas, sem dúvida importantes mas que sozinhas não são suficientes para garantir o sentido de uma verdadeira união.

Quem se opõe com mais força ao princípio das quotas obrigatórias de acolhimento de refugiados são precisamente os países centro-europeus que, depois da implosão do império soviético, puderam experimentar a solidariedade dos vizinhos ocidentais que acolheram milhares de imigrantes. Hoje, o sentido daquela solidariedade parece esquecido, deturpando a própria imagem da Europa. Perante a crise dos refugiados — disse hoje o Alto comissário da Onu para os refugiados António Guterres, intervindo no Europarlamento — cada um dos Estados membros da Ue toma as suas medidas. «É como se cada país fosse uma parte de um puzzle que fez o que quer, e isto dá uma imagem terrível ao resto do mundo».

Portanto, para obter credibilidade aos olhos do mundo, a Europa deve superar as suas dúvidas e mostrar coesão na resposta à emergência dos refugiados. Só assim poderá recuperar o impulso ideal — hoje totalmente ausente — que lhe permite emergir dos escombros do segundo conflito mundial, em nome da solidariedade e da fraternidade entre povos. No fundo, trata-se de voltar a encontrar as próprias razões de uma união que hoje parece abalada nos seus fundamentos.

Giuseppe Fiorentino

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17 de Outubro de 2019

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