Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Radicado no Evangelho

· Para compreender Francisco ·

Com frequência perguntam-me quais leituras recomendo para entender o Papa Francisco, considerando a grande quantidade de livros, escritos e artigos publicados sobre a sua vida e pensamento. A minha resposta é sempre a mesma: os evangelhos, e se possível a Bíblia. Certamente, é aconselhável ler quanto se escreve sobre ele, mas se descuidarmos as páginas que contêm os evangelhos nunca o compreenderemos de modo adequado. Eis a fonte do seu particularíssimo modo de comunicar. As encíclicas, as homilias, os discursos, os gestos, o estilo de vida de Francisco e, sobretudo, os seus pensamentos mais profundos, estão radicados naquelas páginas.

Muitos contemporâneos de Jesus admiravam nele sobretudo o facto que «lhes ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas» (Mc 1, 22). Em que consistia aquela autoridade? No facto de que em Cristo viam uma coerência inabalável entre palavras, actos e estilo de vida. Integridade que os contemporâneos não viam em muitos fariseus, escribas e autoridades religiosas: eles podiam até ensinar a Lei de modo catedrático, mas depois com o seu comportamento contradiziam as palavras, chegando a anulá-las. Não admira então que as lutas, as discussões, as acusações e as conspirações mais ferozes que Jesus sofreu durante o seu ministério proviessem daquela categoria interna da sua própria religião. Eles acreditavam «ser os donos da fé» e tinham feito dos seus dogmas, dos seus usos e das suas práticas uma varinha inflexível com a qual julgavam quem quer que desafiasse o seu status quo e o seu poder religioso e político, mesmo que fosse o Filho de Deus. Portanto, não é difícil deduzir que a discípulos cristãos autênticos, especialmente àqueles que ocupariam lugares importantes no âmbito da Igreja, teria acontecido o mesmo por parte dos fundamentalistas.

Jesus ousou atravessar fronteiras com liberdade e espontaneidade surpreendentes. Fê-lo honrando o primeiro mandamento de amor a Deus e ao próximo. Teve a coragem de tocar doentes de lepra e até o féretro do filho morto da viúva de Naim; deixava que a multidão se estreitasse ao seu redor e no meio dela curou uma mulher com uma doença considerada impura. Como exemplos concretos de encontros entre credos diversos, reconheceu publicamente a fé de uma mulher sírio-fenícia e manteve uma animada conversação teológica com uma samaritana.

Entende-se então porque Francisco, em nome deste amor cristocêntrico, alterou os protocolos de segurança para nos aproximar de quem sofre. E não se pode pensar que a misericórdia tenha sido desde o início uma grande palavra cujo significado e conteúdo mais profundo Bergoglio aprendeu e interiorizou com aqueles gestos do Messias que, segundo alguns, desafiou o politicamente correcto. Por que não pensar que a sua insistente aproximação a outras religiões, sobretudo às nascidas do tronco de Abraão, seja uma interpretação correcta da missão cristológica mais pura?

Todas as tentativas de classificar Jesus foram infrutuosas. Para o dominar, acusar e usar, quiseram identificá-lo com os zelotes, os fariseus, os herodianos, os saduceus e até com as forças do mal. Quiseram pô-lo em dificuldade com o poder político e em conflito com o religioso, obrigando-o a dar uma resposta à pergunta se se deviam ou não pagar os tributos ao império. Não nos surpreendamos então que se tenha querido estigmatizar Francisco identificando-o com todos os tipos de ideologia, política, económica, mesmo entre si opostas?

Poderíamos continuar com mais exemplos e referências bíblicas que certamente nos ajudariam a reflectir. E a compreender que se nos afastarmos dos ensinamentos dos evangelhos e do Senhor dos evangelhos, afastar-nos-emos da possibilidade de compreender o Papa vindo do «fim do mundo».

Marcelo Figueroa, Evangélico, ex-director da Sociedad bíblica argentina

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

18 de Outubro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS