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Quero ser eu a dizer como me chamo

· Em nove mil caracteres ·

A voz feminina é o aspeto mais interessante e maduro da chamada «literatura migrante», pretendendo indicar com este termo aquela literatura produzida por autores e autoras de origem estrangeira, em italiano. Como sublinhado pelos estudiosos neste campo, as escritoras representam surpreendentemente 43 por cento do total, cerca de metade da inteira produção da literatura migrante. Uma percentagem que ultrapassa a da presença feminina na literatura italiana contemporânea, da qual estas autoras estrangeiras se apropriam, modificando-a e desprovincializando-a com as suas obras.

As escritoras migrantes são mulheres que, depois de ter deixado a própria terra natal, sofreram uma transformação radical no estilo de vida, tornando-se – através do encontro-desencontro com uma nova realidade cultural, política, social – sujeitos ativos. Nesta drástica mudança existencial, a escrita representou o meio mais adequado para testemunhar uma nova consciência, que visa a formação de uma identidade diferente e mais complexa. O que as une e as impele a escrever numa outra língua, o italiano, é um percurso de libertação e de tomada de consciência da própria diversidade e riqueza. A narradora, depois de ter experimentado uma dúplice forma de exclusão, devido ao facto de ser ao mesmo tempo mulher e estrangeira, vê na experiência da escrita a oportunidade de sair do silêncio e de falar como sujeito, atribuindo ordem e significado às experiências vividas pessoalmente, construindo afinal uma própria representação da subjetividade feminina e do mundo em geral: a escrita torna-se assim o meio para se revelar abertamente, reelaborando a própria vida e o trauma da migração.

A heterogeneidade – de estilo, idade, proveniência – da literatura migrante feminina dá voz a um quadro muito variegado onde, no entanto, permanece confusa e debatida a questão de quem é exatamente o «escritor migrante». Há autoras de primeira e de segunda geração, provenientes das ex-colónias, como no caso das escritoras de origem africana; autoras que pertencem a famílias mistas, italianas ou estrangeiras, que não realizaram o percurso migratório, e mostram diferenças inevitáveis a nível de escolhas linguísticas e de conteúdo. Se na Grã-Bretanha e na França se formaram verdadeiros movimentos literários, como Black Britain e Littérature Beur, na Itália faltou realmente um centro de agregação.

Na maioria dos casos, as escritoras migrantes que chegaram à Itália conhecem pelo menos três línguas: a materna do país de origem, a do país europeu colonizador e, por fim, o italiano. Este é o caso da camaronesa Geneviève Makaping, que lamenta a dificuldade de criar numa língua da qual não tem o pleno domínio: «A minha expressão linguística ainda é apenas a tradução italiana de conceitos concebidos em quem sabe quantos outros idiomas contemporeamente, o francês, o pidgin, o inglês e a minha língua materna, que é o bamum dos Camarões. Será que um dia terei o domínio de pelo menos uma destas línguas?». Portanto, a língua é um lugar de luta, uma forma de se conhecer a si mesmo e de tomar posse de si próprio. E então o desejo premente de escrever, a fim de pôr ordem e dar significado às experiências vividas e para construir finalmente uma representação pessoal da própria subjetividade, colide com a problemática e a vulnerabilidade do italiano, como língua estrangeira. No entanto, a escolha da língua italiana permanece uma constante desta produção literária e é escolhida para entrar em contacto com o mundo exterior, para estabelecer uma relação com o outro diverso de si mesmo: para uma autora migrante escrever em italiano significa estender uma mão ao interlocutor, convidando-o primeiro à escuta e, depois, ao diálogo.

Pierre Bonnard «Mulher que escreve»

As escritoras de segunda geração pelo contrário nunca emigraram, mas são filhas de imigrantes, que nasceram e foram criadas na Itália, cuja língua materna portanto é o italiano: de 2000 em diante, começaram a aparecer no panorama literário italiano, como portadoras de um olhar desencantado e irónico sobre os pontos fortes e fracos da cultura de origem e da cultura de pertença. Em comparação com os homens que escrevem, diferenciam-se por um alto nível de educação e um grande domínio e conhecimento da língua italiana, que aprenderam desde a infância. Nestes casos, o problema linguístico desaparece: o estilo delas é maduro, complexo, brilhante, capaz de criar novos termos e cunhar novas expressões; as suas temáticas são inovadoras pelo facto de se afastarem dos temas clássicos da nostalgia e do lamento pela pátria perdida, problematizando ao contrário, de forma crítica e por vezes irónica, a sua nova e complexa realidade, ou seja, a de ser uma mulher escritora e imigrada na Itália. Como por exemplo Randa Ghazy, nascida em 1986 na Itália de pais egípcios, que no seu livro autobiográfico Oggi forse non ammazzo nessuno. Storie minime di una giovane musulmana stranamente non terrorista Hoje talvez não mate ninguém. Histórias mínimas de uma jovem muçulmana estranhamente não-terrorista, aborda de maneira direta e irónica os preconceitos ditados pela desinformação, indiferença e ignorância, que os imigrantes de segunda geração devem enfrentar diariamente. A protagonista é uma jovem de vinte anos, em busca de identidade, intolerante quer às imposições da própria cultura de origem (por exemplo, casamentos combinados), quer aos clichés sobre árabes, típicos dos seus coetâneos ocidentais.

Seguem a mesma linha as obras de Igiaba Scego, nascida em Roma, depois de os seus pais, somalis, terem escolhido o exílio na Itália, por causa do golpe militar de Siad Barre, em 1969. No romance La mia casa è dove sono A minha casa é onde estou, percorrendo a história da sua família, dá voz às dificuldades e, ao mesmo tempo, à riqueza do seu ser portadora de duas culturas e de duas histórias: «O que sou? Quem sou? Sou negra e italiana. Mas sou também somali e negra. Então sou afro-italiana? italo-africana? Afinal, sou apenas a minha história». Igiaba Scego, em 2007, editou juntamente com Ingy Mubiayi a coleção Quando nasci è una roulette. Giovani figli di migranti si raccontano Quando nasces é uma roleta. Jovens filhos de imigrantes narram a sua história, uma série de entrevistas às chamadas «segundas gerações» na Itália, ou seja, filhos de imigrantes, que exigem voz e reconhecimento, narrando de si mesmos, do próprio dia a dia e mostrando como a alegada incompatibilidade de valores, que contrapõe a modernidade ocidental à tradição cultural dos seus pais, é frequente e geralmente uma recente construção ideológica.

Como se pode observar, nos últimos anos os conteúdos da literatura migrante feminina passaram do tema da migração em sentido estrito ao da interculturalidade, isto é, o encontro entre diferentes culturas, entre diversas formas de interpretar a realidade, com os problemas relativos à inclusão em novos contextos e à questão dos direitos e da justiça. Temas de natureza social, que estão enraizados numa experiência real, da qual se descrevem os sentimentos contraditórios: da nostalgia à vontade de fugir, do desnorteamento à assimilação, da rejeição ao desejo de se integrar e de se sentir parte de um todo com os outros diversos de si mesmo.

A narração baseada na experiência é o género literário preferido, mas não falta o uso da metáfora, portanto da poesia, para ler uma realidade muitas vezes difícil de decifrar, como no caso dos versos de Gladys Basagoitia Dazza, peruana que se transferiu desde há muitos anos para a Itália, poetisa bilingue, que escreve em espanhol e em italiano. Na poesia intitulada Altra lingua Outra língua, a literatura, escrita precisamente numa outra língua, ou seja, em italiano, oferece-se como linguagem universal de recomposição, como gesto de disponibilidade a superar obstáculos e fronteiras: «Chegaste ao país dos teus sonhos, / sorris / os sorrisos não são suficientes / fecham-se as almas e as portas / aceitando o desafio / faz tua a melodia alheia / atravessas fronteiras / conservas a canção da tua mãe / para a cantar aos teus filhos».

O fio condutor que une todas as diferentes obras poderia ser indicado numa comum e minuciosa condição de mal-estar resgatado pela palavra literária: uma inquietação da migração que encerra em si a ulterior dificuldade de ser mulher, mais uma posição de debilidade. Uma identidade descrita como dualidade inexorável, como cisão entre a cultura de origem e a do país onde se vive, como riqueza cultural e humana, mas, ao mesmo tempo, dilaceramento devido ao facto de não se sentir pertencente a lugar algum. No entanto, a representação da própria subjetividade através da escrita literária restitui a estas mulheres a dignidade e a coragem para procurar, em autonomia, o sentido do próprio estar no mundo, o significado de uma identidade de mulher e imigrada que, com as palavras de Geneviève Makaping, reivindica «o querer ser eu a dizer como me chamo».

Elena Buia Rutt

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22 de Outubro de 2019

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