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Que Deus és?

· A matriarca Raquel discute com o Senhor ·

Publicamos excertos do conto do escritor judeu austríaco, intitulado «Raquel pede a Deus» (1928).

Mais uma vez os cidadãos de Jerusalém, obstinados e instáveis, tinham esquecido o pacto estabelecido, mais uma vez tinham levado ofertas sanguinolentas aos ídolos de bronze de Tiro e Amon. Ousaram até colocar a imagem de Baal na própria casa de Deus, aquela habitação que Salomão, seu servo, tinha edificado para ele.

Henry Ryland, «Raquel no poço» (1890)

Quando Deus viu que eles ousavam escarnecê-lo no espaço mais íntimo do santuário, a sua ira explodiu implacável. Estendeu a mão direita, o seu brado rasgou os céus. A sua paciência tinha terminado: teria destruído a cidade corrupta e dispersado como excrementos o seu povo nos quatro recantos da terra. Um trovão, e o terrível anúncio ressoou no infinito. A cólera do Senhor não alcançou só os vivos, mas despertou até os defuntos nos túmulos.

Quando aqueles homens veneráveis perderam a coragem, as suas almas vazias tremiam diante de Deus como erva espezinhada, e não voltaram a ousar proferir palavras contra a sua cólera. Agora todas as vozes terrenas silenciavam intimidadas, quando eis que Raquel, a matriarca de Israel, saiu sozinha da selva das suas angústias. No seu túmulo em Ramah, ela ouvira o grito colérico de Deus e, pensando nos filhos dos seus filhos, sentiu as lágrimas escorrer pelo seu rosto. E assim, apelando a toda a força que tinha no corpo, decidiu apresentar-se diante daquele que não pode ser visto. De joelhos ergueu as mãos, de joelhos dirigiu as suas palavras ao Senhor.

«Sei que conheces as minhas palavras ainda antes que eu as pronuncie, porque em ti cada palavra ressoa muito tempo antes do que nos lábios humanos, em ti cada acção está presente ainda antes de ser praticada por mão terrena. Contudo eu te suplico: ouve-me com paciência, por amor dos pecadores». Depois de ter falado, Raquel inclinou o rosto. Mas Deus viu-a, curvada e em lágrimas, e então, por um momento, suspendeu a sua cólera e ouviu a aflita.

Quando Deus, no alto dos céus, se põe em escuta, o vazio enche o espaço e mata o tempo. O vento deixou de soprar, o trovão escondeu-se, nenhum ser ousou rastejar ou voar e dos lábios não saiu mais hálito algum. As horas permaneceram imóveis e os querubins, como estátuas de bronze, aguardaram. Porque se Deus está em escuta a respiração da vida detém-se, o som do céu silencia-se; então até o sol permaneceu imóvel, a lua repousou e os rios retiraram-se mudos diante d'Ele.

Por seu lado, Raquel tinha ouvido que Deus lhe concedia escutá-la e, voltando-se levantou o rosto em lágrimas e falou com coragem do medo. «Tu sabes que sou filha de Labão e vivia na terra de Harã voltada para Oriente; segundo a vontade de meu pai, guardava as suas ovelhas. Uma manhã conduzimo-las ao bebedouro, mas as servas não conseguiram deslocar a pedra da nascente, e então um estrangeiro, jovem e de aspecto agradável, acorreu em nossa ajuda e nós ficámos admiradas com a sua grande força física. Era Jacó, o filho da irmã de meu pai, e logo que revelou o seu nome, conduzi-o à minha casa. Tinha transcorrido apenas uma hora desde quando nos tínhamos visto, mas os nossos olhares já ardiam em segredo e os nossos corações estavam replectos de desejo. Não resistimos àquele incêndio, e fizemos a promessa de matrimónio já naquele primeiro dia, quando Jacó viu a mim, Raquel. Mas o meu pai Labão, era um homem duro como a terra rochosa que rasgava com o arado. E quando Jacó quis levar-me para sua casa, ele decidiu pô-lo à prova. E assim pediu ao pretendente que permanecesse ao serviço na sua casa por sete anos, por amor a mim.

Contudo, Senhor, Jacó aceitou, e também eu me submeti à vontade do pai. Ganhámos coragem, para que o nosso coração obedecesse e fosse paciente. Soubemos dominar-nos e permanecer firmes, não obstante o nosso desejo. Para nosso tormento, cada dia era como mil. Quando finalmente pela sétima vez o ano estava a chegar ao fim, cheia de alegria fui ter com meu pai, e pedi-lhe a tenda para as núpcias. Mas ele ordenou-me que fosse buscar Lia, a minha irmã.

Como sabes, Senhor, Lia era a primogénita. Tu deste-lhe um rosto pouco atraente e por conseguinte os homens não reparavam nela; o facto que ninguém a desejasse fazia-a sofrer. Eu gostava dela precisamente porque sofria e era uma jovem delicada. Contudo, quando o meu pai me ordenou que a conduzisse até ele e depois me pediu que os deixasse sozinhos, intuí que estavam a conspirar alguma coisa. Portanto escondi-me lá perto para ouvir o plano deles. O meu pai disse: «Ouve, Lia: está aqui connosco Jacó e para obter a mão de Raquel trabalha ao meu serviço desde há sete anos. Contudo, por amor a ti, não posso permitir este matrimónio, de facto não é possível que a filha menor deixe a casa do pai antes da maior e que a primogénita permaneça sem marido, escarnecida pelas suas próprias servas. Semelhante costume seria ímpio e inaudito, e contra a vontade de Deus. Portanto prepara-te. Lia, toma o véu nupcial e envolve nele o teu rosto, para que eu possa conduzir-te a Jacó no lugar de Raquel».

Logo que ouvi estas palavras enganadoras, o meu coração ardeu de cólera em relação a Labão e Lia. Em segredo, fui ter com Jacó e sussurrei-lhe que prestasse atenção a que no dia seguinte meu pai não lhe desse outra como esposa no meu lugar. E para que pudesse reconhecer o engano, ensinei-lhe um sinal de reconhecimento: antes de entrar na sua tenda, a esposa tê-lo-ia beijado três vezes na testa.

Naquela noite, Labão mandou preparar para Lia os véus nupciais. Envolveu o seu rosto duas vezes, para que Jacó a não reconhecesse antecipadamente. Além disso mandou-me para o celeiro para que nenhum servo se apercebesse do engano. Estava eu assim, fechada e esquecida, alimentando-me da minha própria raiva. Debaixo do tecto já tinha escurecido e foi então que a porta se abriu lentamente. Era Lia, a minha irmã. Aproximou-se com ternura e acariciou-me delicadamente os cabelos; quando ergui os olhos, apercebi-me que uma nuvem de medo ofuscava os seus. «Que acontecerá, Raquel, minha irmã? O comportamento do pai entristece-me. Privou-te do teu apaixonado e deu-o a mim. Repugna-me enganar aquele inocente: como posso apresentar-me de cabeça levantada e dar-me a ele, que te deseja a ti? Que devo fazer? Ajuda-me, irmã Raquel, ajuda-me, suplico-te em nome de Deus misericordioso!». Apesar de a amar, em mim triunfava a malvadez, e o seu medo saciava-me como um prato requintado. Mas dado que tinha pronunciado o teu santo nome, o mais santo e misericordioso de todos os nomes, Senhor, naquele momento pareceu-me que um raio inflamado me atingiu, o meu coração saltou no peito insuflado e senti que a minha alma entorpecida era invadida pela força da tua bondade e pelo poder extasiante da tua misericórdia. Sofrendo a sua mesma pena, tive piedade dela, eu, a tua serva estulta. E contra os meus desejos, expliquei-lhe como enganar Jacó.

Foi esta, Senhor, a minha acção, a única da qual no momento me orgulho, porque assim eu tornei-me semelhante a ti por generosidade e misericórdia; a minha alma sofreu penas sobre-humanas e não sei, Senhor, se alguma vez tentaste tanto uma mulher na terra de quanto me tentaste a mim naquela noite infeliz. Contudo, Senhor, consegui suportar aquela noite.

À pressa refugiei-me na casa paterna, porque depressa o engano teria sido descoberto. Infelizmente, aconteceu o que eu tinha pressentido! Jacó precipitou-se dentro da casa levando na mão um machado para atingir Labão. Ao ouvir aquela fúria, as mãos de meu pai permaneceram paralisadas pelo terror. Então ele lançou-se por terra, velho e tremente, e começou a invocar o teu santo nome. E de novo, Senhor, ao ouvir o teu santo nome senti-me invadida pela força de uma ousadia sagrada e lancei-me contra Jacó para que a sua fúria me atingisse a mim e não a Labão. Mas o sangue da cólera inflamava os seus olhos, e logo que me viu, aquela que tinha participado no engano, atingiu-me o rosto com os punhos, a ponto que me fez cair. Mas, Senhor, eu suportei isso sem me lamentar, porque sabia que a sua fúria continha um grande amor.

Logo que me viu aos seus pés, ensanguentada, também ele, que estava furioso, foi raptado pela piedade. E não teve piedade só de mim, mas por amor a mim perdoou também a meu pai Labão e não afastou Lia da sua tenda. Depois de sete dias, meu pai concedeu-me a ele como segunda esposa, e do meu seio ele gerou filhos. Filhos que exortei a invocar-te com coragem nos momentos de maior necessidade, com o segredo do teu verdadeiro nome. E com este nome, Senhor misericordioso, te invoco hoje pela maior pena do meu coração: faz como Jacó, deixa cair o machado da tua ira e dispersa as nuvens da tua cólera! Senhor, poupa Jerusalém!».

Raquel falou em voz alta como se as suas palavras tivessem que atravessar cem céus, mas depois daquela súplica angustiada a sua alma estava privada de forças. Prostrou-se de joelhos e reclinou a cabeça tremente no chão, enquanto madeixas de cabelos desciam ao longo do seu corpo como uma torrente de água escura. Assim estava Raquel, de joelhos, à espera de receber a resposta de Deus.

Mas Deus silenciava. E nada é mais terrível do que o silêncio de Deus, tanto na terra como no céu, ou entre as nuvens que rodavam entre si. Na terra, ouvido algum consegue suportar o ruído deste silêncio, coração algum pode suportar o aperto deste vazio: no seu interior, enquanto ele não se pronuncia, pode haver unicamente Deus, e não o vivente, dado que ele é a vida da vida. Nem sequer a paciente Raquel, nem sequer ela conseguia suportar o silêncio infinito de Deus como resposta à sua pena gritada.

Mais uma vez erguei os olhos em direcção àquele que não pode ser visto, mais uma vez se apoiou nas suas mãos de mãe, e a centelha da ira fez sair dos seus lábios palavras acaloradas. «Portanto não me ouviste, ó tu Omnipotente, não me compreendeste, ó tu Omnisciente, ou devo explicar-te de novo as minhas palavras, eu que sou a tua serva ignorante? Esforça-te então por compreender, ó tu Obstinado, porque quando Jacó derramou a sua semente na minha irmã também eu fui tomada pelos ciúmes, precisamente como tu, agora, estás ciumento porque os meus filhos acendem incensos a outros deuses e não a ti. Mas eu, que não sou mais do que uma débil mulher, soube dominar o meu rancor, e por amor a ti, que és misericordioso, tive piedade de Lia, enquanto Jacó teve piedade de mim, recorda-te disto, ó Deus: todos nós, pobres e efémeros seres humanos, vencemos o mal da inveja, enquanto tu, ó Omnipotente, que criaste a aperfeiçoaste todas as coisas, tu, início e hipérbole de tudo, tu, que obténs o mar enquanto nós obtemos apenas gotas, tu não quisestes ser piedoso? Sei muito bem, o povo que descende de mim é obstinado e rebela-se sempre ao teu jugo divino, contudo tu, que és Deus e Senhor de qualquer abundância, não deverias porventura superar com a tua generosidade a sua arrogância ou com a tua misericórdia as suas culpas? Não pode acontecer que, diante dos teus anjos, um ser humano se humilhe e eles digam: «Outrora sobre a terra havia uma débil mulher mortal de nome Raquel, que conseguiu domar a própria ira. Mas Deus, que é o Senhor de todos e de tudo, permaneceu escravo da sua cólera como um servo». Não, Deus, isto não pode acontecer, porque então a tua misericórdia não seria infinita, nem sequer tu serias infinito, e então não serias Deus. Não serias o Deus que criei com as minhas lágrimas e cuja presença me chamou no grito angustiado da minha irmã, és um Deus estranho, um Deus da vingança, um Deus da cólera, um Deus do castigo, e eu, Raquel, que amo unicamente o Deus do amor e servi apenas o Misericordioso, eu, Raquel, aqui te renego, diante dos teus anjos! Inclinem-se os eleitos e os profetas; vê, eu, Raquel, a mãe, eu não me inclino, endireito-me e caminho na direcção do teu próprio centro, caminho entre ti e a tua palavra. Porque quero discutir contigo antes que tu discutas com os meus filhos, e por isso acuso-te: a tua palavra, Senhor, contradiz o teu Ser, e a tua palavra irada desmente o teu verdadeiro coração. Por conseguinte, julga entre ti e a tua palavra, Deus! Se és verdadeiramente o Deus irado que afirmas ser, então lança-me também a mim nas trevas, juntamente com os meus filhos, porque não quero contemplar o teu rosto, se é o de um Deus colérico, e a fúria dos teus ciúmes repugna-me. Mas se, ao contrário, és deveras o Deus Misericordioso que amou desde o início e segundo cujos ensinamentos vivi, então faz-te finalmente reconhecer por mim, olha para o meu rosto com a luz da tua bondade e poupa a cidade Santa!».

Depois de ter lançado a espada das suas palavras ao céu, Raquel perdeu de novo as forças. Assustados, os patriarcas e os profetas afastaram-se dela, porque temiam que um raio caísse sobre a ímpia que tinha discutido com Deus. Fitaram o céu amedrontados, mas não chegou até eles sinal algum. Contudo, os anjos que diante do olhar sombrio de Deus tinham sepultado a cabeça debaixo das asas e olhavam terrificados a temerária que tinha negado a omnipotência do Senhor, viram de repente uma luz que emanava do rosto de Raquel e a sua testa resplandecer. Então, os anjos compreenderam que Deus tinha olhado para Raquel com todo o seu amor trepidante. Portanto o receio dos anjos desapareceu; eles ergueram o olhar, tranquilizados, e eis: a presença de Deus voltou a dar a luz e o esplendor, e o azul beatificante do seu sorriso cintilou infinito no espaço.

Entretanto em baixo, os homens, como sempre alheios às leis do céu, não imaginavam o que acontecia acima das suas cabeças. Envoltos em sudários, inclinavam lúgubres a cabeça na terra escura. Mas de repente, primeiro um e depois o outro, acreditaram que ouviram um doce sussurrar, semelhante à brisa de Março. Ergueram, o olhar ainda incertos e permaneceram extasiados. De repente, entre as nuvens densas apareceu um arco-íris maravilhoso, que nas sete cores da luz, restituía a Raquel, a mãe, as suas lágrimas.

Stefan Zweig

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24 de Agosto de 2019

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