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Quando a arte comunica uma beleza que é também verdade

· Na Sala Clementina concerto em honra de Bento XVI por ocasião da sua festa onomástica ·

A obra de Franz Joseph Haydn As últimas sete palavras do nosso Redentor na cruz constitui «um dos exemplos mais sublimes, no campo musical, do modo como se podem unir a arte e a fé», disse o Papa no final do concerto executado por ocasião da sua festa onomástica na tarde de 19 de Março, na Sala Clementina.

Prezados amigos

A escolha desta obra foi realmente feliz. Com efeito, se por um lado a sua beleza austera é digna da solenidade de São José – de quem o próprio insigne compositor levava o nome – por outro, o seu conteúdo é muito adequado ao tempo quaresmal, aliás, predispõe-nos a viver o Mistério central da fé cristã. Com efeito, As últimas sete palavras do nosso Redentor na cruz é um dos exemplos mais sublimes, no campo musical, do modo como se podem unir a arte e a fé. A invenção da música é totalmente inspirada e como que «dirigida» pelos textos evangélicos, que culminam nas palavras pronunciadas por Jesus crucificado, antes de dar o seu último suspiro. Todavia, além de estar ligado ao texto, o compositor estava vinculado também às condições específicas exigidas pelos comitentes, ditadas pelo particular tipo de celebração em que a música teria sido executada. E foi precisamente a partir de tais vínculos tão convincentes que o génio criativo pôde manifestar-se em toda a sua excelência: tendo que imaginar sete sonatas de cunho dramático e meditativo, Haydn aposta na intensidade, como ele mesmo escreveu numa carta da época: «Cada sonata, ou cada texto, é expresso unicamente com os meios da música instrumental, de tal modo que ele suscitará necessariamente a impressão mais profunda na alma do ouvinte, até do menos preparado» ( Carta a W. Forster, 8 de Abril de 1787).

Nisto existe algo de semelhante ao trabalho do escultor, que deve medir-se constantemente com a matéria sobre a qual trabalha – pensemos no mármore da «Pietà» de Michelangelo – e todavia consegue fazer falar aquela matéria, fazer sobressiar uma síntese singular e irrepetível de pensamento e de emoção, uma expressão artística absolutamente original mas que, ao mesmo tempo, está totalmente ao serviço daquele conteúdo de fé específico, é como que dominada por aquele acontecimento que representa – no nosso caso, pelas sete palavras e pelo seu contexto.

Aqui oculta-se uma lei universal da expressão artística: saber comunicar uma beleza, que é também um bem e uma verdade, através de um instrumento sensível – uma pintura, uma música, uma escultura, um texto escrito, uma dança, etc. Considerando bem, é a própria lei que Deus seguiu para se nos comunicar a si mesmo e o seu amor: encarnou na nossa carne humana e realizou a máxima obra-prima de toda a criação: «Um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem», como escreve São Paulo ( 1 Tm 2, 5). Quanto mais «dura» é a matéria, tanto mais estreitos são os vínculos da expressão, e tanto mais sobressai o génio do artista. Assim, na «dura» cruz Deus pronunciou em Cristo a Palavra de amor mais bonita e mais verdadeira, que é Jesus no seu entregar-se pleno e definitivo: Ele é a última Palavra de Deus, não em sentido cronológico, mas qualitativo. É a Palavra universal, absoluta, mas foi proferida naquele homem concreto, naquele tempo e naquele lugar, naquela «hora» – diz o Evangelho de João. Este vincular-se à história, à carne, é sinal por excelência de fidelidade, de um amor tão livre que não tem medo de se unir para sempre, de manifestar o infinito no finito, o tudo no fragmento. Esta lei, que é a lei do amor, é inclusive a lei da arte nas suas expressões mais elevadas.

Caros amigos, talvez me tenha prolongado um pouco com esta reflexão, mas a culpa – ou talvez o mérito! – é de Franz Joseph Haydn. Demos graças ao Senhor por estes grandes génios artísticos, que souberam e quiseram medir-se com a sua Palavra – Jesus Cristo – e com as suas palavras – as Sagradas Escrituras. Renovo o meu agradecimento a quantos idealizaram e prepararam esta homenagem: o Senhor recompense cada um com generosidade.

Agradeço mais uma vez sentidamente a todos aqueles que tornaram possível este acontecimento. Dirijo um agradecimento particular ao Quarteto Henschel e à meio-soprano, Senhora Susanne Kelling que, com a sua exibição expressiva, nos aproximou de forma musical das palavras do Salvador na Cruz. Muito obrigado!

Saúdo de todo o coração o Maestro José Peris Lacasa, autor de uma bem sucedida reelaboração de As últimas sete palavras de Cristo na Cruz, de Haydn, e que hoje tivemos o prazer de ouvir. Saúdo também aqueles que vieram da Espanha para esta ocasião. Muito obrigado!

A todos renovo uma saudação cordial, com os bons votos de seguir Jesus de perto, como a Virgem Maria, para viver a Semana Santa em profundidade e celebrar na verdade a Páscoa já próxima. Com esta intenção concedo-vos, bem como aos vossos entes queridos, a minha Bênção.

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23 de Setembro de 2019

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