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As proprietárias que passam por empregadas

· Pesquisa sobre as mulheres estrangeiras que abriram empresas na Itália ·

São o único caso na Itália. Sete mulheres de idades e nacionalidades diversas unidas numa cooperativa de pesca, a Bio&Mare. Ao entardecer atiram as redes ao mar, no mar diante de Marina de Carrara, e ao amanhecer puxam-nas. Vendem o que é possível e transformam as sobras em molhos biológicos. A mente e o coração desta realidade é Radoslava Petrova – Radi para quem frequenta o cais – nascida em Plovdiv, na Bulgária, em 1974 e chegou à Toscana com 24 anos após o matrimónio com um italiano. A ela, como a muitas outras mulheres que chegam de longe, o nosso País no início não oferece muito. Os seus estudos não são reconhecidos e as poucas possibilidades de trabalho são sempre as mesmas: doméstica, empregada de mesa ou cuidar de idosos. A paixão pelo mar e um encontro feliz darão a Radi a possibilidade de construir-se um futuro diverso. Através de Telethon onde trabalha como voluntária, a jovem conhece os pescadores da cooperativa Maestrale e começa a trabalhar como secretária para eles. Logo a seguir a iluminação: usar as sobras de peixe para preparar molhos para vender. «Antes da queda do muro – narra – na Bulgária não havia supermercados e preparavam-se boiões de conservas de todos os tipos, sem deitar nada fora. Então, incomodava-me ver aquele peixe todo desperdiçado. O meu chefe no início estava céptico, depois teve confiança e tivemos um grande sucesso!».

Em 2011 Radi começou a trabalhar por conta própria e criou a Bio&Mare. À sua volta, reúne um grupo de mulheres «desde sempre no mundo da pesca mas sempre com funções secundárias» e juntas tornam-se as protagonistas de um grande desafio. Hoje na cooperativa trabalham quatro italianas e três estrangeiras «cansadíssimas mas muito orgulhosas dos resultados obtidos».

O caso de Radi, segundo os últimos dados do Centro Studi Cna [Confederação Nacional do Artesanato e das Pequenas e Médias empresas], não é único. Os empreendedores estrangeiros em Itália são quase 420 mil (por volta de 11 por cento do total). Mais de 90 mil mulheres, das quais pouco menos que metade são as donas das empresas. É um fenómeno que continua a aumentar e contra a actual tendência. O Censis [Centro de Estudos dos Investimentos Sociais] diz-nos que enquanto as lojas italianas desde 2009 até hoje diminuíram de 3 por cento, as estrangeiras aumentaram de 21 por cento, diferença que encontramos também em muitos outros sectores, das construções ao artesanato. Impressiona um dado: estes novos empresários dão trabalho, segundo os cálculos da Unioncamere [União italiana das câmaras de comércio, indústria, artesanato e agricultura], a por volta de três milhões de italianos. São números suficientes para destruírem todos os estereótipos que enchem o imaginário sobre a emigração, sobretudo feminina. Longe de serem vítimas de um destino imposto pela sociedade ou pelo mercado, cada vez mais estrangeiras demonstram que têm a criatividade e a força para seguirem as próprias inclinações, incidindo com força no terreno humano e económico onde agem.

Porém deles fala-se pouco: os media tendem a apresentar o fenómeno migratório sempre da mesma perspectiva, segundo esquemas predefinidos. Por este motivo a Provincia di Roma está a financiar um projecto – Migração mulher: um recurso – que tem o objectivo de promover encontros directos entre algumas empresárias estrangeiras e os habitantes. Uma iniciativa inédita que na intenção das suas criadoras, Sarah Zuhra Lukanic e Maria Antonietta Mariani, apresenta à opinião pública uma imagem mais rica e completa da imigração feminina.

Entre as protagonistas do primeiro encontro, Aida Ben Jannet, que nasceu em Tunis em 1970, e adquiriu a empresa italiana para a qual trabalhava depois de salvá-la da falência. Quando narra a própria história, Aida diz: «Foi a Itália que me procurou e não vice-versa». Depois da licenciatura em direito, um querido amigo de família, Ermanno, pediu-lhe ajuda para fazer repartir a sua loja de peças de automóvel nos arredores de Roma. Aida aceitou e em 1995 partiu, mas em poucos meses a situação piora. A loja acumula uma dívida de 62.000 euros e Ermanno adoece. Ela não quer deixá-lo e decide ficar. Vai para a frente durante algum tempo, com muitos sacrifícios, até que também ela não tem uma grande intuição empresarial. «Não tínhamos mais nada para vender e um dia, para fazer alguma coisa, abri velhos caixotes que eram para deitar fora. Estavam cheios de peças de carros antigos, colocados de lado há diversos anos porque não havia mais um mercado para eles. Tirei-os para fora, limpei-os e coloquei-os nas prateleiras: eram lindíssimos! Depois comecei a ler catálogos e manuais de instrução. E apaixonei-me pelo assunto. Os clientes, quando viram a novidade, enviaram-nos coleccionistas e especialistas do sector: foi a nossa salvação!». Hoje em cima da loja há um lindo letreiro: Loja de peças Aida, mas quem entra pela primeira vez pensa que a proprietária seja a empregada: «Têm dificuldade para aceitar que uma mulher perceba de automóveis e que uma estrangeira seja a proprietária de uma actividade».

Com Aida trabalham o seu marido, que deixou o emprego em Tunis para estar junto dela, e um empregado italiano. Em casa esperam-na o filho, que nasceu em Itália há sete anos, e o velho amigo Ermanno, que foi viver com eles quando adoeceu de Alzheimer. Aida e o marido são muçulmanos mas aceitaram de enviar o filho para uma escola católica «onde não há diferenças entre o preto e o branco, o rico e o pobre, o italiano e o estrangeiro. O melhor amigo do meu filho – narra – é católico e há duas semanas partilharam a emoção da visita da escola ao Papa». A verdadeira integração passa por isto, as mães estrangeiras estão convencidas disso. Estar todos os dias ao lado de crianças da mesma idade nas aulas, nos autocarros, nos ginásios ajuda as novas gerações a anularem as diferenças e os preconceitos.

Edith Eloise Jeomazawa, malgaxe, proprietária de uma loja de especiarias em Turim (Atelier Madagascar), teve quatro filhos em Itália e há algum tempo cresce-os sozinha. «Os maiores – diz-nos – são adolescentes e não vivem mais a cor da pele como um problema, mas o menor ainda me faz muitas perguntas. No entanto, há pouco tempo veio visitar a escola dos jesuítas que frequenta um famoso jogador de basketbball afro-americano: para as crianças tornou-se logo um ídolo e agora o meu filho está orgulhoso de ser negro como ele!». Edith, como muitas outras empresárias estrangeiras, conta que a seguir a uma certa desconfiança inicial, as pessoas acolheram-na bem: «Só no teatro da Ópera continuam a fixar-me como se fosse uma extraterrestre!». Pelo contrário, todas estas mulheres se queixam bastante é dos obstáculos burocráticos, das taxas altas demais e das dificuldades para obterem financiamentos. Porém, raras vezes pensam de irem-se embora. Continuam a combater com a certeza que a crise acabará. «Como poderia dizer aos meus filhos que em Itália não há mais futuro?», pergunta-se Edith. «Não seria justo, este é o País deles e têm o direito de crescerem com as esperanças e os sonhos da idade deles». Também ela chegou aqui depois do matrimónio com um italiano e a um certo ponto juntou a experiência dela em Madagáscar com as exigências do novo País. «Comecei com a baunilha, especiaria que a minha família cultiva há quatro gerações. Em Itália usa-se muito, mas quase sempre sintética. Fui a Madagáscar, peguei em alguns quilos e vendi-a às pastelarias de Turim».

A partir dali, os últimos dez anos foram uma escalada contínua. Edith seguiu um curso de alimentação, abriu uma empresa de importação e comércio de especiarias de todo o mundo, iniciou diversas plantações em Madagáscar que durante a estação alta dão trabalho a trezentas pessoas e em 2010 foi nomeada a Empresária estrangeira do ano, no âmbito do MoneyGram Award, pretigioso prémio dedicado ao empreendedorismo emigrado na Itália.

Na categoria Inovação, no ano seguinte, o mesmo reconhecimento foi concedido a Margarida Perea Sánchez, costureira colombiana que em 2005 abriu uma actividade própria em Roma. Chegou em Itália em 2001 com o marido e o filho, que hoje tem 20 anos, e no ínicio Margarita arranjou-se com pequenos trabalhos precários. Depois encontrou trabalho numa importante alfaiataria de Roma e guardou o dinheiro para a abrir a Clinica dei vestiti, nome que homenageia o sonho da sua infância: «Queria ser médica mas não me podia permitir a universidade e o meu pai insistiu para que eu aprendesse a costurar». Margarita hoje além de criar novas roupas, com uma enorme paixão cuida também das roupas usadas: ajusta-as, repara-as, dá-lhes uma segunda vida. «Até há pouco tempo – explica – a crise jogava a meu favor. As pessoas preferiam mais consertar as roupas velhas do que comprar novas. Agora não há nem sequer o dinheiro para os concertos».

No entanto, Margarita não se rende: «Quero dar a minha pequena contribuição para resolver esta crise, sou optimista e nunca perco a esperança. Talvez – ri-se – faça parte do espírito latino-americano, é suficiente ver o que conseguiu fazer o Papa Francisco: graças a ele as pessoas começaram a acreditar no futuro!».

Silvia Gusmano

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25 de Agosto de 2019

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