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​A prontidão é tudo
(se nos deixarmos
surpreender)

O importante é estar prontos. Possivelmente estar prontos para tudo. Os líderes políticos nestes dias cheios de incertezas e de agitações esforçam-se por se mostrarem prontos, e para alcançarem os objetivos que prometem a si mesmos e prometem aos eleitores declaram-se capazes de não hesitar nem por um instante e de ir direto e confiantes até ao fundo, até às consequências mais extremas. Tudo isto deveria confortar-nos, até porque a prontidão é de facto importante, aliás, mais ainda: the readiness is all, “a prontidão é tudo” como diz a Horácio o bom Hamlet (ato 5, cena 2). Mas de qual prontidão estamos a falar? Aquela sobre a qual se fala no debate político contemporâneo muitas vezes equivale a um olhar em frente, a um pré-ver, mas só para se afirmar a si mesmos impondo a própria posição como para dizer: deve-se fazer assim e para alcançar este objetivo não ponho limites à minha vontade, os outros estão avisados para que façam o mesmo, ninguém me ponha limites. A prontidão neste caso é dissuasão, uma advertência que recai diretamente sobre os outros.

Mas há outra prontidão. Mais reflexiva, também no sentido literal do termo, ou seja, que se reflete sobre o sujeito sem recair sobre os outros. É a prontidão não de quem tem o comando das operações, de quem dá o primeiro passo, mas de quem deve inevitavelmente responder (precisamente “com prontidão”) às perguntas e às exigências da vida. Esta é a prontidão acerca da qual fala Hamlet e é a mesma que permeia as Escrituras. Pensemos em Abraão, não tem grandes virtudes, contudo está pronto para responder à pergunta exigente do Senhor. O mesmo acontece com Moisés, com os profetas, com os apóstolos: à palavra “segue-me” respondem deixando a própria atividade e pondo-se imediatamente no seguimento. Nenhum deles previa o que lhe estava para acontecer, a resposta é dada com uma prontidão paradoxalmente relutante, certamente nenhum deles tinha feito anteriormente um curso de preparação para que fosse encontrado pronto. Diante destes pontos cruciais, aqueles verdadeiros, da vida, nunca se está pronto. Exprime-o bem Martin Buber: «Tomo conhecimento do que Deus exige de mim no momento em que me acontece, e não antes que me aconteça». Esta inadequação intrínseca da natureza humana faz ressoar ainda mais o caráter paradoxal da exortação que Jesus muitas vezes repete no Evangelho: estote parati, estai prontos.

Um paradoxo que se pode resumir no facto de que o segredo da vida parece residir na capacidade de estar prontos para se deixar surpreender, surpreender pela alegria diria C.S. Lewis.

«O nosso Deus é o Deus das surpresas», repetiu várias vezes o Papa e este pensamento não pode deixar de voltar à memória nestes dias de Natal, a maior surpresa jubilosa inscrita na fé cristã, um Deus que se encarna e nasce criança (superada só por outra surpresa, desta vez dolorosa: um Deus que morre). Precisamente em virtude da encarnação, a do Natal não é uma surpresa relegada àquela noite de Belém de há dois mil anos, mas é o que acontece cada dia em todos os lugares do mundo quando nasce um ser humano, como compreendeu, com a intuição que é própria dos grandes artistas, a poetisa polaca Wisława Szymborska: «o mundo nunca está pronto para o nascimento de uma criança».

Andrea Monda

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26 de Junho de 2019

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