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Profecia da vida contemplativa

· A homilia do arcebispo de Canterbury ·

Publicamos o texto da homilia pronunciada pelo arcebispo de Carterbury e primaz da Comunhão anglicana, Rowan Williams, durante as primeiras vésperas do III domingo de Quaresma presididos por Bento XVI no final da tarde de sábado, 10 de Março, na Igreja dos Santos André e Gregório no Monte Celio, por ocasião do milenário da fundação da casa generalícia dos camaldulenses.

Santidade queridos irmão e irmãs em Cristo

É uma honra encontrar-me aqui, no lugar onde estiveram os meus predecessores em 1989 e 1996, e oferecer mais uma vez, como fizemos recentemente em Westminster (e em Assis), o sacrifício de louvor que devemos ao Senhor em cujo nome fomos baptizados; o único Senhor que, mediante o seu Espírito, torna reconhecível em cada membro do seu Corpo sacramental a imagem e a vida abundante de Cristo, Seu Filho, através das tentações e das lutas da nossa vocação baptismal.

São Gregório Magno falou muito sobre as lutas e as tentações de quantos são chamados a desempenhar um ministério na Igreja de Deus. Ser chamados a este serviço significa ser chamados a diversos tipos de sofrimento: o tormento da compaixão, como ele o chama ( Morali a 30.25.74), a consciência quotidiana das necessidades humanas urgentes, quer físicas quer espirituais, e o tormento dos elogios recebidos, da adulação e do status social ( ib . 26.34.62). Este último é um suplício, pois quantos são chamados a este ministério conhecem muito bem a própria fragilidade e instabilidade interior. Mas esta consciência é salvífica, aliás ajuda-nos a servir de maneira eficaz os necessitados e recorda-nos que podemos encontrar estabilidade, soliditas , só na vida do Corpo de Cristo, não nas nossas realizações ( Homilias sobre Ezechiel 2,5,22).

Trata-se de intuições profundamente enraizadas na formação monástica de são Gregório. A humildade é a chave de cada ministério fiel, uma humildade que procura estar mergulhada constantemente, introduzida na vida do Corpo de Cristo, sem procurar o heroísmo ou a santidade individuais. Esta é a humildade que o autor da primeira parte da vida de são Gregório, escrita na Inglaterra no início do século VIII, coloca no topo da lista das suas virtudes de santo, associando-a ao dom «profético», que lhe permitia conhecer as necessidades do povo inglês e satisfazerê-las enviando santo Agostinho, a partir deste lugar, em missão. Esta comparação da humildade com a profecia, na realidade, é feita também pelo próprio são Gregório nos Diálogos . O verdadeiro pastor e a verdadeira guia na Igreja é aquele que, sendo arrebatado no acto eterno de sacrifício de Jesus Cristo através dos mistérios sacramentais da Igreja, é livre de reconhecer as necessidades dos outros por aquilo que realmente são. Este pode causar aflição, porque estas necessidades correm o risco de ser profundas e trágicas; mas isto impele-nos também a agir a fim de orientar estas carências em nome e com a força de Cristo.

Consiste nisto o cerne da visão monástica de são Gregório, a visão que os irmãos e as irmãs de Camaldoli — cujo milénio celebramos aqui hoje com alegria sincera — procuram ainda viver. Estar imersos na vida sacramental do Corpo de Cristo exige a imersão quotidiana da contemplação; sem ela não é possível ver-nos claramente uns aos outros; sem ela não poderíamos reconhecer-nos e amar-nos verdadeiramente, nem crescer juntos no seu Corpo único, santo, católico e apostólico. Na vida monástica o equilíbrio entre solidão, por um lado, e trabalho e oração em comum, por outro — um equilíbrio particularmente desenvolvido na vida de Camaldoli — é algo que procura tornar possível uma visão clara ou, podemos afirmar, até profética do próximo. Considerá-los, como sugere a tradição cristã do Oriente representada pelo monge Evágrio, à luz da sua essência espiritual autêntica, e não porque relacionados com as nossas paixões ou preferências. O esforço inseparável de acção e contemplação, de solidão e de vida comunitária, diz respeito à constante purificação da consciência que temos uns dos outros à luz do Deus, que encontramos no silêncio e no esquecimento de nós mesmos.

Santidade, queridos irmãos e irmãs, seria errado sugerir que nós entramos em contemplação a fim de nos vermos uns aos outros mais claramente; todavia, se alguém quisesse afirmar que a contemplação na Igreja é supérflua, imaterial para a saúde do Corpo, deveríamos responder que sem ela teríamos que enfrentar constantemente as sombras e as aparências, mas não a realidade do mundo em que vivemos. A Igreja, muitas vezes, é chamada a demonstrar o mesmo espírito profético atribuído a são Gregório, a capacidade de reconhecer onde está a verdadeira necessidade e de responder à chamada de Deus que se manifesta na pessoa do necessitado. A fim de realizar tudo isto, é necessário um habitus de discernimento, a capacidade de ultrapassar os preconceitos e os estereótipos que atingem também os crentes, no âmbito de uma cultura tão frenética e superficial em muitos dos seus juízos. E o habitus do discernimento pertence ao habitus de nos reconhecermos reciprocamente como agentes da graça, da compaixão e da redenção de Cristo.

Um habitus deste tipo só se desenvolverá se formos capazes de aprender quotidianamente a disciplina do silêncio e da paciência, esperando que a verdade se nos manifesta, e nós lentamente deixemos de lado as deturpações da nossa visão, provocadas pelo egoísmo e pela avidez. Nos últimos anos, assistimos ao desenvolvimento de um sistema de irrealidade extremamente artificial, criado e apoiado pela avidez; um conjunto de comportamentos económicos nos quais as necessidades dos seres humanos reais parecem quase inteiramente ocultados. Acostumamo-nos a uma cultura febril da publicidade, na qual somos induzidos a desenvolver desejos irreais e desproporcionados. Todos nós — cristãos e inclusive os pastores — precisamos de uma disciplina, capaz de purificar a nossa visão e de nos devolver um sentido da verdade sobre o nosso mundo, mesmo se pode provocar a «aflição» de saber mais claramente quanto as pessoas sofrem e quanto pouco podemos fazer por elas graças só aos nossos esforços.

Santidade, em 1989, aqui em Roma, os nossos predecessores de veneranda memória, o Papa João Paulo II e o arcebispo Robert Runcie, definiram «certa mas imperfeita» a comunhão que as nossas duas Igrejas compartilham. «Certa», devido à visão eclesial comum com as quais as nossas comunidades estão ambas comprometidas, compartilhando a convicção de que a Igreja seja por carácter ao mesmo tempo una e particular: a perspectiva da restauração da comunhão sacramental plena, de uma vida eucarística que seja inteiramente visível, e por conseguinte de um testemunho que seja totalmente credível, de modo que o mundo confundido e atormentado possa entrar na luz acolhedora e transfigurante de Cristo. Todavia, «imperfeita», por causa do limite da nossa visão, e do deficit na profundidade da nossa esperança e paciência. O nosso reconhecimento do único Corpo na vida corporativa uns dos outros é instável e incompleto; e sem este reconhecimento definitivo nós ainda não estamos plenamente livres para compartilhar o poder transformador do Evangelho na Igreja e no mundo.

«A verdade libertar-nos-á», afirma Nosso Senhor. Na disciplina da contemplação e do sossego, chegamos mais próximos da verdade, e também mais próximos da cruz do Senhor. Conhecemos as nossas fragilidades e algo do mistério de como Deus se relaciona com elas — sem as ignorar nem rejeitar, mas abraçando as suas consequências na encarnação e na paixão de Cristo. O seu auto-esvaziamento requer que nos neguemos a nós mesmos — um tema adequado para este tempo de Quaresma. Aprendemos a pôr de lado as nossas agendas cheias e auto-referenciais, e a permitir que Cristo, que se doa a si mesmo, viva em nós, abra os nossos olhos e nos torne capazes de servir. Hoje, ao dar graças pelo milénio de testemunho monástico, celebramos os dons da visão verdadeira e clara que se tornaram possíveis graças a este testemunho. E rezemos por todos os que são chamados a exercer um ministério público na Igreja de Cristo, a fim de que lhe seja concedida a graça da disciplina contemplativa e da clarividência profética nos seus testemunhos, de modo que a glória da cruz de Cristo resplandeça no nosso mundo inclusive nas nossas fragilidades e falências.

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23 de Setembro de 2019

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