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A primeira revolução de Jesus

· ​Espiritualidade ·

«Enquanto Jesus dizia estas coisas (depois de ter expulso um demónio que era mudo) uma mulher da multidão exclamou: “Feliz é a mulher que te deu à luz e te amamentou!”. Ele respondeu: “Antes, felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e lhe obedecem”» (Lucas 11, 27-28).

Uma promessa indispensável: quanto se segue não é um texto exegético nem teológico, é uma reflexão.

Paul Gauguin «Cristo verde» (1889)

Este encontro e troca de palavras entre uma mulher e Jesus é uma novidade absoluta. Juntamente com outros textos, espalhados aqui e ali nos evangelhos, que procurarei recordar, pode-nos abrir os olhos sobre aquela que é a maior e a primeira revolução realizada por Jesus, ou seja, o reconhecimento da dignidade e igualdade antropológica das mulheres.

Jesus excluiu das sagradas Escrituras de Israel unicamente aquilo que tinha poder de exclusão, e nada mais. «Quero misericórdia em vez de sacrifícios»: com esta extraordinária palavra de Oseias, é o próprio Deus que dá ao seu povo a chave para interpretar toda a Escritura. E esta é a interpretação que Jesus faz sua, e por conseguinte é para nós totalmente vinculante. Jesus não reconhece no seu Deus vontade alguma de exclusão: nem de doentes, nem de cegos, nem de pecadores públicos, nem de mulheres, nem de estrangeiros – e por conseguinte, nem de pagãos. O Evangelho é deveras Boa Nova para os pobres, e ainda mais para as pobres.

Um maravilhoso encontro. Mas parece que ainda não tivemos ouvidos para o ouvir, e para compreender para qual liberdade o Senhor Jesus nos chama, nem como, para nós discípulas, é deveras o libertador, assim como o é sempre o Deus de Israel, que se deu a conhecer ao seu povo libertando-o da casa de escravidão. Um Deus que chama sempre os oprimidos à liberdade. Que nos instrui com palavras de liberdade e de amor. Porque sabe que o amor é sempre uma decisão de liberdade.

Uma mulher entre a multidão, fascinada pela autoridade de Jesus, pelo seu poder sobre os demónios e pela sua sabedoria, manifesta com entusiasmo a sua alegria e o seu reconhecimento a ele da única forma ensinada à imaginação de uma mulher: «Feliz é a mulher que te deu à luz e te amamentou!», sem conseguir imaginar outra relação possível de bem-aventurança com aquele homem de Deus a não ser a materna.

E Jesus mostra-se extraordinário ao dizer-lhe: Não! Não tens necessidade alguma de ser mãe, minha mãe, para seres bem-aventurada. É suficiente ouvir a palavra de Deus que eu transmito e que vivo. Ouvir a palavra de Deus e obedecer-lhe, pô-la em prática, vivê-la: eis a bem-aventurança de uma mulher. Precisamente como para um homem. Para discípulos e discípulas, a bem-aventurança é a mesma: «Antes, felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e lhe obedecem». Jamais alguém, a não ser Jesus, falou assim a uma mulher!

Já no Episódio da Visitação – aquela narração simbólica cheia de ecos da Escritura e de antecipações evangélicas – Maria, a mãe de Jesus, é declarada bem-aventurada por ter ouvido e acreditado na palavra do Senhor, e não por se ter tornado a sua Mãe. A maternidade é o fruto e a eloquência da sua escuta cheia de fé da palavra e do Espírito do Senhor. Mas a bem-aventurança vem-lhe da palavra ouvida e acreditada totalmente: corpo, espírito e alma.

Há um texto, Marcos 3, 34-35, muito importante, que confirma e comenta este nosso texto: é o episódio no qual a mãe de Jesus e os seus irmãos o vão visitar quando ele está a pregar, circundado por discípulos e discípulas, e pela multidão. Dado que não conseguem aproximar-se dele mandam dizer-lhe: «A tua mãe e os teus irmãos estão aqui fora e querem ver-te». E Jesus, olhando para quantos estavam à sua volta, responde: «Eis a minha mãe e os meus irmãos! Todo aquele que cumpre a vontade de Deus (enquanto que em Lucas se lê: «Aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática»), esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe». O primado é a escuta da palavra do Senhor, lugar de bem-aventurança e de relação com Jesus. A maternidade é uma grande eloquência, ao mesmo tempo extraordinária e ordinária, de uma discípula, não a primeira e única felicidade, não o destino obrigatório.

Somente Jesus diz isto. Depois dele, muito depressa, é esquecido e veremos que não será esquecido apenas isto. Nos outros escritos do Novo Testamento há infelizmente vários exemplos. Assim em 1 Timóteo lê-se: «Entretanto, a mulher será salva dando à luz filhos — se permanecerem na fé, no amor e na santidade, com bom senso» (2, 15). E infelizmente não são poucos os trechos das cartas apostólicas que pedem às mulheres crentes aquilo que a mentalidade e a cultura, religiosa e não, em toda a terra conhecida lhes pede, ou seja, antes de tudo silêncio e submissão, e não a subjetividade e a liberdade que Jesus lhes reconheceu.

Seria suficiente refletir sobre a impressão que ainda hoje suscita Jesus quando, no Evangelho, se dirige à sua mãe chamando-a mulher, e não mãe: parece uma redução humilhante! Um menosprezo dificilmente desculpável em Jesus! Enquanto que para Jesus mulher significa muito mais: não é mãe e mais nada!

Que a maior bem-aventurança evangélica não seja só para os discípulos, mas também para as discípulas é uma novidade extraordinária. Jesus fá-las sair dos tabus de impuridade religiosa, e não somente religiosa, que confinam e excluem as mulheres. É um verdadeiro êxodo para nós. Jesus remonta à vontade criadora de Deus segundo a narração do Génesis 1, e não de Génesis 2: ou seja, remonta à igualdade antropológica de homem e mulher, e não à narração da criação de Eva tirada do lado de Adão, que está em evidente contraste com 1 Timóteo 2, 11-15 e com outros textos bíblicos do Novo Testamento. Com efeito Jesus citará a narração da criação de homem e mulher de Génesis 1 em Marcos 10, 6-8, quando explicará porque é uma injustiça aquilo que, ao contrário, era considerado totalmente normal por parte dos homens, também dos discípulos, ou seja, a possibilidade do repúdio unilateral das mulheres por parte dos homens. E o Evangelho, na narração paralela de Mateus sobre a proibição do repúdio, registou o espanto dos discípulos face a esta novidade de Jesus, os quais, assombrados, lhe dizem: «Mas se é esta a condição do homem em relação à mulher, não convém casar-se!» dando por certo que é natural e justo que seja conveniente só para os homens.

Também o episódio de Marta e Maria, em Lucas 10, 38-42, confirma esta novidade introduzida por Jesus. Também aqui o mais importante, a parte boa ou melhor para uma mulher amiga de Jesus consiste na primazia atribuída à escuta da sua palavra. Segundo a narração, dado que não é descrita a vocação de Maria, temos quase a impressão de que é ela quem precede Jesus colocando-se na atitude tradicional do discípulo, ou seja, sentada aos pés do mestre. E que Jesus, ao ver Maria naquela postura de escuta e reconhecendo nela a justiça, imediatamente ajude Marta, que ao contrário é radicalmente contrastada, a compreender e a aprender da irmã a dar também ela a primazia à escuta da palavra do Senhor. Tudo o resto, acolhimento e serviço, como a generosa hospitalidade que Marta dedicava a Jesus, devem ser uma sua consequência mas nunca a devem dominar. Jesus liberta-nos também da prioridade do cuidado da casa e do ambiente familiar, afirmando com vigor e sem ambiguidades que a parte melhor é a de Maria. A esta narração quase se poderia chamar a vocação de Marta.

Johannes Vermeer «Cristo em casa de Marta e Maria» (1656 aprox.);

Este preciosíssimo texto de Lucas 11, 27-28 deve ser posto em paralelo com os outros textos nos quais Jesus relativiza a instituição familiar. Como já vimos em Marcos 3, 34-35, a família de Jesus, na sua vida adulta, não tem para ele qualquer peso, autoridade ou vínculo. E Jesus não escolhe nem sequer uma nova família. Ele escolhe para si – ou seja, reconhece como vocação – outro modo de viver, totalmente não usual na sua tradição religiosa. Escolhe a vida comum, fraterna, itinerante, com discípulos e discípulas. Inventa a comunidade. Jesus subtraiu-se completamente a usos, costumes e frequentações familiares, como já tinha feito o seu amigo e mestre João Batista, mas com duas diferenças imediatamente visíveis: Jesus não prega no deserto mas nos lugares habitados, para encontrar as pessoas na sua vida ordinária, e escolhe não se vestir de maneira especial.

No seu viver, falar e encontrar, Jesus relativiza a primazia da família. Para ele a família deixa de ser uma instituição única e obrigatória de fidelidade a Deus, o lugar indispensável para a transmissão da fé, da terra e da pertença a Israel, isto é, da eleição de geração em geração. Porque Jesus veio para chamar precisamente quantos estavam excluídos daquela transmissão de salvação através da família e do Templo: começando pelos leprosos, doentes, pecadores públicos, estrangeiros e, em muitos aspetos, pelas mulheres. Deste modo fez com que também todos os excluídos de Israel e do Templo por serem impuros, tivessem acesso à promessa e à palavra de Deus. Também o facto de que, em Marcos 10, 19, Jesus coloque o quarto mandamento – honra teu pai e tua mãe – no último lugar na lista dos mandamentos, contribui para dizer como Jesus reorganiza a primazia da família. Quando Jesus diz que há um só Pai e que todos somos irmãos (e irmãs), inventa a comunidade fraterna, e não uma família alargada.

E agora só uma palavra para dizer que depois da sua morte e ressurreição a novidade introduzida por Jesus chega ao seu ápice. Nos evangelhos, que não narram qualquer vocação dirigida a uma mulher por parte de Jesus – mas sabemos pelas palavras que o anjo dirigiu às mulheres junto do túmulo vazio, em Lucas 24, 6, que elas estiveram sempre com Jesus e com os Doze desde a Galileia; sabemos também que todas tinham sido curadas, diferentemente dos discípulos em Lucas 8, 2 – ao contrário é narrado que Jesus ressuscitado faz uma coisa ainda mais extraordinária: confia a uma mulher, Maria de Magdala, o anúncio pascal e o encargo de o transmitir aos Onze. Ela é a primeira testemunha e evangelista da ressurreição, sobre cuja credibilidade se funda, por vontade de Jesus ressuscitado, o anúncio dos Onze discípulos. Também todas as outras mulheres que tinham ido ao sepulcro recebem do anjo e de Jesus a tarefa de anunciar aos Onze a ressurreição.

Nos evangelhos, os primeiros apóstolos são apóstolas!

Maria Dell'Orto
Irmã de Bose

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20 de Novembro de 2019

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