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Por causa dos anjos

· Por que deveriam as mulheres cobrir a cabeça na igreja ·

Talvez para responder ao comportamento livre demais dos fiéis durante as assembleias, Paulo endereça à jovem e animada comunidade de Corinto a célebre exortação (1 Coríntios 11, 1-16) para não abandonarem os seus ensinos: «Conservai as tradições conforme eu vo-las transmiti». Quando o cânone das Escrituras devia ainda formar-se, as primeiras normas cristãs, em matéria de fé, de liturgia e de disciplina, são de facto confiadas à “tradição”, seguida, após Nicea, pelas formulações conciliares. Em seguida, na carta, o apóstolo recorda alguns pontos essenciais da teologia dos casais: a a questão do véu feminino começa aqui.

Na origem há portanto um problema de disciplina, como confirma o final do trecho: «Mas, se alguém quiser contestar, nós não temos esse costume, nem tão-pouco as igrejas de Deus». Paulo tenta de colocar na ordem uma comunidade heterogénea e complicada como a de Corinto, em situações de tensão e de inobservância que dão conta das suas severas instruções, com as quais parece que queira colocar a mulher numa posição subordinada em relação ao homem na base de uma dúplice hierarquia, de tipo cronológico («Não o homem deriva da mulher, mas a mulher do homem») e ontológico («Não o homem foi tirado da mulher, mas a mulher do homem»). E «por isso, a mulher deve trazer sobre a cabeça um sinal de autoridade, por causa dos anjos», ou seja o véu.

A base teológica do enunciado é muito mais complexa, envolve a prática da profecia e não está isenta de heranças de pureza ritual e religiosa, que convergiram nos costumes das primeiras comunidades cristãs. Paulo, por outro lado, é um homem da tradição judia, educado nas escolas rabínicas, apesar de ter nascido em um ambiente grego.

Mas aqui interessa-nos a resposta exegética de alguns padres da Igreja, que insistiram na tecla da subordinação feminina, conforme à antiga sociedade greco-judaica. O enunciado não simples «por causa dos anjos» é explicado pelos mais intransigentes com o receio de despertar as bramas sexuais dos anjos que teriam decaído por se terem apaixonado pelas mulheres, como narra o Génesis 6,4 depois desenvolvido em alguns textos apócrifos. Uma ulterior culpa a ser imputada à responsabilidade da queda do homem, «imagem e glória de Deus» ao contrário da mulher só «glória do homem» (1 Coríntios 11, 7).

O véu da mulher, nas palavras dos padres da Igreja, torna-se assim o «fardo da sua constitucional submissão» ou o seu «jugo» ou o «símbolo da sujeição». As mulheres cristãs portanto «deveriam cobrir não só a cabeça mas todo o rosto», imitando «aquelas da Arábia» que vêm apenas com um olho só através do véu.

Na antiguidade nem todas as Igrejas seguem a mesma tradição, portanto surge o problema de seguir os costumes mais adequados às normas ensinadas por Deus. Para a solução da questão do véu, Tertuliano apela-se à autoridade das Igrejas orientais: os coríntios, depois da contestação, acolheram e transmitiram o ensino de Paulo, portanto as outras Igrejas devem adequar-se à norma litúrgica paulina. Bem depressa se impões o opúsculo catequético de Tertuliano O véu das virgens que, ainda que com influências do montanismo, torna-se um manual de referência para as futuras instituições monásticas femininas, ainda que estabeleça, apesar do título, o uso do véu durante a oração não só para as virgens, mas para todas as mulheres, incluídas as conjugadas («mulheres de uma pudicícia de segunda ordem»).

A exigência de atribuir à norma a autoridade da Igreja institucional aparece no tardio Liber pontificalis, no qual se atribui ao Papa Lino, sob ordem de são Pedro seu predecessor, a confirmação da obrigação, para as mulheres, de participarem na celebração eucarística com a cabeça coberta.

Está confirmado que o ensino de são Paulo, que passou o crivo da tradição, é reformulado no concílio de Gangra (por volta de 324), onde o véu é definido «memorial da submissão», e chega com um traço atenuado ao Codex iuris canonici de 1917 que ainda distingue entre os homens de cabeça descoberta e as mulheres com o véu e com roupas modestas.

Depois da reforma conciliar não há indicações específicas. O costume, no respeito da tradição, parece que tenha sido superado na Gaudium et spes («A Igreja não está ligada de modo exclusivo e indissolúvel […] a nenhum uso antigo ou recente»), que entre as formas de discriminação condena em primeiro lugar aquelas «em razão do sexo», reconhecendo que os direitos fundamentais da pessoa «ainda não são, em todos os lugares, plenamente garantidos (…) quando se nega à mulher a faculdade de escolher livremente o marido e de abraçar um determinado estado de vida, ou de aceder a uma educação e a uma cultura igual à que se admitem os homens». Não há mais espaço para aquele sinal de submissão, demasiado mal entendido ou instrumentalizado, no seu significado originário.

Ao domingo, quando era criança, se esquecia o véu em casa, por receio não ousava entrar na igreja e perdia a missa, acrescentado pecado ao pecado. Hoje meteria aquele véu, por respeito.

Sandra Isetta

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17 de Novembro de 2019

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