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Poder e fecundidade da humildade

· A encíclica não escrita de Bento XVI ·

Apresentamos um artigo publicado em «Le Figaro Magazine» de 15 de Fevereiro com o título L'encyclique non écrite de Benoît XVI.

Bento XVI não publicará a encíclica sobre a fé – embora em fase avançada – que devia apresentar na Primavera.  Ele já não tem tempo. E nenhum sucessor é obrigado a retomar uma encíclica incompleta do próprio predecessor. Mas existe outra encíclica de Bento XVI, escondida no seu coração, uma encíclica não escrita.  Aliás, escrita não pela sua caneta, mas pelo gesto do seu pontificado. Esta encíclica não é um texto, mas uma realidade: a humildade.

A 19 de Abril de 2005 um homem que pertence à raça das águias intelectuais, temido pelos seus adversários, admirado pelos seus estudantes, respeitado por todos  devido à nitidez das suas análises sobre a Igreja e o mundo, apresenta-se, recém-eleito Papa, como um cordeiro levado para o sacrifício. Utilizará até a terrível palavra «guilhotina» para descrever o sentimento que o invadiu no momento em que os seus irmãos cardeais, na capela Sistina, ainda fechada para o mundo, se viraram só para ele, eleito entre todos, para o aclamar. Nas imagens da época, a sua figura curvada e o seu rosto surpreendido testemunham-no.

Depois, teve que aprender a profissão de Papa. Extirpou, como raízes sedimentadas sob o húmus da terra, o eterno tímido, lúcido na mente mas desajeitado no corpo, para o projectar perante o mundo. Foi um choque para ambas as partes. Não conseguia assumir a desenvoltura do saudoso João Paulo II. O mundo não compreendia bem aquele Papa sem efeito. Bento XVI nem teve os cem dias de «estado de graça» que se atribuem aos presidentes profanos. Sem dúvida, teve a graça divina, fina mas pouco mundana. Contudo teve, ainda e sempre, a humildade de aprender sob os olhares de todos.

Enfim, houve sete anos terríveis de pontificado. Nunca um Papa teve, num certo sentido, tão pouco «sucesso». Passou de uma polémica para outra:  crise com o islão depois do seu discurso de Regensburg onde evocou a violência religiosa; deformação das suas palavras sobre a Sida durante a sua primeira viagem à África, que suscitou um protesto mundial; vergonha sofrida pelo explodir da questão dos sacerdotes pedófilos, por ele enfrentada; o caso Williamson, onde o seu gesto de generosidade em relação aos quatro bispos ordenados por D. Lefebvre (o Papa revogou as excomunhões) transformou-se numa reprovação mundial contra Bento XVI, porque não tinha sido informado sobre os discursos negacionistas  do Shoah feitos por um deles; incompreensões e dificuldades de pôr em acção o seu desejo de transparência relativa às finanças do Vaticano; traição de uma parte do seu entourage no caso Vatileaks, com o seu mordomo que subtraiu cartas confidenciais para as publicar...

Não teve nem sequer um ano de trégua. Nada lhe foi poupado. Às provações físicas violentas do pontificado de João Paulo II, ao atentado e  ao mal de Parkinson, parecem corresponder as provações morais de rara violência desta litania de contradições sofrida por Bento XVI.

Portanto, ao renunciar, o Papa eclipsa-se. Como a própria imagem do seu pontificado. Mas só Deus conhece o poder e a fecundidade da humildade.

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7 de Dezembro de 2019

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