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Pio XII defendido pelos arquivos

· Sobre um artigo publicado em «la Repubblica» ·

À iniciativa oportuna da fundação americana pave the Way, de inserir na rede as mais de oito mil páginas dos doze volumes dos Actes et documents du Saint-Siège relatifs à la seconde guerre mondiale, publicados de 1965 a 1981, «la Repubblica» do passado dia 7 de Março dedicou uma reportagem ampla e exacta, de Marco Ansaldo, intitulado Pio XII, a palavra à defesa. A grande colectânea de documentos, desejada por Paulo VI e preparada por quatro historiadores jesuítas (o francês Pierre Blet, o estadudinense Robert Graham, o italiano Angelo Martini e o alemão Burkhart Schneider), foi publicada – no que se refere ao Papa Pacelli – muito antes da abertura dos arquivos do Vaticano, para a qual já se está a trabalhar há muito tempo. Todavia, embora seja conhecida pelos especialistas, a obra «quase não se encontra, excepto em raras bibliotecas», a ponto de ser – observa com razão o vaticanista do diário romano – um conjunto de «papéis desconhecidos», cujo conteúdo é «quase ignorado». Precisamente por este motivo, Gary Krupp, o judeu americano que preside à Pave the Way Foundation, com a intenção de «eliminar os obstáculos entre as religiões», decidiu tornar acessíveis na rede os documentos do Vaticano, com os textos originais e a tradução em inglês.

De modo particular, é evidente a vontade de pôr fim às polémicas infundadas e instrumentais sobre Pio XII, que periodicamente correm o risco de perturbar as relações entre judeus e católicos. Além de reproduzir documentos que confirmam a imponente e silenciosa obra de ajuda disposta pelo Papa Pacelli a favor dos judeus perseguidos, Ansaldo chama a atenção para o resumo vaticano do diálogo que teve lugar no dia 16 de Outubro de 1943, entre o Secretário de Estado, Luigi Maglione, e o Embaixador do Reich junto da Santa Sé, Ernst von Weizsäcker, imediatamente após o horrendo massacre perpetrado no gueto de Roma. E realça o «silêncio» mantido a este propósito pelo diplomata alemão nos seus relatórios enviados a Berlim, que não raro é aduzido como prova de uma presumível aquiescência do Vaticano. Além dos documentos do Vaticano, o artigo contém um trecho do diário inédito de Padre Graham sobre o nono volume dos Actes et documents, relativo a 1943, que mostra a integridade da colectânea desejada por Paulo VI: «Schneider diz que devo preparar a introdução, e que ela deverá ser muito boa, por causa da natureza da documentação, naturalmente sobre a questão judaica, e dos socorros em Roma. Eu disse que existe toda a documentação das cartas enviadas ao Papa depois do dia 16 de Outubro (nenhuma das quais indicava o conhecimento daquilo que se estava a preparar). Além disso, a lista completa de apelos a favor dos irmãos aprisionados no Outono de 1943». Escrevendo de arquivos o próprio Ansaldo, enviado a Berlim, tinha antecipado – numa importante reportagem publicada em «la Reppublica» de 29 de Março de 2007 e intitulada na primeira página Os dossiers secretos de Hitler que reabilitam Pio XII – que alguns documentos inéditos do Terceiro Reich descrevem Pio XII favorável aos alemães, mas decerto não amigo dos nazistas, aliás muito activo na ajuda e no socorro a polacos e judeus e à espera de «uma mudança da situação na Alemanha». Em síntese, um Papa para o qual o regime hitleriano olhava «com desconfiança e até com preocupação» e cuja figura é evidenciada pelos documentos nazistas, então publicados, como «claramente diferente» em relação aos estereótipos difundidos: ou seja, de «um hábil e temido adversário» do nazismo, «totalmente o contrário do retrato de um Pacelli temoroso e indeciso». E não é por acaso que aqueles documentos, que caíram nas mãos da Stasi, o serviço secreto da Alemanha Oriental, não foram publicados, porque entravam em contraste com a imagem do Papa cúmplice do nazismo, construída pela propaganda soviética já durante a guerra e depois retomada com força a partir de meados dos anos 60.

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23 de Outubro de 2019

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