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A partir de um estábulo australiano

Celebra-se no dia 8 de agosto a festa de Maria MacKillop, a primeira santa australiana, que nasceu em Melbourne no ano de 1842. Assim como no caso de outras santas do século XIX, a história de Maria é uma antiga narração de escuta da voz de Deus e, ao mesmo tempo, uma história de emancipação. Primogénita de oito filhos, a menina cresceu numa família com uma fé sólida — os pais eram católicos escoceses imigrantes — mas dotada de escassos recursos financeiros, dois aspetos que a marcaram profundamente: com efeito, se desde a infância Maria decidiu consagrar a sua vida a Deus no serviço aos pobres, muito precocemente começou a trabalhar para levar o pão para casa. Não obstante a insuficiência de tempo e embora não dispusesse de possibilidade alguma, Maria tornou-se uma jovem muito educada, graças à influência do seu pai, que tinha estudado em Roma na esperança de ser sacerdote.

Sucessivamente, quando tinha dezoito anos, a jovem partiu como professora particular, com destino ao povoado campestre de Penola, na Austrália meridional. Ali, as condições existenciais eram assustadoramente árduas, de modo especial para a população aborígene, no meio da pobreza generalizada, discriminações religiosas, desemprego extremamente elevado e dificuldades de integração. Foi decisivo o encontro com padre Woods, sacerdote católico muito preocupado com a falta de educação do seu rebanho, disseminado numa vasta área rural. Com efeito, foi ele quem norteou a vocação religiosa de Maria para uma nova congregação de freiras, as irmãs de São José do Sagrado Coração, chamadas Josefinas, onde a jovem entrou com vinte e quatro anos de idade. Corria o ano de 1866. E precisamente naquele ano as religiosas abriram a sua primeira escola em Penola, num estábulo.

No ano seguinte, juntamente com algumas companheiras, Maria transferiu-se para a capital, Adelaide, onde se realizou a iniciativa mais importante da Igreja católica australiana durante o século XIX: com a aprovação da parte do bispo, muitas pessoas uniram-se às religiosas na escolha de viver na genuína pobreza evangélica em benefício dos mais necessitados. Entre outras iniciativas tomadas, incluíam-se programas de educação elementar a favor das crianças que, diversamente, ficariam desprovidas do ensino escolar, e a abertura de estruturas de hospitalidade destinadas aos pobres, órfãos e prostitutas.

A nova congregação propagou-se noutras regiões isoladas do continente, chegando até à Nova Zelândia, mas a sua vida não foi desprovida de dificuldades. As disputas sobre a gestão interna impeliram o bispo a excomungar Maria: um gesto nulo, assim como totalmente injustificado, que causou uma grande agitação religiosa e civil. No entanto, Maria suportou tudo com caridade e paciência, persuadida de que do mal Deus teria tirado o bem.

Anulada a excomunhão, à irmã Maria foi sugerido que fosse a Roma com a finalidade de pedir a aprovação pontifícia para a congregação. Durante a sua estadia na Europa, recolheu informações e recebeu conselhos sobre a vida religiosa, visitou escolas e outras instituições em ordem a receber sugestões úteis para desempenhar da melhor maneira o seu trabalho na Austrália. Não obteve a aprovação definitiva para a sua congregação (a qual só chegou em 1888), mas recebeu grandes encorajamentos — especialmente durante os vários diálogos que teve com Pio Pio IX — e, principalmente, voltou para a Austrália com instruções e ideias claras sobre o modo de gerir os assuntos das Josefinas.

Um aspeto importante das Constituições foi a previsão de um governo central que conferia à superiora-geral o controle sobre a vida de trabalho das religiosas, aspeto este que provocou tensões com alguns bispos. Enfrentando tais problemas como madre-geral, Maria deu prova de obediência e, ao mesmo tempo, de caridade, perdão, coragem e inteligência extraordinária.

Viajou continuamente entre a Austrália e a Nova Zelândia, organizando o trabalho e animando as religiosas na fé, na perseverança e na caridade: as centenas de missivas que foram conservadas até aos dias de hoje demonstram a solicitude pessoal de Maria por cada uma das irmãs e por todas as pessoas com as quais manteve contactos, e pelas quais se interessava de coração. Assinava o seu nome como «Maria da Cruz», epíteto significativo, considerando as numerosas provações que teve de enfrentar, entre as quais inclusive um péssimo estado de saúde.

Mulher de oração, descrevia-se como uma religiosa contemplativa por natureza, que Deus tinha chamado à ação permanente: procurava fazer a vontade do Pai constantemente: «Para mim — chegou a escrever — a vontade de Deus é um livro precioso que jamais me canso de ler e que tem uma fascinação sempre nova para mim».

A seguir ao acidente vascular cerebral que a atingiu em 1902, quando se encontrava na Nova Zelândia, durante sete anos a sua saúde passou por um contínuo e intenso agravamento, mas o seu espírito nunca vacilou. Fonte constante de inspiração para muitas pessoas, quando Maria MacKillop faleceu, em agosto de 1909 em Sidney, houve testemunhos sem precedentes da convicção, insólita para os australianos, de que naquele país tinha vivido uma santa.

Foi beatificada no ano de 1995, em Sidney, pelo Papa João Paulo II que, falando sobre ela, disse: «Com o amor a Deus que inflamava o seu coração, defendeu com tenacidade os pobres, os mais frágeis, os sofredores». Palavras às quais, em 2008, fizeram eco as expressões de Bento XVI que, citando a própria Maria, recordou: «Crê naquilo que Deus sussurra ao teu coração (...). Acredita no poder do Espírito do amor!». Dois anos mais tarde, em 2010, durante a celebração de canonização em Roma, o Papa Ratzinger proclamou-a santa para a Igreja universal.

Maria obedeceu perfeitamente ao último mandamento de Jesus: «Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente, e amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado». Trata-se de um sinal de esperança que convida as pessoas a entrarem no coração de um Deus misericordioso.

O túmulo de santa Maria da Cruz, em North Sydney, é desde há tempo meta de peregrinação e continua a ser visitado por milhares de peregrinos que pedem a sua intercessão. Três Pontífices já se ajoelharam em oração diante da sua sepultura: Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

Maria Casey

Maria Casey nasceu na Irlanda, é uma religiosa da congregação de São José do Sagrado Coração e vive em Sidney. Obteve a licenciatura em letras e em ciências, além de um doutoramento em direito canónico (Universidade de Saint Paul) e de um doutoramento com título académico em direito canónico (Universidade de Ottawa). Trabalhou durante muitos anos no campo da educação secundária, quer como professora quer como diretora, e por seis anos foi superiora provincial da sua congregação na Austrália ocidental. Atualmente é presidente da Sociedade de direito canónico da Austrália e da Nova Zelândia, vigária para a vida consagrada na arquidiocese de Sidney e consultora canónica para os institutos de vida consagrada. Depois de ter sido nomeada vice-postuladora (2001), em 2008 tornou-se postuladora da causa de canonização de Maria da Cruz MacKillop, primeira santa australiana.

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19 de Outubro de 2019

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