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Partir conhecendo o risco

· ​Focus ·

«O segredo é concentrar-se no tambor. É ele que dá o ritmo. Tens que contar até quatro: três passos e, depois, uma pausa». Ada aprendeu, ao mesmo tempo, a caminhar e a dançar salsa. Mérito da sua mãe, dançarina experiente. Foi ela quem lhe revelou o «truque» do tambor. E foi sempre ela quem lho lembrou, na soleira da porta de casa. «Esvazia a mente. Um, dois, três, vai em frente. Ao chegar ao quarto passo, para por um segundo e continua. Assim parecer-te-á menos extenuante. E afastarás os maus pensamentos». Não lhe explicou o que queria dizer. Não era necessário. Ambas sabiam, como todas as outras mulheres de Quetzaltepeque, pequeno município a cerca de vinte quilómetros de San Salvador. Todos tinham um familiar, uma vizinha, uma amiga que partira para o norte. A maioria tinha sido enviada de volta sem nem sequer chegar à fronteira. Algumas nunca mais regressaram, por isso – diziam – deveriam ter conseguido. No entanto, quem voltava confidenciava-o a outro alguém. E a voz já se tinha espalhado. Para ir aos Estados Unidos, é necessário atravessar o México. E ali o estupro é quase inevitável. O perigo está em toda a parte: agentes corruptos, assassinos dos poderosos cartéis de drogas, criminosos comuns. De acordo com os estudos do sociólogo da Sorbonne Argan Aragón – confirmados por uma série de pesquisas locais – de seis a oito centro-americanas em cada dez são estupradas durante a viagem. Ada não conhecia esta estatística. Porém, sabia que tinha acontecido com as outras. Mesmo assim partiu.

Diz que o fez pelos seus filhos. Não queria que fossem recrutados pelas maras, as poderosas gangues criminosas que assolam a América Central. Legado das guerras civis e ferozes dos anos oitenta, as gangues transformaram o pequeno El Salvador – que tem uma extensão mais ou menos como a região da Lombardia – no país mais violento do mundo, com 103 assassinatos em cada 100.000 habitantes. Em Honduras e na Guatemala a situação não é muito melhor. Toda a região é uma das fronteiras mais sangrentas – mesmo assim invisíveis – da «guerra mundial em pedaços» sobre a qual o Papa Francisco falou várias vezes. As maras conquistaram o controle de porções inteiras do território, geralmente os subúrbios mais pobres e abandonados. Ali impõem a sua lei cruel: plata ou plomo, prata ou chumbo, dinheiro ou projéteis. Não só. As bandas são ávidas de «carne fresca»: jovens ou crianças-soldado a serem enviados para a frente e baby-namoradas para «recompensar» os soldados mais valentes. Por isso, recrutam em qualquer lugar: em casa, na escola, pelas ruas. Uma proposta feita por eles não pode ser recusada. Só resta a fuga.

A migração da América Central para o El Dorado norte-americano é histórica: todos os anos, 500.000 pessoas fazem a tentativa. Obviamente de forma ilegal: para quem provém daquela parte do mundo obter um visto é uma quimera. Especialistas e ONGs, no entanto, indicam uma mudança no fluxo: se inicialmente era devido sobretudo a razões económicas, agora é a violência a gasolina do êxodo. Dado que esta última se obstina com muita força contra os mais débeis entre os débeis – menores de idade e mulheres – são precisamente eles os primeiros a partir. Mais uma vez, a Border Patrol (autoridade de fronteira dos Estados Unidos) assinalou a situação de emergência dos baby-migrantes não acompanhados na fronteira: de 1 de outubro de 2015 a 30 de setembro de 2016 foram impedidos na fronteira quase 60.000. Ao mesmo tempo, o êxodo está a feminizar-se. Se, há cinco anos, as mulheres eram menos de 15 por cento, agora são pelo menos um quarto do total. A maioria são adolescentes que se recusam a ceder às lisonjas dos líderes das maras ou jovens mães, aflitas para que os filhos cresçam longe das «sirenes» das bandas. Como Ada.

Certa manhã, do ano passado, ela disse que as crianças não teriam ido à escola e levou-as embora. Na mochila colocou uma muda de roupa interior para cada um, bolachas e um cobertor. Um dia antes comprou, sem prescrição médica e no equivalente a três euros, a Depo-Provera. Chamam-na «a injeção anti-México». Um anticoncecional composto por um único hormónio – a medroxiprogesterona – cuja eficácia tem a duração de noventa dias. Mais ou menos o tempo da viagem. E abuso reiterados. Por este motivo, nas farmácias de El Salvador, Guatemala e Honduras, já tem uma grande saída. Com o aumento dos fluxos migratórios, agora vende-se também na África. No entanto, muitas ONGs argumentam que a Depo-Provera causa fortes problemas hormonais e danifica os ossos. «Foi uma amiga que me injetou o medicamento. Todos dizem: “Não deves partir sem fazer isso”. Então, decidi fazê-lo. Enganas-te a ti mesmo pensando que estarás um pouco mais protegida. Mas é apenas uma ilusão. A injeção anti-México pode evitar a gravidez, mas não o vazio que te deixa o estupro».

Sim, o estupro. Ada fala sobre isto com um tom asséptico. A primeira vez quem a estuprou foi um polícia. Ele tinha-a parado num posto de controlo da fronteira perto de Tapachula, em Chiapas, pedindo-lhe que pagasse se não queria ser repatriada. Ada não tinha mais dinheiro. A polícia aproveitou-se do seu corpo, mas, pelo menos – acrescenta – os filhos não viram. A segunda vez, foram os criminosos. «Afirmavam ser Los Zetas, mas na minha opinião era um pequeno grupo de delinquentes qualquer. Raptaram-nas nas proximidades de Tenocique, em Tabasco. Queriam pedir o resgate a um parente nos Estados Unidos. Mas eu não conheço ninguém lá. Então revidaram-se contra mim. Não só me estupraram, mas revenderam-me a outros. Muitos. Durou um mês. Depois, quando capturaram outras meninas, disseram-me: “Já não precisamos de ti, vai-te embora”. Disse-lhes: “Não vos denunciarei, mas deixai-me levar os meus filhos”. Devolveram-mos».

Irene foi agredida pelos seus próprios companheiros de viagem, enquanto atravessavam o depósito de lixo de Chahuites. Eram hondurenhos como ela, de San Pedro Sula. Também Irene fugia das maras: queria ir para os Estados Unidos a fim de trabalhar e poder enviar dinheiro às suas irmãs. Deste modo teriam podido mudar de bairro, longe das gangues.

Para evitar tais «inconvenientes», Asunción, que agora vive nos Estados Unidos como irregular, fez o roteiro como «namorada de viagem». É praticamente uma violência «consensual». As migrantes escolhem um jovem – alguém que pode parecer mais desenvolto e empreendedor que os outros – e oferecem-lhe serviços sexuais durante a travessia. Em troca, ele terá que as proteger. Ou pelo menos tentar. Ao contrário, Pilar, da Guatemala, tentou escapar da «regra do estupro» disfarçando-se de homem. Aos 16 anos, magra e angulosa como é, pensava que poderia enganar os bandidos. Não conseguiu. Uma gangue de narcos capturou-a perto do Istmo de Veracruz, estuprou-a e depois revendeu-a num bordel clandestino em Tamaulipas. Depois de dois anos, foi libertada graças a uma batida policial no local.

«Sabes qual é a pior coisa, depois?», pergunta de repente Irene. «Não são os espancamentos, a dor, o nojo, não. Pensas que aceitaste tudo isto mesmo conhecendo o risco. Contudo, partiste. Não importa que não tinhas outra escolha. Partiste sabendo. Então a voz sufoca-te, conservas tudo dentro e continuas a caminhar. A estrada para o norte ainda é longa».

Lucia Capuzzi

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22 de Outubro de 2019

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