Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

​Paradigma para a Igreja

· A irmã Pereira e o projecto para o Sudão do Sul onde vivem e trabalham juntos religiosas e religiosos de todo o mundo ·

«Deus chamou-a realmente?» pergunta, arregalando os olhos, a sobrinha da irmã Yudith quando a mãe lhe conta a história desta tia que vive em África e que agora, dado que trabalha durante algum tempo também em Roma, a criança e os seus pais vieram visitar na cidade eterna. Provavelmente o nosso olhar deve ter deixado transparecer uma admiração semelhante, ao ouvir o projecto no qual esta religiosa espanhola trabalha desde há já alguns anos num país dilacerado por conflitos e contraposições de uma violência sem igual. Um projecto incomparável na Igreja católica; com efeito, Solidarity with South Sudan representa um paradigma inédito para a vida religiosa: congregações diversas tanto femininas como masculinas; provenientes de todas as partes do mundo, vivem e colaboram juntas para dar a resposta mais eficaz possível às necessidades, enormes e urgentes, deste país africano. Trabalha-se principalmente no âmbito da saúde, da instrução, do desenvolvimento pastoral e da formação agrícola. «Centelhas luminosas de um milagre que se está a verificar», assim as define a irmã Yudith Pereira Rico, formada em engenharia agrónoma («Aplico constantemente aquilo que aprendi na Universidade em Madrid no meu trabalho missionário»).

Religiosa espanhola de Jesus-Maria, Yudith Pereira Rio viveu 17 anos na África ocidental dirigindo projectos educativos, pastorais e de promoção das mulheres na Guiné e nos Camarões. A partir de Janeiro de 2014 é responsável da Secção internacional de Solidarity with South Sudan.

Comecemos pelo Sudão do Sul...

É o país mais jovem do mundo, com menos de três anos de vida. Primeiro fazia parte do Sudão e antes ainda do Egipto. Depois de três longas guerras civis no último século, que culminaram na independência obtida em Dezembro de 2013, a luta pelo poder político e económico desencadeou a primeira guerra civil do novo país, que ainda hoje continua. A paz e a identidade nacional não tiveram tempo para se consolidarem e assim o confronto pelo poder transformou-se numa luta tribal, próxima do genocídio. Falamos do Estado mais frágil do planeta, classificado no nível 3 de emergência, o mais alto; um drama contínuo e silencioso que mais de duzentas agências e Ongs internacionais, entre as quais um grande número de Cáritas de vários países, procuram aliviar. São suficientes alguns dados: a idade média é 16,8 anos e a esperança de vida 55; a mortalidade materna é uma das mais elevadas no mundo: morre durante o parto uma mulher em cada 7; 50 por cento das crianças sofre de grave subalimentação; e se 41,5 por cento frequenta a escola básica, só 2,3 chega ao ensino superior. Os meninos escolarizados são o dobro das meninas; em cada 10 mulheres 8 são analfabetas, e pelo menos 40 por cento delas é vítima de violências domésticas.

Instrução, saúde, guerra: da infância à idade adulta são sempre as mulheres que pagam o preço mais alto?

A violência de que são vítimas as mulheres do Sudão do Sul, como em muitos outros lugares do mundo, é um problema endémico. É uma realidade duplamente presente: não só devido à crescente crise e ao conflito armado, mas também porque é uma característica constante e diária na cultura do país. Trata-se de um problema tão fortemente radicado que tem, teve e continuará a ter consequências devastadoras sobre a saúde, o bem-estar e o futuro de inteiras gerações de mulheres. Contudo, mesmo se neste cenário de guerra querida e mantida pelos homens as mulheres são as vítimas por excelência, elas vão em frente com paciência e com fé, lutando pela sobrevivência. E para fazer sobreviver as suas famílias.

O que faz a Igreja?

Através de leigos, sacerdotes, religiosos e sobretudo religiosas, a Igreja local trabalha dando assistência às vítimas nos campos para os refugiados. Leva a cabo programas destinados a fazer superar os traumas e a favorecer a reconciliação. As histórias são terrificantes, deixam feridas indeléveis: procura-se ajudar as vítimas a superá-las e a conviver com elas de maneira a poder tornar-se por sua vez capazes de curar os outros; até muitos sacerdotes e religiosos têm que participar nestes programas para se restabelecerem. As Igrejas – não só a católica – trabalham directamente com as mulheres, conseguindo fazer-lhes redescobrir a sua própria dignidade, conhecer os seus direitos. Há ainda muitos desafios pastorais, como fazer aceder aos sacramentos mulheres obrigadas a casar-se ou forçadas à poligamia. Mas há esperança: as mulheres que sobreviveram ao conflito, de diversas confissões, estão a reunir-se para apoiar vizinhos e familiares. Presidem a colóquios entre as várias comunidades tribais a fim de promover a cura e a confiança recíproca face à insegurança dominante, como base para construir a paz. É muito importante ouvir as mulheres e reflectir com elas a fim de encontrar juntos uma solução para o conflito armado. A sua presença nos diálogos institucionais de paz levaria a uma diferença qualitativa: não se falaria apenas de política e de poder, mas seriam ressaltados também temas-chave como a educação, a saúde e a justiça, temas sobre os quais normalmente os homens não falam.

É este o contexto no qual trabalha Solidarity with South Sudan?

Solidarity é uma associação de congregações masculinas e femininas – actualmente conta mais de duzentos apoiantes – que respondeu à chamada dos bispos locais, os quais pediram às religiosas e aos religiosos presentes no país para fazerem algo, em particular a nível de hospitais e escolas. É a primeira vez que existe oficialmente um projecto comum, fruto de um acordo formal e substancial por parte da união geral dos superiores e da união geral das superioras. Na Espanha houve alguma forma de colaboração no trabalho a favor dos migrantes, mas não se tratava de um projecto que partia dos chefes. Depois do pedido dos bispos, verificou-se – e durou alguns anos – uma atenta fase preparatória destinada a estudar situações e possibilidades: dado que o êxito foi positivo, o projecto iniciou oficialmente em 2008. O nosso trabalho consiste primariamente em construir centros e escolas de formação para professores, enfermeiros, obstétricas, agentes pastorais e pessoal agrícola. O nosso é um trabalho de empowerment das pessoas, prepará-las para a actividade. Solidarity, que actualmente dispõe de cinco comunidades mistas intercongregacionais as quais servem o povo do Sudão do Sul, foi capaz de imaginar e realizar uma forma profética de vida religiosa para responder às necessidades do país. Estamos juntos! Faço um exemplo simples: aqui, quando partimos para uma viagem, pedimos ao nosso fundador que nos assista; com Solidarity dizemos «que todos os fundadores nos assistam!».

Religiosas e religiosos que vivem, decidem e trabalham juntos: uma boa novidade!

Solidarity não só reúne as forças das diversas congregações colaborando com os bispos na sua missão evangelizadora, mas é também uma comunidade que dá um testemunho real de unidade na diversidade, de inclusão e de igualdade entre homens e mulheres. Um testemunho importante para a Igreja e, sobretudo, para a sociedade dividida e discriminatória do Sudão do Sul. Certamente, em geral nas missões em África há muita colaboração entre as ordens (enquanto que na Europa, âmbito que eu conheço, é muito diferente). E contudo Solidarity dá mais um passo. Africanos, americanos, asiáticos e europeus: homens e mulheres vivem, colaboram e trabalham juntos tanto a nível de governo como nas comunidades. De Roma ocupamo-nos de comunicação, relações com as outras congregações, agências, angariação de fundos, recrutamento; enquanto que toda a parte decisória se faz lá. De facto é um milagre. Trabalhamos juntos, e trabalhamos muito bem juntos! É um modelo, um paradigma de vida religiosa que funciona. Somos deveras complementares. Aquilo que para nós constitui um problema, não o é para os religiosos, e vice-versa: vivendo e trabalhando juntos todos aprendemos, por exemplo, a relativizar. Aprendemos todos os dias. Todos fazem tudo: não há funções masculinas e funções femininas. Também os religiosos cozinham (alguns são cozinheiros excepcionais!), dividimos todo o trabalho doméstico e o cuidado das nossas casas. Obviamente é preciso aprender a viver juntos. Mas estou convicta de que a formação religiosa nisto ajuda muito: ao contrário dos sacerdotes, quando um homem entra numa ordem religiosa, normalmente aprende a cozinhar e a limpar; como religioso, não tens ninguém que te serve, portanto tens que aprender! De resto, penso que o primeiro requisito para poder estar ali é ser felizes com a própria vocação, com aquilo que se está a fazer.

Como foi acolhida pela população local a vossa variedade?

O facto de sermos religiosos e religiosas juntos é deveras uma vantagem de muitas maneiras. Antes de mais porque temos origens diversas, de todo o mundo. Considere que no Sudão do Sul há enormes problemas tribais, por conseguinte paradoxalmente a nossa variedade acaba por ser um valor. Uma variedade presente também a nível de voluntários leigos, homens e mulheres (temos grande necessidade deles!). Sem dúvida, a população teve que nos conhecer: mas superada a desconfiança inicial, a resposta foi muito positiva. Aliás, a ideia é a de entregar, no final, o projecto à Igreja local, não de estar ali para sempre. Talvez depois possamos importar o modelo para outros países!

Para concluir, qual é hoje na sua opinião o problema mais urgente?

O verdadeiro problema – tanto no ocidente como em África – é medo. Se há medo, a fé falta. A prudência é algo diferente, eu falo do medo que leva à bruxaria e ao devocionismo. Devemos libertar-nos disto. Há duas formas de viver a fé: pensar que a temos que merecer ou descobrir que somos amados. Descobrindo que somos amados, agradecemos. Optar por crer é aceitar que Deus nos ama. Bento XVI escreveu sobre isto uma encíclica: Deus é amor!

Giulia Galeotti

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

21 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS