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Para quantos estão sempre priores
do que os outros

Lucas 21, 20-28

As palavras de Jesus são suscitadas por aquilo que Ele vê e ouve no templo. Jesus vê a situação mais normal do mundo, ou seja, a injustiça desenvergonhada dos ricos, que depositam migalhas do seu supérfluo no tesouro do templo, e ouve o olhar insipiente de quantos se julgam tranquilizados pela magnificência do templo. Mas vê também o amor a Deus e aos pobres de uma viúva paupérrima. Isto leva-nos a intuir que o discurso de Jesus não diz respeito a um tempo particular, único, o tempo da consumação final do mundo, mas o tempo da história, aquela em que nós vivemos e que é continuamente atingida por guerras e catástrofes.

Francesco Hayez, «A destruição do templo de Jerusalém» (1867, pormenor)

Jesus vê e ouve que os homens no bem-estar não entendem, e que correm sempre o risco de desaparecer, inconscientes de tudo: do mal que cometeram, do bem que deixaram de praticar. Precisamente como na época de Noé e de Lot, e assim como nos seus e nos nossos dias. Jesus observava a realidade com a sabedoria das Sagradas Escrituras de Israel, e ouvia-as olhando para aquilo que tinha diante dos seus olhos, para as pessoas com as quais se encontrava.

Jesus ensina-nos que não é necessário ser adivinho para conhecer o desencadeamento dos poderes injustos. Que é suficiente ver uma mulher viúva que possui apenas dois tostões, uma pessoa faminta ou oprimida — aqueles pobres que, com tristeza, disse que teríamos sempre ao nosso lado — para compreender a existência daqueles poderes injustos que os defraudaram e esmagaram deste modo, para compreender a guerra mais injusta e perene, aquela dos ricos contra os pobres. Jesus ensina que é suficiente ver uma pessoa que cega de nascença, um paralítico, a angústia de um pai pela sua pequena filha moribunda, para entender a fragilidade, a precariedade de cada vida. E utilizando palavras e imagens proféticas, Jesus evoca os terrores e os sofrimentos que as catástrofes provocam sempre nos seres humanos. Jesus ensina os discípulos a ver a pena, o cansaço e o medo dos outros, de todos e de todas. A ter um olhar inteligente e compassivo, que sabe que todos e tudo morrerá, que sabe a pena desta ameaça perene.

Fala de um Shoah («tempestade») para Jerusalém, para Israel, que bem sabemos que não é nem a primeira nem a última. E exorta: não procureis salvar os vossos pertences, não haverá tempo nem sequer para vos despedirdes dos vossos entes queridos. Jesus fala como Jeremias, no capítulo 45: a única presa que, eventualmente, o Senhor possa ajudar-vos a salvar é a vossa nua vida.

E fala daquelas pessoas que, na calamidade geral, estão contudo e sempre pior do que as outras:as mulheres grávidas e aquelas que amamentam, recordando-se do gemido profético: «Bem-aventuradas as mulheres estéreis, que não deram à luz...». É maravilhoso que, nos seus pensamentos, Jesus veja estas pobres mulheres, as mais pobres entre as pobres, na angústia da fuga. Não apenas porque lhes dirige o seu olhar realista e misericordioso e totalmente inabitual para as mulheres, mas também porque nelas vê, talvez, uma situação evangelicamente paradoxal: as mulheres grávidas e aquelas que amamentam — que vivem com todo o seu corpo a favor da outra criatura humana que trazem no ventre ou no colo — não podem dar-lhes a vida a não ser vivendo, e não morrendo: incumbe sobre elas o próprio dever de se salvar também a si mesmas.

Além disso, Jesus exorta os seus a não terem medo, como referirá o anjo às mulheres, diante do seu sepulcro, na manhã de Páscoa. Voltai a erguer a cabeça e olhai: no horizonte encontra-se a vinda do Filho do homem. Não vos conformeis com o medo, que leva o mundo a estremecer. Não sejais como aqueles que não conhecem a promessa do Senhor, não tremais como aqueles que não o esperam. Não tenhais medo, porque unicamente o medo pela vossa vida vos pode impedir a liberdade e a atenção indispensáveis para viver no amor. Assim como a paupérrima viúva, não vos preocupeis com a vossa vida. Não tenhais receio, porque o fim haverá de ser um retorno, um encontro, olho contra olho.

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20 de Agosto de 2019

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