Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Para não mutilar a Torá

· Aproximar-se todos da Escritura ·

Durante séculos, em países cuja cultura, cristã ou muçulmana, deixava a sua marca na cadência do tempo, nas paisagens, nos costumes e na existência diária, o estudo (limmud) ininterrupto da Torá foi a modalidade por excelência de continuidade da vida judaica. Mais do que os cristãos e os muçulmanos, os judeus tinham de facto uma necessidade vital de sondar os seus textos, de os interpretar e de os transmitir. E isto mesmo se os seus hóspedes – muitas vezes seus perseguidores – desconheciam tudo da vida do espírito judaico ou a negavam com violência pretendendo reduzi-la a uma «letra» morta ou superada.

Longe de constituir um mundo fechado e intocável, o texto escrito da Torá foi – e ainda é – inseparável da Torá oral (Torah shebealpeah), ou seja, da Torá «que está nos lábios» de quantos a estudam e a interpretam de maneira nova. O Talmude, a exegese do Midrah, os comentários filosóficos e místicos, constituem a imensa riqueza da Torá oral, que se tornou ela mesma uma imensa biblioteca, em hebraico e em aramaico, e depois também noutras línguas: sem ela o judaísmo perde o seu sentido e a sua força.

Esta tarefa fundamental, e esta vida em sintonia com o estudo, foi quase sempre apanágio dos homens: a ela, as mulheres tiveram pouquíssimo acesso. E tudo isto com o dúplice pretexto de que o estudo era uma obrigação (mitzvá) só para os homens e as mulheres dele não eram capazes (argumento misógino), e que as mulheres tinham um acesso mais direto à verdadeira piedade (argumento adulatório). Aprisionando assim a mente feminina numa natureza que lhe impedia o caminho do estudo, até há pouco tempo, as mulheres eram quase sempre excluídas. Numa religião na qual o estudo constitui um eixo importante, isto significou também a sua subordinação a quantos estudavam, interpretavam e legislavam em qualquer âmbito. Certamente, há mulheres que partilham esta repartição tradicional dos papeis e se submetem à palavra masculina que lhes ordena que apoiem o próprio marido, que cresçam os filhos, aliás, que trabalhem para manter a família de maneira que os homens possam dedicar-se ao estudo. Mas acontece também – e sempre com mais frequência – que se recusem de o fazer.

De resto, o desejo de compartilhar o mundo dos estudos com os homens não é aliás uma questão de dignidade pessoal, embora legítima, e é ainda mais importante para as mulheres que nos países democráticos são cidadãs tal como os homens e que muitas vezes receberam uma educação nas matérias profanas inconciliáveis com uma condição de minoria no âmbito da sua religião, mas há também outro motivo.

Se é verdade que a renovação de significado dos versículos da Torá depende das interrogações que os seres humanos lhes apresentam, é igualmente verdade que tais perguntas não nascem do nada. Elas derivam das dificuldades, não somente intelectuais, encontradas pelos leitores, mas inclusive das provações que eles atravessam (sofrimento, luto, desgraças) e das alegrias (amor, nascimento, sucesso), que sentem e exprimem. E as mulheres — tanto quanto os homens, mas também de modo diferente — experimentam tudo isto.

Por conseguinte, desejar afastá-las do mundo dos estudos significa impedir que ouçam as interrogações, aquelas que permitem esclarecer de modo diferente o sentido dos versículos. Isto pressupõe que o intercâmbio entre os homens é suficiente e que eles nada têm para aprender das interpretações femininas. Isto leva a um empobrecimento da Torá oral, aliás à sua mutilação e a um desinteresse no que se lhe refere. Trata-se de uma constatação ainda mais importante porque os jovens e as jovens instruídos, mas que conhecem os textos religiosos só por ouvir dizer, ou sob forma de propósitos ossificados, já não pensam em consultá-los para dar um certo sentido à própria vida.

Não reconhecer a contribuição das mulheres no plano dos estudos significa esquecer que a Torá no monte Sinai foi oferecida a todos. Onde as mulheres se inseriram no mundo dos estudos (Israel, Estados Unidos, Europa), a situação certamente não mudou instantaneamente, como que por encanto, mas no entanto abriu-se o caminho para um dinamismo indispensável. Além disso, que os homens aprendam por sua vez a ouvir a palavra das mulheres, não como algo que os torna inferiores, mas como alguma coisa que os põe em confronto direto com elas, significa também contribuir para o advento da paz. Nenhuma paz será possível entre os homens, enquanto uma metade da humanidade for por eles desacreditada e obrigada a submeter-se às suas palavras.

Miriam, Moisés e Aarão foram os três guias dos hebreus no deserto (cf. Miqueias 6, 4). A primeira devia velar sobre a água viva do poço, destinado a dessedentar a sua sede. Contudo, a água viva é associada à Torá. Portanto, esquecer o poço de Miriam significa estimular a sede também dos homens, não obstante eles afirmem o contrário. O taam (gosto, sabor, significado) daquela água é indispensável para cada homem e para cada mulher.

Catherine Chalier

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

24 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS