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​Para além das palavras

Certamente sabia-se que o motivo da viagem papal à Colômbia era o apoio ao difícil e doloroso processo de paz depois de mais de meio século de sangue. Mas já o lema escolhido para a visita era uma indicação nada genérica: demos o primeiro passo. Num contexto cheio de obstáculos que o Pontífice sintetizou com eficácia no longo discurso aos bispos graças a uma frase que Gabriel García Márques pôs nos lábios de um personagem do seu romance mais famoso: «não imaginava que era mais fácil começar uma guerra que terminá-la».

Neste caminho contrastado rumo à paz «vim até aqui para vos dizer que não estais sozinhos» explicou o Pontífice, concluindo o primeiro discurso diante das autoridades do país e do presidente. E aos bispos Francisco, depois de ter recordado que é Deus que dá o primeiro passo na direção do homem, reafirmou ainda que «à Igreja interessa unicamente a liberdade de pronunciar» a palavra da reconciliação. «Não servem alianças com uma parte ou com outra, mas a liberdade de falar aos corações de todos. Precisamente nisto tendes a autonomia e o impulso para inquietar, nisto tendes a possibilidade de apoiar uma mudança de rota» esclareceu Bergoglio.

Palavras já claríssimas, como de costume, as que Francisco pronunciou em Bogotá, mas que foram seguidas por um dia em Villavicencio dedicado inteiramente ao núcleo da viagem e ritmada por gestos eloquentes. Assim os colombianos, mas certamente não só eles, entenderam que o Papa veio ao país para mostrar, inclusive para além das palavras, que está da parte de quem procura com fadiga, dia após dia, construir a paz. Num dia encerrado por encontros comovedores: com os militares no aeroporto pouco antes de embarcar e no final da tarde, chegando à capital, com algumas vítimas da guerra longa mais de meio século.

Precisamente nesta cidade, no coração da imensa região dos Llanos rumo à Amazónia, o Pontífice proclamou beatos dois mártires, o bispo Jesús Emilio Jaramillo Monsalve e o sacerdote Pedro María Ramírez Ramos, sinal da presença do «Deus connosco», aquele que não deixa o homem sozinho, mas também «expressão de um povo que quer sair do pântano da violência e do rancor». A este povo Bergoglio, na festa da Natividade de Maria, explicou a genealogia de Cristo que abre a narração do evangelista Mateus e, renovando a condenação do machismo e da violência contra as mulheres, disse que a reconciliação é possível se abrirmos à luz do Evangelho as «nossas histórias de pecado, violência e conflitos».

E que esta reconciliação não seja uma palavra abstrata mas concreta, apesar de ser difícil, demonstraram num segundo encontro as palavras do Papa, visivelmente comovido pelos testemunhos dolorosos de quem sofreu e perpetrou violência. Diante da imagem de um Cristo mutilado, Francisco soube repetir com uma força nova a palavra do Evangelho, «que o amor é mais forte do que a morte». Olhando para a realidade, que impõe um caminho deveras não fácil mas no qual é necessário que verdade, justiça e misericórdia caminhem juntas: todas essenciais, porque cada uma «impede que as outras sejam alteradas». Portanto, uma via estreita mas que o Papa tem a coragem e não se cansa de indicar. Não só à Colômbia.

g.m.v.

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24 de Agosto de 2019

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