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Pão quotidiano de chumbo e antimónio

· Uma longa página de história escrita graças também aos protagonistas mais humildes e desconhecidos ·

«Ah, é o senhor? Mas o senhor sabe que escreve bem?». Aquelas palavras lisonjeiras e gratuitas estimularam a vaidade de um jornalista praticante numa manhã dos primeiros anos 80 do século passado. O elogio, tanto agradável quanto inesperado, tinha ressoado naquele clima extremamente quente, ruidoso e irremediavelmente perdido, da tipografia de «L’Osservatore Romano», como permaneceria até Julho de 1991, quando o «frio» do computador teria substituído a já obsoleta imprensa «a quente».

Até então, desde 1861, durante 130 anos e todos os dias, com a excepção das festas de preceito — e de raras excepções, como a pausa de algumas semanas no dia seguinte a 20 de Setembro de 1870 ou como quando, entre os dias 9 de Julho e 10 de Setembro de 1919, os tipógrafos de Roma entraram em greve — o jornal veio à luz naquela atmosfera de exalação penetrante de vapores de chumbo, de antinómio, de óleo, tinta e suor, onde o forte ruído dos ferros da rotativa — a última foi uma gigantesca «Winkler», que girou durante 44 anos — e o rangido prolongado e o bater ritmado das linótipos, uma de cada vez ou todas juntas, acompanhavam o vozear do paginador que reclamava ao redactor encarregado dos títulos, do chefe da tipografia que respondia ao telefone, do redactor que pedia elucidações sobre o material já composto e o outro a compor. E tudo isto misturado a gritos, chamadas, observações e algumas risadas inevitáveis.

Neste caso específico, quem tinha falado era um homem de estatura baixa, com um avental preto de trabalho, a testa alta e o olhar manso, com maneiras simples, ingénuas e discretas. Chamava-se Sante Principessa e trabalhava como linotipista. Teria ido para a reforma poucos anos mais tarde, no final da Primavera de 1984. O novato acima mencionado falou a um colega idoso, muito próximo dele, que bem conhecia o ambiente de «L’Osservatore», acerca do elogio recebido e este disse-lhe que o tinha em grande consideração. Porque os linotipistas mais idosos — dizia — habituados como estavam a transcrever em linhas de chumbo textos originais de todos os tipos, talvez conhecessem o italiano melhor que muitos outros, com mais títulos e togados críticos; e havia também aqueles que conheciam o latim.

Como o linotipista poeta Ottorino Gagliardi ao qual Ugo Piazza, autor das Poesie d’Angolo em «L’Osservatore della Domenica» assinadas Puf (Piazza Ugo Faenza) — e além disso amigo caríssimo e médico pessoal de Paulo VI — dedicou, depois da morte, alguns dos seus versos mais comovedores.

Principessa, no entanto, foi-se sem alarido, no passado mês de Março, e só por poucos meses não conseguiu festejar o século de meio de existência do jornal, ao qual tinha dedicado trinta e cinco anos da sua vida.

Naturalmente, não é apenas o seu rosto e o seu nome que voltam a aflorar na recordação. Mas hoje a sua figura parece-nos representativa: quer dos numerosos amigos da velha tipografia — e não é um termo de conveniência — com os quais tivemos a sorte e o privilégio de compartilhar uma boa parte da nossa vida, quer dos numerosíssimos dos quais, em mais de um século e meio de história, se perdeu a recordação. E no entanto, também eles empregaram a vida prestando o seu serviço ao jornal: profissional extremamente especializado, inteligente; e em delicada e silenciosa humildade.

Como em cada redacção, por detrás de autores mais ou menos conhecidos e por vezes prestigiosos, e de títulos mais ou menos eficazes, ou dos elementos ilustrativos mais ou menos pertinentes, há sempre uma série de pessoas, cujas assinaturas ou siglas quase nunca aparecem; assim, e com maior razão, isto vale para o pessoal da tipografia, cujos nomes nunca são divulgados. E no entanto são eles que, materialmente, dia após dia, ano após ano, determinou, o produto terminado, cuidando dos seus pormenores, aperfeiçoando a sua estrutura e a sua gráfica.

E se hoje a tecnologia informática decididamente simplificou o trabalho humano, não podemos esquecer aquele património histórico de cansaço, de dedicação, de cuidado, realizado quotidianamente nas ramas onde se acumulavam as colunas de chumbo e onde, sob os olhares do redactor de turno, os paginadores dispunham os materiais compostos, em conformidade com as necessidades e as prioridades de paginação: abertura, artigo de primeira página, corte central, corte baixo, «folhetim» e notícias. O texto era demasiado longo? Era necessário cortá-lo — possivelmente sem fazer os linotipistas reescrever nada, ou quase nada. «Daqui até ali»: aquele parágrafo podia ser removido sem prejuízos; a outras linhas podia-se renunciar, contanto que uma vírgula, «precisamente aquela lá», se tornasse um ponto. Em tal caso, era suficiente uma sábia intervenção cirúrgica, com a pinça ou alicate. Textos mais breves eram adaptados à página com a ajuda das interlinhas: subtis barrinhas de chumbo de diversas espessuras, segundo as necessidades — meio ponto, um ou dois pontos tipográficos, em conformidade com a necessidade e as exigências gráficas. «A pena dos tipógrafos», dizia um dos paginadores mais idosos — um senhor alto e forte como um touro, com o aspecto manso e fleumático (chamavam-no Professor) — enquanto com velocidade surpreendente as suas grandes mãos inseriam as interlinhas na coluna. Estes espaços tipográficos estão presentes até hoje; mas agora quem pensa em inseri-los para nós é o computador.

O progresso tecnológico substitui o trabalho manual; os tempos reduzem-se, as páginas fazem-se e desfazem-se em poucos minutos, poupando muito cansaço e muitos suspiros. Depois, não falemos da saúde, sempre a risco. Todos os dias os operários deviam beber grandes copos de leite, que aparentemente tinha virtudes desintoxicadoras. Uma vez, narrava um dos «velhos» da tipografia, teve lugar uma excursão empresarial a Tívoli — onde, como se sabe, existem termas de águas sulfúreas — e alguns de nós, dizia o amigo, ao molhar as mãos (aquelas mãos de pele dura, provada pelas queimaduras) viram-nas surpreendentemente adquirir a cor de ocre. Era a reacção química ao chumbo e ao antimónio, utilizados quotidianamente.

Uma história longa 130 anos, escrita por centenas de rostos desconhecidos. Mas como sabemos, todos os nomes estão no Coração de Deus.

Narrava a quem escreve, uma testemunha ocular extremamente fiável e muito próximo dele, um episódio de 1961 que faz reflectir.

Celebrando-se o centenário de «L’Osservatore Romano», entre as várias iniciativas foi celebrada também uma missa para os tipógrafos mortos, que tinham prestado serviço no jornal. O rito teve lugar na «Chiesa Nuova», em Roma. A assembleia estava disposta em grande parte no lado direito do histórico e maravilhoso templo barroco dos padres oratorianos, que conserva as relíquias de são Filipe de Néri. Os olhares estavam voltados para o imponente altar-mor, acompanhado pelo célebre tríptico de Pieter Paul Rubens encimado pela efígie da Virgem «Vallicelliana».

Pois bem, a uma certa altura os presentes em oração sentiram no ar uma intensíssima e inconfundível exalação de chumbo e antimónio. Cheiro de tipografia. A testemunha acima mencionada, que desde jovem conhecia bem os arredores de Santa Maria in Vallicella, pensou imediatamente numa velha tipografia existente precisamente na adjacente rua da «Chiesa Nuova». Portanto, não deu importância àquele fenómeno olfativo. E só mais tarde voltou a surpreender-se: quando, reflectindo, se deu conta de que aquela actividade estava fechada havia muitos anos.

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12 de Novembro de 2019

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