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A palavra frequente

· Do Brasil à Coreia ·

Francisco falou na Coreia, mas também no Brasil e na Terra Santa. Antes tinha falado na Argentina. Nos seus discursos repete-se várias vezes uma palavra, como as ondas na praia; reconciliação. A mesma palavra que repetia quando era cardeal arcebispo de Buenos Aires. Muitos sentem-se desconcertados porque não só há quem não a queira ouvir, mas até a rejeita, tornando a divisão mais profunda e respondendo ao seu apelo com aquele rancor que gera a fragmentação.

Mas este homem nunca se resignou, continuou a repetir aquela palavra mesmo se não a queriam ouvir. Fê-lo então, e continua a fazê-lo. E isto porque sabe que as pessoas só depois de se terem reencontrado podem voltar a construir, quer se trate de uma casa, de uma cidade, de uma aldeia, do mundo ou da própria vida.

Para se reconciliar é importante antes de tudo perdoar-se a si mesmos, a fim de poder perdoar depois o outro e construir juntos a partir de um esforço comum. Nós, argentinos, que nunca soubemos perdoar a nós próprios, dificilmente o poderemos fazer sem percorrer primeiro um longo e doloroso caminho de respeito recíproco.

O tempo e as circunstâncias puseram aquele cardeal lá onde está hoje, e dali repetiu várias vezes a mesma palavra em todas as partes aonde foi: reconciliação. Primeiro no Brasil, depois na Terra Santa, na Coreia e muitas vezes no Vaticano ou na Itália. No Papa Francisco há elementos que indicam uma rota, não visível, mas espiritual. Num certo sentido o caminho não existe, o que existe é só o ponto de chegada, o objectivo final. O caminho – como dizia um poeta do qual ele gosta, Antonio Machado – faz-se caminhando.

A reconciliação tem como base a existência de uma relação fraterna que se interrompeu. A Coreia é disto um sinal. Um mesmo povo dividido a metade onde alguns não se contentam dos próprios triunfos mas parecem ter necessidade também da falência dos outros para se sentirem bem, mantendo assim o único empreendimento que funciona a partir do rancor: a guerra. A reunificação é para o povo coreano uma ferida aberta que não se pode curar sem reconciliação. Mas esta reunificação não é diferente daquela da qual outros povos têm necessidade.

Mesmo se do ponto de vista semântico guerra não é o contrário de reconciliação, o mesmo não se pode dizer do ponto de vista prático. Francisco foi a uma área de conflito. Numa zona onde há sessenta e um anos foi assinado um armistício para que não se continuassem a matar. Depois nada: a ameaça constante, as intimidações repetidas, a inquietude na manutenção da paz, temendo sempre a reacção imprevista do outro. Foi o cenário escolhido por Francisco para falar de reconciliação, para abrir a mão desarmada face aos outros. Aquela mão da qual não se pode ter medo, mão aberta que espera a do outro, mão que não está vazia, mas cheia de paz.

Os católicos, os cristãos, os não cristãos, todos os que de um modo ou de outro seguem o Papa, olham para as crises na Ucrânia, no Médio Oriente, em África e pensam que Francisco é seja ouvido. Mas neste mundo globalizado, além da divisão geográfica, o objecto final da salvação continua a ser o homem, e é o homem que Francisco convida à reconciliação. Provavelmente muitos não conseguem compreender a paciência do semeador, para o qual a palavra não é uma ordem mas uma semente. É preciso esperar que nasça e dê fruto.

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22 de Setembro de 2019

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