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Padre Pepe e as mulheres

· ​O testemunho ·

Não é possível descrever padre José María “Pepe” Di Paola só através das suas obras nas villas miserias de Buenos Aires, as aglomerações de barracas e casas improvisadas, espalhadas no coração opulento da metrópole argentina. Contudo, o seu trabalho no meio destas pequenas casas de lata fez com que se conhecesse este verdadeiro profeta dos nossos tempos. Di Paola continua, à sua maneira, a experiência daqueles sacerdotes que nos anos do concílio escolhiam ir viver nas favelas argentinas também para apoiar as lutas populares que naquele mundo marginalizado exigiam direitos fundamentais, como por exemplo esgotos, electricidade e escolas. «Favorecer no coração das villas um enredo de vida cristã que subtraia a existência das crianças e dos jovens do assédio da droga e da marginalização é a minha missão», afirma padre Pepe. Hoje, entre as vielas desajeitadas de Villa La Cárcova – que surgiu sobre um depósito na área municipal de San Martín – confiaram a ele inclusive o cuidado pastoral de outras três villas espalhadas ao longo do Río Reconquista, segundo rio mais poluído do país. «Estou muito agradecido a Francisco pelas suas mensagens e, sobretudo, pelo apelo à Igreja pobre para os pobres. Também no Norte do mundo existem vários Suls e muitas ocasiões para testemunhar uma “Igreja em saída”». Perguntamos-lhe o que aprendeu ao longo destes anos das mulheres e dos homens que vivem nas villas miserias: «A primeira resposta que deriva da vida na favela é a gratuitidade, que é exactamente o contrário de exploração. Só a gratuitidade permite lutar por um futuro diferente sem que o triste ritual do ódio oprima o gosto pela vida, as relações humanas e com elas qualquer esperança. Gratuitidade é o fundamento para poder construir juntos e procurar soluções hoje. Outro aspecto importante é que o resgate da dor e da pobreza começa já, nas villas miserias, vencendo a alienação e o desânimo, o individualismo e a indiferença. Todos temos que aprender dos villeros a religiosidade e a solidariedade. Nas villas o sentimento religioso é o alimento quotidiano: não há agnosticismo mas todos, embora nas diversas confissões, têm o sentimento religioso». Como é a vida das mulheres? «São fundamentais e, paradoxalmente, a pobreza acelera os seus percursos de inserção social. Devem trabalhar e isto torna-se um primeiro elemento importante para compreender a relação igualitária entre homem e mulher que predomina nestes bairros. Há mulheres que trabalham na centro da cidade, nos hospitais ou nos hotéis, trabalhos humildes para ganhar pouco mais de mil pesos por mês. Aqui os homens tomam conta dos filhos e preparam as refeições. Sabemos muito bem que a crise atinge principalmente as mulheres, porque, entre os pobres, são as mais pobres. Com efeito, muitas vezes, foi dada à complementaridade entre homens e mulheres uma descrição androcêntrica e hierárquica baseada em estereótipos. O desenvolvimento que acentua a diversidade entre os sexos, criando discriminação nas actividades sociais entre homens e mulheres, é sinónimo de subdesenvolvimento, e paradoxalmente aqui, no subdesenvolvimento, existe um desenvolvimento. Este sistema de vida complexa que é a villa miseria tem uma pobreza concreta que consiste em satisfazer as necessidades diárias de tipo material, mas que não se acompanha com outro tipo de pobreza. Uma pobreza cultural e que diz respeito à esfera homem-mulher» (@PerezSilvina)

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26 de Agosto de 2019

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