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Outro unguento

Existe outra voz, se quisermos ouvi-la. Outro canto eleva-se das estradas do mundo,  tramando enredos e tecendo escolhas, criando recipientes femininos de ouro e de verde capazes de dar força e abrigo ao seu conteúdo de bálsamos e videiras. No número de Julho do nosso suplemento, estas vozes deram frutos: narrando personagens, responsabilidades e ramificações menos conhecidas e menos esperadas, nascidas aparentemente por acaso, por índole natural ou necessidade, por rebelião, amor, paciência ou aversão.

Crescer, cumprir as obrigações sem contrair dívidas, amadurecer, sair, escrever, marchar, estar aos pés da Cruz e de todas as cruzes, no passado e no presente, quando soa a hora da fidelidade humana e da reconstrução. A hora que não corresponde à do coche que repentinamente se torna abóbora, mas a do caminho no qual o cansaço evolui para a liberdade. Reconstituir o que foi dividido na sociedade civil, na Igreja, na história do amor e da política para aliviar conflitos e feridas, curando com os bálsamos e nutrindo com os unguentos. As mulheres – usadas como balas nos conflitos, como foguetes de intercâmbio na tragédia, como válvulas de escape nas crises – são as primeiras testemunhas das diferenças que se verifica entre viver e existir.

Mas esta acção, esta palavra e este testemunho só têm sentido se permanecerem «outra».  Porque se a mulher levasse também para o âmbito da economia, da política,  da tragédia e da esperança, uma mentalidade e um estilo masculino, tudo seria inútil. O mundo não precisa (nem nunca precisou) de um eco do que já existe. A sociedade e os corações não necessitam de fotocópias – mesmo se talvez mais coloridas e efervescentes – do que já se desenhou e se continua a desenhar nas sombras e nas cores, na luz e nos claro-escuros. Deste modo nada mudaria. Nenhuma semente nova para encontrar e cultivar em cada primavera.

A nossa folha de Julho dedica os seus óleos aromáticos à jovem afegã de vinte e dois anos executada na aldeia de Qumchok. Um vídeo amador gravou com o telemóvel a cena. O nosso canto é dedicado a esta jovem sentada no chão e voltada de costas, assassinada por nove tiros disparados à queima-roupa, ao seu corpo que saltou para trás depois da terceira bala, circundada por dezenas de homens que exultam após a execução.

Edição em papel

 

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Praça De São Pedro

23 de Agosto de 2019

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