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​Os sacramentos não se pagam

· Missa em Santa Marta ·

As nossas igrejas e a nossa pastoral servem «ao Senhor ou ao dinheiro»? E no coração dos cristãos está o Senhor ou o ídolo da corrupção? Advertindo contra o «perigo que as nossas igrejas se tornem um mercado» e as «celebrações mundanas», o Papa Francisco, na missa celebrada na sexta-feira, 9 de novembro em Santa Marta, recordou que os fiéis devem apoiar as necessidades também económicas das suas comunidades, não obrigados por «uma lista de preços» para os sacramentos mas livremente e no escondimento.

Partindo do excerto evangélico de João (2, 13-22), o Papa Francisco realçou a cena na qual «Jesus entra no templo e vê esta “gente que vendia bois, ovelhas e pombas e, lá sentados, os cambistas. Então fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, com as ovelhas e os bois; atirou para o chão o dinheiro e os bancos, e aos vendilhões de pombas disse: Levai embora daqui estas coisas e não façais da casa de meu Pai um mercado!”».

«É um cenário de violência» afirmou o Pontífice, acrescentando: «É verdade, Jesus algumas vezes foi violento: pensemos em quando falou duramente aos fariseus, aos saduceus, aos doutores da lei no capítulo 23 de Mateus. Foi duro, vigoroso, apenas com as palavras». Mas «é a primeira vez – observou – que Jesus usa esta violência dos gestos: gestos incisivos. Uma intolerância, pois todos eles estavam ao serviço do sacrifício: vendiam bois, ovelhas e pombas para o sacrifício. E os cambistas trocavam moedas estrangeiras».

«Porque entra Jesus nesta fase violenta?», perguntou o Papa. E continuou: «Alguém poderia dizer: “mas, um momento de cólera...”». Por seu lado, «os discípulos compreenderam bem o que estava a acontecer». Lucas di-lo claramente no seu Evangelho: «Recordaram-se que está escrito: “O zelo pela tua casa me devorará”».

Por conseguinte, explicou Francisco, «Jesus age assim estimulado pelo zelo, o zelo pela casa de Deus, o zelo pela casa de seu Pai convertida num mercado, como ele mesmo diz: “Não façais da casa de meu Pai um mercado!”». E «isto leva-o a ter estes comportamentos nunca imaginadas. É o amor ao Pai, o único Deus».

«Mas – afirmou o Pontífice – a explicação do porquê, a explicação mais radical, encontramo-la numa frase, numa explicação que Jesus deu ao povo, quando disse: “Não se pode servir a dois senhores: ou Deus ou o dinheiro”. Refleti: foi Jesus quem atribuiu o status de “senhor” ao dinheiro. Quase como Deus: “ou Deus ou o dinheiro”. São dois senhores. Ou serves Deus ou serves o dinheiro».

E no templo, fez presente Francisco, «Jesus viu que se servia o dinheiro: havia a idolatria. Por detrás do dinheiro está o ídolo. Os ídolos são sempre de ouro. E os ídolos escravizam». O seu «é o zelo contra a idolatria: faz-nos pensar naquele episódio, até violento, do profeta Elias com os profetas Baal no Monte Carmelo». Aquela «violência de Elias que não perdoa a ninguém».

«Isto chama a nossa atenção – prosseguiu Francisco – e faz-nos pensar como tratamos os nossos templos, as nossas igrejas; se são deveras casa de Deus, casa de oração, de encontro com o Senhor; se os sacerdotes favorecem tais atitudes». Ou «se se parecem com os mercados».

A este propósito o Papa afirmou: «Eu sei, algumas vezes vi – não aqui em Roma, mas noutra parte – uma lista de preços. “Mas os sacramentos pagam-se?” – “Não, mas é uma oferta”. Mas se querem dar uma oferta, que a deem, que a ponham na caixa das ofertas, em privado, que ninguém veja quanto dás». E, acrescentou, «também hoje há este perigo: “Mas temos que manter a igreja. Sim, a sério”. Que a mantenham os fiéis, mas na caixa das ofertas, não com a lista dos preços».

«E isto acontece também hoje» disse o Pontífice, advertindo contra o «perigo que as nossas igrejas se tornem um mercado». E «não só: pensemos em certas celebrações, talvez de algum sacramento, ou comemorativas, onde se vai e se vê: não se sabe se a casa de Deus é um lugar de culto ou um salão social». Há «algumas celebrações que escorregam para a mundanidade. É verdade que as celebrações devem ser bonitas – bonitas – mas não mundanas, pois a mundanidade depende do deus dinheiro. É também uma idolatria». Uma constatação, esclareceu, que «nos faz pensar também: como é o nosso zelo pelas nossas igrejas, o respeito que temos quando entramos nelas».

«Mas há outra coisa que nos deve fazer refletir», sugeriu o Papa, referindo-se ao trecho da primeira carta aos Coríntios proposto pela liturgia (3, 9-11.16-17): «Não sabeis que sois templos de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus destitui-lo-á. Pois é santo o templo de Deus, que sois vós».

Paulo, explicou Francisco, afirma que «também nós somos um templo, o templo de Deus, e isto estimula-nos a olhar para dentro: como é o meu coração? “Padre, é pecador”. Todos o somos. Mas isto não é idolatria. Isto leva-te também à humildade e à santidade». Por isso a verdadeira questão é: «o teu coração é mundano e idólatra? No teu coração prestas culto ao dinheiro, ao poder, aos ídolos?».

Por conseguinte, insistiu o Pontífice, «eu não pergunto qual é o teu pecado, o meu pecado. Pergunto se tens dentro de ti um ídolo, o senhor dinheiro». Porque «quando há o pecado, o Senhor Deus misericordioso perdoa-te se o procurares». Mas «se há outro senhor – o deus dinheiro – és um idólatra, ou seja, um corrupto: não um pecador mas um corrupto». Com efeito, explicou, «o nó da corrupção é precisamente uma idolatria: é vender a alma ao deus dinheiro, ao deus poder». E quem o faz «é um idólatra».

O trecho evangélico «da chamada “purificação do templo” – sugeriu o Papa – nos faça pensar, nos faça refletir sobre os nossos templos, sobre as nossas igrejas, sobre a pastoral das nossas igrejas: se estão ao serviço de Deus, do Senhor Deus, ou ao serviço do deus dinheiro, isto é, se são um mercado». E «nos faça pensar também no templo do coração: se eu quiser ter o Espírito Santo, que também me mostra que sou pecador mas filho de Deus, ou se expulsei o Espírito Santo do meu templo e instalei no meu coração o ídolo». Em síntese, se sou «pecador ou corrupto». E nesta perspetiva, concluiu Francisco, «o Senhor nos ajude a refletir sobre este cenário “violento” de Jesus».

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19 de Novembro de 2018

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