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Os ritos da terra

· A vida diária das mulheres andinas ·

Este artigo foi escrito para «mulheres igreja mundo» pela equipa das catequistas e dos catequistas da paróquia de São Francisco de Assis em Ocopilla (Huancayo, Peru).

A pobreza extrema na qual as mulheres que vivem nos Andes devem providenciar às necessidades familiares tem como consequência também as dificuldades no acesso à educação e a falta de atenção pela saúde física e mental.

Considerada a pobreza das zonas rurais – que alcança 66 por cento e a pobreza extrema 30 por cento – as mulheres são privadas de direitos, mesmo sendo protagonistas da alimentação familiar: de facto, as mulheres das zonas rurais andinas, desempenham há milénios um papel importante no campo da segurança e da soberania alimentar; contribuem para a prática do direito à alimentação das pessoas e apoiam propostas destinadas a fazer com que os povos decidam o tipo de produção para o seu sustento.

Mas este papel não é reconhecido nem valorizado nas suas comunidades nem sequer pelo Estado: as mulheres são excluídas da propriedade das terras e do acesso à água, das tomadas de decisões e da formação em campo tecnológico. Recaem sobre elas desde a infância os trabalhos domésticos e o cuidado da família, mesmo se isto significa descuidar-se de si mesmas e da própria saúde e pôr de lado as suas aspirações.

Maus-tratos físicos, psicológicos e sexuais, o incesto seguido com muita frequência por gravidezes forçadas para meninas e adolescentes, o tráfico para fins de exploração sexual e o feminicídio, são algumas das expressões diárias da violência contra as mulheres das áreas rurais andinas. A impunidade face a semelhantes factos é a regra, devido à ignorância das mulheres em relação aos seus direitos e às normas que as protegem, mas também devido a uma sociedade de tipo machista e à débil e ineficiente presença e acção do Estado, que chega a negar às vítimas o direito à justiça.

Por conseguinte, o direito a uma vida livre da violência está longe de ser uma realidade concreta para as mulheres andinas dos campos. A normativa vigente, que responde a uma visão urbana e ocidental, não incluiu a perspectiva intercultural. A isto acrescenta-se a falta de formação e de sensibilização dos agentes responsáveis pela prevenção e de sanções pelos actos de violência; uma cultura que considera normal a discriminação e os maus-tratos de crianças, adolescentes, jovens e mulheres adultas.

Não obstante a lei o proíba, ainda hoje às mulheres que decidem denunciar o próprio companheiro, até em casos de violência sexual, é proposta a conciliação, e as penas impostas aos agressores limitam-se a multas ou a dias de trabalho comunitário.

O estado civil das mulheres andinas constitui um problema: 78 por cento das mães que deram à luz em hospitais públicos e clínicas do Peru entre Janeiro e Outubro de 2013 tinha o estado civil de convivente, só 9 por cento de casadas (dados do Ministério da saúde). No mesmo período deram à luz também mães solteiras (12,26 por cento), mulheres separadas (0,23 por cento), viúvas ou divorciadas (0,04 por cento), sempre com base nas estatísticas fornecidas pela agência andina.

O elevado número de mulheres que dão à luz com o estado civil de conviventes revela a fragilidade e a vulnerabilidade das famílias, mas ao mesmo tempo frisa a maior autonomia das mulheres, que hoje trabalham mais do que no passado e são economicamente independentes, até em relação à maternidade. O problema é que, se a convivência está associada à pobreza, a família dilacera-se com facilidade, e são as mulheres e as crianças que pagam o preço da situação.

Mas, não obstante estes obstáculos, a mulher andina desempenha um papel importante no âmbito da economia, como administradora dos recursos familiares, mas também, mais em geral, desempenhando cargos cada vez mais importantes em âmbito empresarial, na pesquisa científica e académica, e até a nível governamental.

Segundo o Instituto nacional de estatística e informática (Inei), todos os anos 187.000 mulheres entram no mercado do trabalho e representam 44,3 por cento da população economicamente activa do país: 65,5 por cento das mulheres são trabalhadoras independentes, e 36 por cento assalariadas.

O índice de oportunidades económicas para as mulheres (The Women's economic opportunity index) elaborado por The Economist Intelligence Unit – que avalia os factores que condicionam o acesso das mulheres às oportunidades económicas no âmbito do sector formal de qualquer economia – coloca o Peru no quinquagésimo sexto lugar a nível mundial e no décimo nível no continente americano.

A Entidade das Nações Unidas para a igualdade de género e a emancipação das mulheres atribui ao Peru o quadragésimo nono lugar no respeitante à participação das mulheres em cargos ministeriais (juntamente com Haiti, Itália, Roménia e Sudão do Sul) e no quinquagésimo oitavo lugar em relação ao número de mulheres presentes no Parlamento (28 mulheres em 130 lugares).

Indubitavelmente a participação feminina aumentou nos últimos anos, mas ainda há muitos problemas abertos, como por exemplo o acesso à instrução superior, viabilizada unicamente a 28 por cento das mulheres, e o acesso aos seguros de saúde, que deveria ser garantido a uma percentagem superior à actual, que é só de 67 por cento (Sis, Es Salud e outros).

Numa cultura que vê cruzar-se cerimónias religiosas tradicionais com liturgias cristãs transmitidas pelos missionários, as mulheres desempenham um papel não secundário.

A vida religiosa desenvolve-se em duas fases: uma que vai de Abril a Agosto (período seco, de colheitas e de boa saúde) e a outra de Setembro a Março (período chuvoso, de sementeiras, de doenças e de morte). Entre as duas fases, um período de transição. Estes períodos permeiam a vida das mulheres andinas, a ponto de determinar a data dos matrimónios, que se celebram de Abril a Agosto.

Os calendários litúrgicos dos Andes seguem os momentos mais importantes do ciclo litúrgico católico que se conciliam com as fases da vida agrícola: um primeiro e importante período de colheita-estação de estiagem, um segundo que é a estação definida das chuvas-período de sementeira, e entre os dois há um momento de separação e de transição (o primeiro vai de Abril a Junho, depois vem Agosto, e a seguir há o segundo período, de Setembro a Março).

Quando acaba a colheita, depois do armazenamento dos produtos agrícolas e da contagem do gado, é preciso renovar a fertilidade da terra e prepará-la para um novo período de «gravidez», com um rito propiciatório que se efectua no mês de Agosto como devoção à Pachamama. Nos Andes Centrais é atribuída muita importância a esta divindade, à sua plenitude feminina e materna, benévola e exigente. A população relaciona o culto à Pachamama com o culto à Virgem Maria.

De facto, durante a festa da Assunção da Virgem, chamada em geral Virgem da Assunção e familiarmente Mamacha Asunta, celebra-se o «pagamento à terra» para a Pachamama. Também as festas dos santos Domingos, Lourenço e Jerónimo, celebradas em Agosto em muitas comunidades dos Andes, coincidem com esta homenagem.

O terceiro período do calendário ritual começa no mês de Setembro, com a situa, ou seja, a sementeira mediante a irrigação; a terra é arada e aberta e começa então o período da sua fecundação. Com este ritual procura-se afastar e esconjurar as doenças, as pestilências e os infortúnios que se verificam quando se conclui o período da estiagem e começa o da chuva. Portanto, a doença, e por conseguinte também a morte, é relacionada com a chuva, e assim neste período crítico são cumpridos actos purificatórios e procura-se afastar ritualmente as influências nefastas e os males. As mulheres preparam o sango, empaste feito com farinha de milho misturada com sangue quente de um lama acabado de sacrificar. Com este yaguarsango, de modo ritual, ungem-se o rosto, as extremidades do corpo, e cobrem as portas e o interior das casas, e também algumas provisões armazenadas. Depois, uma parte do empaste é lançado aos rios para purificar a água. O sango é consumado também colectivamente, a fim de renovar o pacto entre os autóctones e os estrangeiros e para propiciar a sementeira.

Nas aldeias estes ritos de purificação realizam-se com a chegada das primeiras chuvas, que são consideradas excelentes para o início da sementeira. São feitas ofertas, e acreditam que as primeiras chuvas levam embora as doenças, os males e os pecados, arrastando-os para longe.

Naturalmente, o papel da mulher é posto em evidência e valorizado na devoção à Pachamama, representada sorrindo: sorriso que é característica peculiar do rosto da mulher andina.

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24 de Agosto de 2019

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