Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

​Os paradoxos da fome

· ​Em diálogo com a nutricionista Charlotte Dufour ·

«Ser nutricionista na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (Fao) – explica Charlotte Dufour – significa antes de tudo interrogar-se por que motivo no mundo, por um lado, ainda existem oitocentos milhões de pessoas que sofrem de fome e uma criança de cada quatro ainda padece de subalimentação crónica enquanto, por outro lado, subsistem problemáticas de excesso de peso e de obesidade, com enfermidades cardiovasculares e tumores interligados. Significa questionar-se sobre tais problemas, interpelando os sistemas alimentares, as políticas e os programas agrícolas para procurar concebê-los de maneira que as pessoas se alimentem melhor: ao fazê-lo, trabalho juntamente com agrónomos, especialistas nos campos da pesca, da gestão dos recursos florestais e da criação de gado».

Giuseppe Sirni, «Menina afegã» (2004)

Dufour ocupa-se principalmente da África subsariana: «Trabalho na sede da Fao, em Roma: a minha tarefa consiste em apoiar os meus colegas que trabalham directamente no terreno, nos vários países. Eles levam a cabo uma obra de consulta política, entram em contacto com os ministérios da agricultura e da criação de gado locais, para averiguar como a sua política agrícola responde às necessidades das pessoas. Além disso, há um trabalho num plano mais concreto, com frequência em colaboração com associações não governamentais e sociedades civis que inclui, por exemplo, a promoção de pequenas criações de gado, e jardins-hortas em casas e escolas. É necessária também uma educação no campo da nutrição: demo-nos conta de que mesmo quando uma família produz de maneira suficiente, acontece que, por falta de conhecimentos, mulheres e crianças não dispõem contudo dos alimentos dos quais têm necessidade».

A mulher desempenha um papel fundamental no campo da nutrição? «Sim, porque muitas vezes ocupa um lugar importante na produção familiar. Por exemplo, quando dispõe de uma renda, ela é mais capaz de a gastar para a saúde, a educação e alimentação dos filhos. Por conseguinte, é importante que ela tenha conhecimentos necessários para utilizar os recursos do melhor modo possível. Nós trabalhamos também com outras organizações: como Fao, promovemos receitas adequadas às necessidades das crianças, tendo em consideração quais são os alimentos dos quais a família dispõe e como pode preparar uma receita adequada para o bem do próprio filho». Isto significa que nos vários países já existe, in loco, uma rede de formação? «Exatamente! A Fao é antes de tudo uma organização de assistência técnica: o nosso valor suplementar nos programas de desenvolvimento é a competência nos âmbitos ligados à alimentação, e por este motivo nós trabalhamos a nível de parceria. Muitas vezes trata-se das redes mais próximas da realidade local, como por exemplo de grupos de alfabetização feminina, de cooperativas administradas por parte de mulheres e de grupos de assistência às mães, instituídos pela Unicef. Apoiamos esta formação com manuais e outros instrumentos. Em determinados contextos de crise, onde a presença no território é muito frágil, como no Chade, na Somália, nas regiões mais pobres do Sahel ou do Corno da África, incrementaremos a nossa presença para ir ao encontro das necessidades das populações».

Qual é o último país onde a senhora esteve? «Estive no Cairo, juntamente com os representantes da Fao que trabalham nas nações atingidas pela crise síria: trata-se de regiões cujas problemáticas estão ligadas ao excesso de peso ou às enfermidades crónicas mas que, repentinamente, foram envolvidas neste conflito, com todos os desequilíbrios que comporta. É triste ver países que gozavam de um certo desenvolvimento financeiro completamente desestabilizados pela guerra. A crise humanitária síria é a maior crise da história».

A senhora esteve durante muitos anos também num outro país em dificuldade, o Afeganistão. «Foi no início da minha vida profissional. Eu tinha apresentado o pedido à organização «Action contre la faim» e pensava que me teriam proposto que partisse para ir ao Burundi ou à Serra Leoa, os países em crise naquela época. No entanto, propuseram-me o Afeganistão. Cheguei ali sem ideias preconceituosas: eu só sabia que os talibãs controlavam o país e que aquela região vivia isolada do mundo. Fascinaram-me imediatamente o sorriso, o humorismo, a inteligência e a capacidade de ir em frente dos afegãos, não obstante as situações que vivem. Trata-se de um país espiritualmente rico: a sua fé comoveu-me. Então, eu queria voltar para lá o mais frequentemente possível. O regime talibã desabou em 2001 e no ano seguinte, quando começou o processo de reconstrução, voltei ao país para cumprir breves missões de avaliação. Sucessivamente, voltei através da Fao: deste modo, pude ser testemunha da reconstrução do país e participar na mesma. Aliás, diria que eu própria me edifiquei». Em que sentido? «Eu era jovem quando comecei este trabalho: diante de situações difíceis, sentíamo-nos impotentes. Não havia uma solução, não havia esperança: tudo estava destruído, encontrávamo-nos ali com programas de ajuda de emergência, mas eram gotas num oceano de necessidades. Interrogávamo-nos: para que servimos? Depois, compreendemos que o que contava não era tanto a assistência alimentar, como a nossa presença. Se hoje eu trabalho para a Fao é porque me considero uma transmissora: o que é importante na actividade é o encontro, aquele que se aprende uns dos outros, aquele que se pode construir juntos. Quando permanecemos prolongadamente num país, perguntamo-nos: o que permanece? Sobrevivem os relacionamentos humanos que foi possível construir, sobrevive aquilo que cada um conseguiu haurir desta experiência, e que continua a oferecer na sua própria vida. Estreitei amizades com os colegas afegãos: sobrevivem o relacionamento com o outro, a relação consigo mesmo e aquilo que se pode aprender sobre o sentido da vida. Com efeito, é possível ser transmissor ou comunicador da vontade de Deus. Os meus amigos afegãos ensinaram-me a depositar nas mãos de Deus tudo aquilo que devemos realizar. Se podemos contribuir para isto, se podemos ser os comunicadores disto, é um bem».

O risco, conclui Dufour, «consiste em equivocar-se a respeito das construções visíveis: muitas vezes os desafios humanitários são medidos com base nos resultados, enquanto na realidade o que importa são a presença e o encontro humano, que em seguida suscitarão realizações concretas». 

Catherine Aubin

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

14 de Dezembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS