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Os fundamentos cristãos  da casa comum europeia

· Discurso ao novo Embaixador da Áustria junto da Santa Sé ·

«A edificação da casa comum europeia só pode alcançar bom êxito, se este continente estiver consciente dos seus próprios fundamentos cristãos e se os valores do Evangelho, assim como da imagem cristã do homem, constituírem também no futuro o fermento da civilização europeia», afirmou Bento XVI no discurso que dirigiu ao senhor Alfons M. Kloss, novo Embaixador da Áustria junto da Santa Sé, recebido em audiência na manhã de quinta-feira 3 de Fevereiro, por ocasião da apresentação das Cartas Credenciais. Em seguida o Papa recordou que a cultura, a história e a vida quotidiana da Áustria são profundamente plasmadas pela fé católica.

Estimado Embaixador!

É com prazer que aceito as Cartas mediante as quais o presidente da República da Áustria o acreditou como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário junto da Santa Sé. Ao mesmo tempo, agradeço-lhe as palavras cordiais com as quais o senhor manifestou a proximidade do Presidente e do Governo ao Sucessor de Pedro. Por minha vez, apresento ao Presidente, à Chanceler e aos membros do Governo, assim como a todas as cidadãs e a todos os cidadãos da Áustria, as minhas carinhosas saudações, e é de bom grado que exprimo a esperança de que as relações entre a Santa Sé e a Áustria continuem a dar frutos também no futuro.

A cultura, a história e a vida quotidiana da Áustria, «terra das catedrais» ( Hino nacional ) são profundamente plasmadas pela fé católica. Pude constatar isto também durante a minha visita pastoral ao seu país e na peregrinação a Mariazell, há quatro anos. Os fiéis, com os quais pude encontrar-me, representam os milhares de homens e de mulheres em todo o país que, com a sua vida de fé na quotidianidade e a disponibilidade para com o próximo, demonstram os traços mais nobres do homem e difundem o amor de Cristo. Ao mesmo tempo, a Áustria é um país em que a coexistência pacífica das várias religiões e culturas conta com uma longa tradição. «Na harmonia está a força», já recitava um antigo hino popular da época da monarquia. Isto é particularmente válido no que diz respeito à dimensão religiosa, que está arraigada no profundo da consciência do homem e, por isso, pertence à vida de cada indivíduo e à convivência da comunidade. A pátria espiritual, de que têm necessidade como ponto de referência pessoal muitos indivíduos que vivem uma situação de trabalho com uma mobilidade cada vez maior e uma transformação constante, deveria poder existir publicamente e num clima de convivência pacífica com outras confissões de fé.

Em muitos países europeus, a relação entre Estado e religião está a passar por uma tensão particular. Por um lado, as autoridades políticas estão muito atentas a não conceder espaços públicos a religiões entendidas como ideias de fé meramente individuais dos cidadãos. Por outro, procura-se aplicar às comunidades religiosas os critérios de uma opinião pública secular. Parece que se deseja adaptar o Evangelho à cultura e, todavia, procura-se impedir de modo quase embaraçante, que a cultura seja plasmada pela dimensão religiosa. Contudo, há que ressaltar a atitude, sobretudo de alguns Estados da Europa central e oriental, de dar espaço às instâncias fundamentais do homem, à fé em Deus e à fé na salvação por meio de Deus. A Santa Sé pôde observar com satisfação algumas actividades do Governo austríaco neste sentido, não por último a posição assumida no que se refere à chamada «sentença sobre o crucifixo» ( Kreuzurteil) do Tribunal europeu para os direitos do homem, ou a proposta do Ministro dos Negócios estrangeiros, «de que também o novo serviço europeu para a Acção estrangeira observe a situação da liberdade de religião no mundo, prepare regularmente um relatório e o apresente aos Ministros dos Negócios estrangeiros da União europeia» ( Austria Presse Agentur, de 10 de Dezembro de 2010).

O reconhecimento da liberdade religiosa permite à comunidade eclesial desempenhar as suas múltiplas actividades, das quais também toda a sociedade obtém benefício. Faz-se referência, aqui, às várias instituições de formação e aos diversos serviços caritativos geridos pela Igreja, enumerados por Vossa Excelência, Senhor Embaixador. O compromisso da Igreja em prol dos necessitados torna evidente o modo como a Igreja, num certo sentido, se considera porta-voz das pessoas deserdadas. Este compromisso eclesial, que na sociedade recebe um vasto reconhecimento, não se pode reduzir a uma mera forma de beneficência.

As suas raízes mais profundas encontram-se em Deus, no Deus que é amor. Por isso, é necessário respeitar plenamente a obra própria da Igreja, sem fazer dela um dos numerosos distribuidores de serviços sociais. É preciso considerá-la, ao contrário, na totalidade da sua dimensão religiosa. Por conseguinte, é sempre necessário contrastar a tendência ao isolamento egoísta. Todas as forças sociais têm a tarefa urgente e constante de garantir a dimensão moral da cultura, a dimensão de uma cultura que seja digna do homem e da sua vida em comunidade. Por isso, a Igreja católica empenhar-se-á com todas as forças para o bem da sociedade.

Mais uma importante instância da Santa Sé é uma política equilibrada para a família. A família ocupa um espaço na sociedade que diz respeito aos próprios fundamentos da vida humana. A ordem social encontra um apoio essencial na união esponsal de um homem e de uma mulher, que está voltada também para a procriação. Por isso, o matrimónio e a família exigem também a tutela particular do Estado. Eles são para todos os seus membros uma escola de humanidade, com efeitos positivos para os indivíduos mas também para a sociedade. Com efeito, a família é chamada a viver e a salvaguardar o amor recíproco e a verdade, o respeito e a justiça, a fidelidade e a colaboração, o serviço e a disponibilidade para com os outros, de modo particular os mais frágeis. Todavia, a família numerosa é muitas vezes prejudicada. Os problemas em tais famílias, como por exemplo uma alta percentagem de conflitualidade, níveis de vida baixos, acesso difícil à formação, endividamento e aumento dos divórcios, fazem pensar em causas mais profundas, que deveriam ser eliminadas da sociedade. Além disso, é necessário lamentar que a vida dos nascituros não recebe uma salvaguarda suficiente e que, ao contrário, com frequência só se lhes reconhece um direito de existência secundário em relação à liberdade decisória dos pais.

A edificação da casa comum europeia só pode alcançar bom êxito, se este continente estiver consciente dos seus próprios fundamentos cristãos e se os valores do Evangelho, assim como da imagem cristã do homem, constituírem também no futuro o fermento da civilização europeia. A fé vivida em Cristo e o amor concreto pelo próximo, delineado segundo a palavra e a vida de Cristo e também segundo o exemplo dos santos, são mais importantes que a cultura ocidental cristã. Precisamente os seus compatriotas proclamados santos nos últimos tempos, como Franz Jägerstätter, Irmã Restituta Kafka, Ladislaus Batthyány-Strattman e Carlos da Áustria, podem abrir-nos perspectivas mais amplas. Estes santos, ao longo de diversos caminhos de vida, puseram-se com a mesma dedicação ao serviço de Deus e da sua mensagem de amor ao próximo. Assim, eles permanecem para nós imagens-guia na fé e testemunhas do entendimento entre os povos.

Enfim, desejo assegurar-lhe que, no cumprimento da alta missão que lhe foi confiada, o Senhor Embaixador poderá contar com o meu apoio e a ajuda dos meus colaboradores. Confio de bom grado Vossa Excelência, a sua família e todos os funcionários da Embaixada da Áustria junto da Santa Sé à Bem-Aventurada Virgem Maria, Magna Mater Austriae, enquanto lhe concedo de coração, bem como a todo o amado povo austríaco, a Bênção apostólica.

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23 de Setembro de 2019

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