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Desabrigados na cátedra

· Os pobres interpelam a cidade de Roma ·

«Una ocasião de diálogo» e de «intercâmbio significativo» para falar de amor e solidariedade à cidade. Assim o Papa Francisco evidenciou o sentido do espectáculo «Se não fosse por ti», encenado na noite de terça-feira 28 de Abril, no teatro Brancaccio de Roma, pelos hóspedes dos centros da Cáritas. Numa mensagem vídeo dirigida aos protagonistas da representação, o Pontífice recordou que «a pobreza é o grande ensinamento que Jesus nos deixou» e convidou a Igreja de Roma a ser «mãe atenta e zelosa para com os débeis».

Irmãos e irmãs, boa noite!

Alguém me disse que esta noite, no importante teatro «Brancaccio», vós, hóspedes de alguns centros de acolhimento da Cáritas da nossa Igreja de Roma, sereis protagonistas da representação intitulada «Se não fosse por ti», que narra experiências reais, difíceis, de abandono e marginalização vividas por vós mesmos. Esta iniciativa teatral fala sobre o vosso amor aos filhos, aos pais, à vida e a Deus.

Sinto-me feliz por estar, deste modo, no meio de vós, por me congratular convosco pela vossa coragem e dizer-vos que não percais a confiança nem a esperança. Deus ama-nos, ama a todos!

Considero a modalidade com a qual falais à cidade uma ocasião de diálogo e intercâmbio significativo. Vós na cátedra — exibindo capacidades escondidas, ajudados por profissionais competentes que vos souberam guiar, a vós protagonistas, de maneira a fazer descobrir capacidades e as potencialidades de cada um de vós — e os que assistem ao espetáculo, , estou certo disto — admirados pelas riquezas que são oferecidas. Quem imaginaria que um desabrigado é uma pessoa da qual aprender algo? Quem pensaria que pode ser um santo?

Esta noite sereis vós a fazer do palco um lugar do qual nos transmitir ensinamentos preciosos sobre o amor, a necessidade do próximo, a solidariedade, acerca do modo como nas dificuldades se encontra o amor do Pai.

A pobreza é um grande ensinamento que nos deixou Jesus quando entrou nas águas do Jordão para ser baptizado por João Baptista. Não o fez por necessidade de penitência nem de conversão, mas para estar no meio do povo, das pessoas carentes de perdão, no meio de nós, pecadores, e para carregar o peso dos nossos pecados. Ele escolheu este caminho para nos consolar, salvar e libertar da nossa miséria. O que nos dá liberdade, salvação e felicidade verdadeiras é o seu amor de compaixão, ternura e partilha. O Bom Samaritano que nos acolhe, maltratados pelos salteadores.

São Gregório de Nissa, grande teólogo da antiguidade, escreveu: «Reflecti bem sobre quem são os pobres no Evangelho e descobrireis a sua dignidade: eles revestiram a face do Senhor. Na sua misericórdia Ele doou-lhes o próprio rosto».

E santo Agostinho disse: «Na terra Cristo é indigente na pessoa dos seus pobres. Portanto, é preciso temer Cristo do céu e reconhecê-lo na terra: na terra ele é pobre, no céu é rico. Na sua humanidade subiu ao céu como rico, mas permanece ainda aqui entre nós no pobre que sofre».

Também desejo fazer minhas estas palavras. Vós não sois um peso para nós. Sois a riqueza sem a qual as nossas tentativas para descobrir o rosto do Senhor são vãs.

Alguns dias depois da minha eleição, recebi de vós uma carta de bons votos e de oferta de orações. Recordo que vos respondi imediatamente, dizendo que vos trago no coração e que estou à vossa disposição. Confirmo tais palavras. Naquela ocasião pedi-vos que rezásseis por mim. Renovo este pedido. Tenho deveras necessidade dela.

Agradeço também a todos os agentes da nossa Cáritas. Sinto-os como se fossem as minhas mãos, as mãos do Bispo, que tocam o corpo de Cristo. Agradeço aos muitos voluntários, provenientes das paróquias de Roma e de outras partes da Itália. Descobrem assim um mundo que pede atenção e solidariedade: homens e mulheres que procuram carinho, relacionamento, dignidade e junto dos quais todos podemos sentir a caridade, aprendendo a acolher, ouvir e doar-nos.

Como gostaria que esta cidade, em todos os tempos cheia de pessoas, impregnadas do amor de Deus — pensemos em são Lourenço (as suas jóias eram os pobres), são Pamáquio (senador romano, convertido, que se dedicou completamente ao serviço dos últimos), santa Fabíola (a primeira que no Porto construiu uma estalagem para os pobres), são Filipe de Néri, o beato Angelo Paoli, são José Labre (homem de rua), até n padre Luigi di Liegro (fundador da nossa Cáritas de Roma) — dizia, como gostaria que Roma pudesse resplandecer de «pietas» pelos sofredores, de acolhimento por quem foge de guerras e morte, de disponibilidade, sorriso e magnanimidade por quem perdeu a esperança. Gostaria que a Igreja de Roma se manifestasse cada vez mais como mãe atenta e zelosa para com os débeis. Todos temos debilidades, todos, cada um a sua. Gostaria que as comunidades paroquiais em oração, no momento do ingresso de um pobre na igreja, se ajoelhassem em veneração do mesmo modo como quando entra o Senhor! Como queria isto, que se tocasse a carne de Cristo presente nos necessitados desta cidade!

Com o vosso trabalho e o teatro desta noite, estou convicto, contribuireis para fazer crescer tais sentimentos. Obrigado!

E na expectativa de poder encontrar-me convosco, como aconteceu recentemente na Capela Sistina, concedo-vos a minha paterna bênção.

Que o Senhor nos ajude a reconhecê-lo no rosto do pobre! A Virgem Maria nos acompanhe neste caminho! E a todos vós peço por favor: não vos esqueçais de rezar por mim! Obrigado.

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14 de Dezembro de 2019

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