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O tambor de Moçambique

· ​A voz poderosa e intrépida do poeta Craveirinha ·

Não raro, os poetas destacam-se pela sua luta tenaz e até intransigente contra as distorções da história. Não se pode dizer que o poeta moçambicano José João Craveirinha tenha sido uma exceção a esta regra nunca escrita. No entanto, mesmo que ele tenha enfrentado a vida escolhendo sacrificar tudo por ela, até a sua própria obra poética, isso não comprometeu de modo algum a intensidade do seu pensamento.

Já na sua breve mas deveras original autobiografia, o autor afirmava, com efeito, que encontrava no amor a sublimação de tudo, inclusive da sua terra, da cultura nacional, para cuja formação contudo contribuiu de modo decisivo e relevante, exatamente através da arma mais poderosa à sua disposição, precisamente a sua obra poética, como meio de comunicação e expressão de sentimentos, obviamente não só dele, mas sobretudo daqueles que nasciam de um diálogo constante e quase obsessivo com o seu povo, o seu interlocutor mais ardentemente procurado, cujas preocupações e sofrimentos eram, portanto, muitas vezes também dele. Com orgulho, nunca com resignação, àqueles que lhe perguntavam como se poderia reagir às difíceis situações de violência, especialmente durante o período prolongado e obscuro da guerra, ele costumava responder: «Uma macieira dá maçãs. Sou poeta, o que poderia dar?».

Foi deste amor inato à pátria e de um profundo desejo de redenção, não tanto para si mesmo, mas para o seu povo, que nasceu um dos seus versos mais belos e significativos, uma mensagem intrinsecamente ligada ao símbolo talvez mais direto, simples e ao mesmo tempo mais pungente da sua terra moçambicana — mas não seria arriscado dizer de todo o continente africano — ou seja, ao instrumento que, além de fazer ressoar as notas de uma das mais essenciais e antigas músicas conhecidas, também comunica o ardor mais íntimo de quem o toca, de quem bate nele: o tambor, magistralmente enquadrado no intenso poema «Quero ser tambor». Para lutar mais eficazmente contra a opressão e o desespero sempre à espreita, tanto a nível pessoal como comunitário, Craveirinha pedia, aliás suplicava, àquele que ele mesmo descrevia como o «velho Deus dos homens», para poder cantar as suas angústias, as suas lágrimas, não sob a aparência de uma mera e bela flor, nem de um rio que, melancólico e silencioso, corre implacavelmente para o mar, mas de um tambor enérgico que ecoasse obstinadamente no calor da noite tropical, libertando no ar toda a força, pureza e, diria, perfume do seu som, para anunciar ao mundo a sua incondicional rejeição da violência.

Enquanto desejava ardentemente ver dias de paz e justiça no horizonte da sua terra, o poeta moçambicano declamava versos incendiários, com a voz ardente e muitas vezes quase sardónica («Eu sou carvão e tenho de arder sim; queimar tudo com a força da minha combustão», tirado do «Grito negro») de um grande fabricador de sonhos e de imagens pungentes, de alguém que, no entanto, sabia que era o guardião privilegiado da história e da memória do seu povo, que no final não podia deixar de considerar orgulhosamente o seu como um dos gritos mais apaixonados que já se tinham levantado no conturbado país pela liberdade de cada cidadão, sem distinção de etnia, pertença religiosa, língua e opinião política.

Nascido em 1922, de pai português e mãe ronga, Craveirinha é comummente considerado o maior poeta moçambicano. Em 1991 foi o primeiro escritor africano que recebeu o prémio «Camões», o mais importante reconhecimento literário de língua portuguesa. Escreveu várias obras, incluindo «Karingana ua Karingana» («Era uma vez»), em que o autor relata em prosa, com grande vivacidade, a vida quotidiana do seu povo, a braços com enormes dificuldades e sofrimentos, deixando-lhe assim um legado de profundo valor não só simbólico, mas autenticamente cívico e moral que a sua morte, ocorrida na África do Sul em 2003, só fez aumentar na alma dos moçambicanos. Portanto, ainda hoje, particularmente a partir dos anos que se seguiram à sua morte, a sua mensagem continua a marcar o passo da nação que justamente o incluiu entre as figuras que mais contribuíram para o nascimento de uma identidade totalmente moçambicana, nas diferentes latitudes do grande país da África Austral, mas sobretudo partindo de Mafalala, alma palpitante de Maputo, um dos bairros mais antigos da capital, onde nasceu o escritor e depois também o movimento da independência, e onde o orgulho nacional ainda hoje é palpável.

A capital de Moçambique, Maputo (antiga Lourenço Marques), é uma cidade moderna e florescente, onde o estilo Art Nouveau da arquitetura colonial se reflete nas águas caudalosas do oceano Índico, embora os contrastes sociais que continuam a marcar o país ainda sejam muito evidentes. No entanto, dá muita esperança o desejado acordo de paz recentemente assinado entre o Governo e a Renamo (Resistência nacional moçambicana), um passo verdadeiramente fundamental para a estabilidade e a harmonia, após décadas de violência e conflitos que ensanguentaram esta bela terra e paralisaram o crescimento e o desenvolvimento da nação.

Nos próximos dias, o Papa Francisco visita o país, e embora limite a sua viagem apenas à capital, como peregrino de esperança, paz e reconciliação, gostamos de pensar que procurará pessoalmente compreender e ouvir, aguçando o seu ouvido sensível, se a forte mensagem de amor à justiça transmitida por Craveirinha realmente ganhou raízes, se o grito do seu poderoso tambor ainda vibra no ar, entre as árvores da imensa floresta, nas praias, nos rios, nos campos e também no tecido urbano das cidades desta fascinante nação, mas mais particularmente nos corações entusiastas do povo moçambicano.

Sérgio Suchodolak

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15 de Novembro de 2019

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