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O sacramento e a sede do mundo

Quem pensava no ano sacerdotal há pouco concluído como em mais uma invenção celebrativa, de pouca substância ou até inútil, tem que mudar de opinião perante as duas intervenções de Bento XVI que ao encerrá-lo mostrou o seu sentido profundo. Textos deveras importantes, de um Papa que é teólogo e pastor como poucos seus predecessores souberam ser, a ponto de recordar grandes bispos da antiguidade cristã, intelectual e homem de fé, que há mais de sessenta anos segue a teologia e sabe falar a linguagem do nosso tempo.

Face a um número sem precedentes de sacerdotes que puderam concelebrar com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma falou do sacerdócio católico. Que não é uma profissão como as outras, não se trata de uma casta fechada nem de uma realidade clerical, mas de um sacramento. Isto é, sinal de uma realidade infinitamente maior, o sacerdócio está por este motivo aberto ao mundo. Longe de qualquer clericalismo, porque tem o olhar fixo no Coração de Jesus, trespassado pelo golpe da lança do soldado e do qual brotam água e sangue, símbolos do baptismo e da eucaristia que mostram este mundo de Deus.

O ano dedicado ao sacerdócio, ocasião para reflectir e fazê-lo  brilhar de novo diante dos homens, não agradou ao «inimigo» – era de esperar, ressaltou o Papa – e eis então emergir os escândalos dos pecados dos sacerdotes, sobretudo os horríveis abusos contra menores. Por estes delitos Bento XVI pediu de novo com humildade perdão a Deus e às vítimas, sem recriminações nem amarguras, mas ressaltando a tarefa de purificação já iniciada e que será longa. Na consciência de que estes escândalos obscureceram o rosto autêntico da Igreja, uma realidade da qual o próprio mundo secularizado tem saudades, como em parte indica o próprio escândalo face a estes verdadeiros crimes.

Também as mulheres e os homens de hoje sentem, talvez obscuramente, a necessidade de quem pode deveras mudar a situação da nossa vida pronunciando em nome de Cristo palavras que absolvem dos pecados e abrem para Deus. É este o sentido do sacramento: da penitência, da eucaristia, do próprio sacerdócio, que são sinais visíveis nos quais se esconde a audácia de um Deus que se entrega nas mãos humanas. E quem olha para o Coração de Jesus compreende que este Deus não é um Deus distante, mas é como um pastor que pode ensinar – se estivermos dispostos a ouvi-lo – a ser pessoas, para não desperdiçar a vida na falta de sentido.

Olhando com lucidez mas sem pessimismos para a desorientação contemporânea e para o inexorável destino de cada criatura – o «vale tenebroso da morte, onde ninguém nos acompanhará» –  Bento XVI elevou mais uma vez o olhar para Cristo: repetindo o anúncio jubiloso da Igreja que o Senhor se elevou do inferno e lá submeteu o último inimigo, e que ele, o vencedor da morte, está próximo de cada um nos «vales tenebrosos» da vida, também quando parece que todas as luzes se apagam.

Perante comportamentos indignos do sacramento sacerdotal – como diante da heresia e da dissolução da fé – «a Igreja deve usar o bastão do pastor», disse com vigor o Papa. Acrescentando que isto pode ser «um serviço de amor» e que o bastão é também «vara», apoio diante das dificuldades do caminho. E que sobretudo indica aos homens o Coração de Cristo, única fonte de água viva que pode saciar a sede do mundo.

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16 de Setembro de 2019

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