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​O rosto sombrio da família

· A casa da esperança do padre Aldo Trento no Paraguai ·

Pobrezinha da Liza. Pobrezinha da Paulina. Pobrezinha da Patricia. Todas com as asas partidas. Pancadaria, violências domésticas, sevícias. E a lista dos seus nomes poderia ser mais longa.

De resto, nestes anos, a casa da esperança do padre Aldo Trento, missionário no Paraguai, é conhecida por ser uma espécie de porto marítimo, um paradeiro seguro no qual encontrar refúgio. Quando a polícia não sabe o que fazer, a braços com casos de violência extrema, toca a campainha do portão de madeira da paróquia. Por detrás do muro de tijolos vermelhos vêem-se cimos de plantas. «Sede bem-vindos, aqui confessa-se a todas as horas», está escrito.

Franca Giansoldati

Naturalmente, os polícias não procuram o padre Aldo para se confessarem. Sabem que é o único que acolhe os descartes humanos que ninguém quer; demasiadas vezes corpos de mulheres reduzidos a uma massa de sangue, desnutridos, submetidos a todos os géneros de práticas brutais. Jovens com o rosto de meninas agredidas brutalmente. Porque não é só a racket da prostituição que faz vítimas. O machismo, deformação cultural devastadora, é parte substancial da sociedade sul-americana.

No sínodo extraordinário sobre a família, no Outono passado, ressoaram na assembleia diversos testemunhos. Eram reflexões angustiadas sobre a deriva deste fenómeno endémico ao qual a Igreja se opõe com vigor e contribui para deter. O que certamente não é fácil, dado que o imprinting popular muda com o tempo, de geração em geração, e há portanto necessidade de um compromisso constante a nível educativo e didáctico, na paróquia, nas escolas. Serve contudo determinação e coragem. O silêncio nunca é positivo.

Pobrezinha da Liza, pobrezinha da Paulina, pobrezinha da Maria. Poderiam ser nomes de fantasia, mas não o são. As vidas delas não são invenções, fruto da imaginação. Infelizmente a realidade com a qual nos deparamos quando entramos no hospice do padre Aldo ilustra a imagem de uma situação impiedosa de prepotência. O rosto sombrio da família. Maridos brutais, pais papões, padrastos sem piedade.

E assim na estrutura paroquial do missionário italiano não só encontram abrigo os doentes terminais e as crianças abandonadas, mas readquirem o sorriso também as mulheres com as asas quebradas. Algumas estão em internamento prolongado, com patologias invalidantes causadas por anos de brutalidades.

Num quarto surpreende o vulto pergamináceo de uma idosa. Parece um camafeu do século passado, ao primeiro olhar poderia parecer centenária. Imóvel, mantém uma posição fixa, quase inatural. Mercedes, ao contrário, completou há pouco cinquenta e quatro anos. Transformou-a neste estado de pele e osso a pancadaria. Muita. Por anos, a ponto que sofre de autismo. Do seu mundo engolido na escuridão a mulher discerne uma só voz: a do padre Aldo.

Quando se aproxima dela evocando duas palavras sagradas para os índios guarani, ela arregala os olhos: é como se uma chave tivesse aberto uma memória desvanecida. Mercedes levanta-se da cama pronta para receber a bênção com as mãos juntas. Uma mulher ao seu lado observa o que acontece. O padre Aldo sussurra outras palavras de afecto. As enfermeiras fazem de tudo para ajudar quantos já não são autónomos. Aparentemente são todas idosas, mas quem sabe?

Victoria e o seu menino

A pancadaria de que foram vítimas por anos, desfigurou-as, envelheceu-as, curvou-as. O padre Aldo organizou uma espécie de welfare alternativo. «Para nós europeus o machismo é algo que não entendemos completamente. Temos sem dúvida violências, assistimos a assassínios, mas não temos uma cultura machista tão violenta e radicada como esta. A Igreja católica está ciente de que é preciso defender a importância da igualdade entre homem e mulher, ensinando o respeito recíproco, a complementaridade dos papéis».

O caminho a percorrer é em subida. Nada é certo. No andar de baixo do centro paroquial, no grande salão cheio de brinquedos coloridos e móveis alegres, uma dezena de crianças brinca. Algumas delas têm apenas poucos meses. São cuidadas por cinco ou seis moças que aparentam uns vinte anos.

Um pouco afastada está Liza, uma adolescente paralisada, obrigada a uma cadeira de rodas. Olhos pretos, cabelos preto corvo, o seu olhar está ausente. Também ela com as asas partidas. A sua história comoveu o Papa Francisco quando foi visitar o centro do padre Aldo. Talvez a sua seja a vicissitude mais arrepiante.

Liza tem apenas doze anos, mas olhando para ela parece ainda mais pequena. Durante anos foi violada pelo padrasto que a deixava sem comida, apagando os cigarros nas suas pernas, divertindo-se a torturá-la. As horrendas cicatrizes nunca desaparecerão. A polícia encontrou-a, graças a uma indicação, abandonada num casebre, nos campos circunvizinhos, em condições indescritíveis. Os seus pés tinham sido quebrados várias vezes e é por isso que nunca mais poderá segurar-se em pé. Quando o padre Aldo a acolheu ela não pronunciava palavra alguma, nem sequer abria os olhos. Estava grávida de seis meses, violentada pelo padrasto. Hoje o seu filho, David, é um bebé maravilhoso mimado por algumas jovens que se alternam a servir de babysitter. Cada uma delas tem outras histórias relacionadas com a estrada, a droga, o racket.

Um menino de três anos, Diego, corre feliz em direcção do missionário e abraça-o. Dá-lhe um brinquedo quebrado. «Vamos tentar consertá-lo». Como as asas para consertar destas mulheres. Um sorriso para cada uma. Talvez um dia voltem a voar.

Franca Giansoldati

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22 de Agosto de 2019

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