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O regresso do véu

· Pesquisa sobre as mudanças em curso entre as novas gerações islâmicas ·

Amira está sentada na esplanada de um bar no centro de Milão. Calças de ganga, camisola de manga curta, olhos maquilhados, brinca e ri com as amigas antes de mergulhar nas ruas do shopping. Uma cena normal de um sábado à tarde de primavera, a não ser por um detalhe que ainda admira algumas pessoas que passam: Amira tem a cabeça coberta por um véu colorido, um azul intenso e vibrante. Quando lhe perguntam responde que aquele véu escolheu-o. A sua mãe, que tinha vindo há muitos anos da Argélia, nunca o tinha usado e ficou admirada com a escolha da filha. Na escola alguns não gostaram, mas ela não desistiu. «O velo diz quem sou eu, no que acredito, de onde venho. E não me envergonho de nada disto» diz. «Por outro lado – acrescenta sorrindo - não acha que me fica bem?».

Há alguns meses, no Egipto, no telejornal do meio dia a apresentadora apareceu perfeitamente maquilhada, com um elegante casaco preto e um hijab de cor creme à volta da cabeça. Era a primeira vez que uma jornalista velada aparecia na televisão pública e a coisa causou muito reboliço. «O véu não conta, finalmente também aqui o critério não é o que vestes mas as capacidades» respondeu a quem lhe fazia perguntas admirado.

Na realidade a sua imagem tinha com razão impressionado: muitas mulheres trabalhavam na televisão com a cabeça coberta, mas até então nenhuma delas tinha aparecido no vídeo. O véu não era aceite na imagem oficial de um Egipto que queria afirmar um Estado e um governo leigos, ainda que em muitas zonas do País e nas próprias periferias do Cairo a tradição era forte e seguida.

O véu encontrámo-lo ainda na Tunísia. Enquanto que até há alguns anos era metido pelas raparigas dos campos e das aldeias, agora tornou-se cada vez mais frequente nas grandes cidades e nas universidades onde as jovens modernas, emancipadas e desejosas de trabalhar preferem aparecer em público com a cabeça tapada. O fenómeno, que surgiu há já alguns anos, levantou diversos problemas.

Enquanto que alguns, por exemplo a Association tunisienne des femmes démocratiques, o tinham julgado «perturbador», a Liga dos direitos humanos denunciou a agressão às mulheres veladas por parte da polícia. No entanto, nos últimos tempos difundiu-se de tal modo que o Governo achou oportuno aplicar menos as restrições previstas na lei.

Se pensamos no que tem acontecido, durante estes últimos anos, no mundo islâmico podemos falar de regresso – há quem fale mesmo de revolução – do véu. Não que a tradição religiosa e cultural de cobrir-se a cabeça tivesse desaparecido. Há Países, como a Arábia, o Afgnanistão ou o Irão, que nunca a abandonaram, onde, pelo contrário, o cobrir não só a cabeça mas também o corpo é obrigatório. Países onde todas vestem o niqab ou o burqa e onde uma mulher que não esteja coberta de modo adequado é perseguida de modo pesado pelas leis e pela reprovação social.

O regresso de que estamos a falar é o do hijab, do foulard ou do véu nos Países onde o uso deles tinha sido colocado de lado. Estamos a falar do ressurgir deles nas cidades e nos ambientes que se definem modernos, cultos e evoluídos, nos Países onde a semelhança com o ocidente era, até há pouco tempo, um valor apoiado e defendido pelos governos.

O véu não é mais somente uma exclusiva das zonas rurais em uso pelas mulheres que estão em casa ou que trabalham nos campos. Também as que trabalham e estudam, as mulheres que ocupam, ainda que poucas, lugares de prestígio, mesmo algumas daquelas que se declaram feministas, recomeçaram a usá-lo. E com elas metem-no também as emigradas que vivem em Países onde a cultura e as tradições deveriam conduzir a uma rápida homologação e, até mesmo, as filhas delas que nasceram após a emigração.

A questão que hoje se apresenta – e que muitos se colocam – é se este retorno seja o fruto de uma escolha livre das mulheres ou, pelo contrário, se seja imposto pelos governos e pelos Estados onde se fazem ouvir com força movimentos tradicionalistas ou até mesmo integralistas. Uma pergunta importante que subintende outras: se é uma escolha das mulheres, que tipo de escolha é? Um simples regresso à tradição ou a afirmação de um modo diverso de manifestar a própria fé? Se é uma escolha imposta pelos governos, deve ser contrastada? Que atitude devem tomar os Países ocidentais que vêem nas suas estradas mulheres veladas ou até mesmo completamente cobertas com o burqa ou o niqab? Devem aceitar o uso do véu ou considerá-lo uma manifestação de subordinação e de escravidão feminina, devem contrastá-lo?

Como se sabe, o debate destes temas nos Países ocidentais foi amplo e difícil. Dezenas de especialistas estudaram o fenómeno. Renata Pepicelli, estudiosa do mundo islâmico contemporâneo, no seu Il velo nell'islam (Carocci 2012) dá-nos a informação mais importante: o retorno ao véu inicia na década de 1970 e coincide com um extraordinário aumento da religiosidade. As mulheres cobriram-se a cabeça enquanto se construíam mais mesquitas e estas eram mais frequentadas. O fenómeno constituiu uma surpresa. O século XX era aos olhos de todos o tempo da secularização e da reorganização das religiões. «O uso do termo revolução para falar do renascer do véu – explica a Pepicelli – é justificado pelo facto que se tratou de um fenómeno que surpreendeu muitos observadores, leigos e religiosos, porque iniciou por volta do fim de um século, o vigésimo, que, como se viu, foi marcado por uma tendência oposta». Segundo a Pepicelli a inversão da tendência foi e é vasta demais para que coincida com o regresso do “Islão político”, manifesta algo mais importante e mais profundo.

O véu tornou-se o símbolo do mundo islâmico, mas também das dificuldades e das contradições nas relações com o ocidente (houve quem tivesse falado de choque de culturas). « Nunca – escreve a Pepicelli – uma roupa foi tão discutida». Não por acaso. Através do debate sobre o hijab enfrentam-se alguns dos problemas mais importantes do século XXI: o ressurgir do islão, as suas relações com o ocidente, a sua ideia da mulher e a ideia de mudança. Ao mesmo tempo, o véu tornou-se uma espécie de barómetro dos Países onde é usado: a cor, o modo de o usar, a sua negação ou a decidida aceitação falam sobre estes Países mais que os discursos.

São muitas as especialistas que vêem no regresso do véu o sinal de uma adesão a alguns ideais comunitários, de um crescimento da espiritualidade, que se nutriu também da oposição ao ocidente e à mercantilização do corpo feminino. Outras notam como o hijab seja vivido por muitas mulheres como um dissuasor do desejo masculino, e até mesmo uma protecção da violência à qual muitas vezes são submetidas. Para outras, no véu há a manifestação de uma fé feminina autónoma que está ligada à relação com Deus e à surata XXIV do Alcorão: «Dizei às fiéis que recatem os seus olhares,

conservem os seus pudores e não mostrem os seus

atractivos, além dos que (normalmente) aparecem; que

cubram o colo com seus véus e não mostrem os seus

atractivos, a não ser aos seus esposos, seus pais, seus

sogros, seus filhos, seus enteados, seus irmãos, seus

sobrinhos, às mulheres suas servas, seus criados isentas

das necessidades sexuais, ou às crianças que não

discernem a nudez das mulheres». Por fim, muitos apercebem-se que ele hoje não tem somente o significado de um acto de fé individual, mas indica o regresso da religião à esfera pública, mesmo em Países onde se tinha afirmado uma separação. Portanto, não é um voltar para trás, mas o oposto.

Contudo a questão permanece controversa. Não são poucos e poucas aqueles que vêem no regresso ao véu a afirmação de um conservadorismo em muitos Países de religião islâmica e de um novo autoritarismo dos seus governos que, assustados com a difusão dos modelos e das liberdades da civilização ocidental, tentam deste modo de manter um domínio sobre a população feminina. O retorno ao véu teria portanto razões muito terrenas que têm pouco a ver com a religião e com a fé. O 11 de Setembro influenciou o modo de interpretar este fenómeno. No nome da reafirmação da laicidade na França, foi aprovada uma lei que, ainda que oficialmente proíba a ostentação de todos os símbolos religiosos, na realidade dirige-se sobretudo contra o véu. Para outros Países o problema não surgiu para o hijab, mas para o burqa e o niqab que, ao cobrir o corpo e o rosto da mulher, colocam – segundo a opinião de muitos – problemas de segurança. Em Itália tentou-se apresentar a lei mas foi bloqueada. A Europa está dividida entre Países que não admitem alguma cobertura integral da cabeça como a França, a Bélgica e, em parte, a Alemanha (a decisão toca a cada região) e outros que não enfrentaram o problema com as vias legislativas. Os Estados Unidos nunca proibiram o uso do véu integral, nem mesmo após o 11 de Setembro.

Ritanna Armeni

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24 de Outubro de 2019

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