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O que deveria mudar?

· O papel feminino na formação dos seminaristas ·

Por que a Igreja, entendida como hierarquia, ou pelo menos uma parte dela, tem dificuldade – para não dizer que quase se recusa – em dialogar livremente e com sinceridade com o mundo feminino? Aristóteles afirmava com decisão que «a mulher é um homem falhado» (femina est mas occasionatus), nasce devido a um «defeito» natural, ou seja, é um «acidente». Para Agostinho e Ambrósio a mulher é a causa do pecado e por conseguinte deve estar subordinada ao homem. Mas são Paulo recorda-nos que em Cristo todos somos iguais: não existe nem judeu nem grego, nem homem nem mulher (Gálatas 3, 28). O próprio Papa Francisco não se cansa de recordar, à cristandade e ao mundo inteiro, a importância e a centralidade do papel da mulher na vida social e na Igreja.

Contudo quanto diz parece passar em silêncio, como se se tratasse de uma ruptura «dogmática» no âmbito de um pensamento partilhado e radicado em muitos «homens» de Igreja. A mulher é vista como fonte de problemas e não de riquezas e complementaridade como de facto é. Esta tradição antropológico-cultural foi entregue às gerações sucessivas de sacerdotes e futuros seminaristas, os quais aceitaram tacitamente esta herança negativa e difícil de desenraizar. Seria interessante fazer uma sondagem, que nos ajude e facilite a compreensão do problema entre as mulheres e os sacerdotes, porque estamos a falar de uma questão muito real, concreta.

Pensamos que é necessário partir de um ponto fundamental: a presença e o papel das mulheres nos seminários e na formação dos seminaristas. Gostaríamos de errar, mas podemos contá-las pelos dedos de uma mão. E quando as há, estão em posições subalternas, isto é, são pessoas praticamente invisíveis, que cozinham, lavam, passam a ferro, limpam os quartos dos jovens e se movem entre os muros sagrados sempre prontas para desaparecer ao mínimo sinal. São religiosas e leigas. As primeiras fazem-no por missão; as segundas porque devem trabalhar para viver. Mas esta actividade obriga-as, muitas vezes, ao silêncio, a uma total – ou quase – ausência de relações humanas com os seus interlocutores.

A Pastores dabo vobis frisa «a conotação essencialmente “relacional” da identidade do presbítero» e a importância de definir claramente «a natureza e a missão do sacerdócio ministerial, senão nesta múltipla e rica trama de relações, que brotam da Trindade Santíssima e se prolongam na comunhão da Igreja como sinal e instrumento, em Cristo, da união com Deus e da unidade de todo o género humano» (n. 12). E podemos ler ainda: «De particular importância, se afigura a capacidade de relacionamento com os outros, elemento verdadeiramente essencial para quem está chamado a ser responsável por uma comunidade e a ser “homem de comunhão”» (n. 43).

A relacionação homem-mulher é um acto querido pelo próprio Deus no momento da criação, é intrínseca a cada pessoa: ignorar este aspecto fundamental significa colocar-se fora da dinâmica daquele amor trinitário precedentemente citado – e do qual ouvimos falar com frequência nas homilias – essência primária na vida dos cristãos e da própria Igreja.

Outro tema para enfrentar. Por que as mulheres não têm livre acesso ao ensino nos seminários? Nos Estados Unidos encontra-se felizmente a presença de pelo menos uma mulher ou duas, como foi afirmado em 2013 pela irmã Sara Butler, professora emérita de teologia sistemática no Mundelein Seminary em Illinois. Mas quantas são as mulheres que o podem fazer, sobretudo na Itália? A este ponto a conclusão surge espontânea: a teologia é uma coisa unicamente para homens e sacerdotes? Quando o Papa Francisco afirma que é necessária uma «teologia profunda da mulher» e diz que as mulheres devem fazer reflexão teológica, afirma uma utopia? Parece-nos que o Papa tenha compreendido muito bem a entidade do papel da mulher na Igreja, assim como na sociedade, mas também se apercebeu de quanto é difícil e complicado desenraizar a desconfiança, um verdadeiro receio – diria ancestral – em relação ao outro sexo, o «feminino», considerado uma ameaça perigosa para a integridade sexual e celibatária do homem consagrado.

O resultado desta obsoleta escola de pensamento é uma certa misoginia, mais ou menos latente, a qual é na sua substância um sentimento de repulsa, ou até de ódio, em relação às mulheres, enquadradas sobretudo na função de mulheres de serviço, isto é, sujeitos que cumprem, diária e gratuitamente, as várias incumbências domésticas na paróquia ou nas residências de religiosos. E esclarecemos: são pessoas que enfrentam com consciência também o constrangimento psicológico de não receber nem sequer um simples obrigado, porque o seu serviço é para a Igreja, não para o indivíduo, mesmo se é ministro de Cristo. Escrevia Gregório Magno na Regra pastoral: Há depois alguns que investigam as regras da vida espiritual com experiente cuidado, mas depois espezinham com a sua conduta de vida aquilo que conseguem compreender com a inteligência». O testemunho é o fruto evidente do apego do coração a Deus.

Mas qual é o nível relacional dos seminaristas com as mulheres? Se os resultados são aqueles que normalmente se revelam à vista de todos quando se tornam sacerdotes, não é porventura o caso de reconsiderar alguns aspectos da sua formação? Se o sacerdote deve ser «pessoa de comunhão», pensamos que estamos a arriscar muito precisamente neste sentido se excluirmos a presença feminina dos lugares de formação, incluídas as faculdades teológicas. Se queremos sacerdotes efectivamente maduros, devemos necessariamente dar-lhes a oportunidade de exercer a própria liberdade, isto é, a capacidade de escolher todos os dias Cristo face às solicitações mundanas e às possíveis provocações – lógicas e legítimas nas relações homem-mulher – causadas por uma presença feminina que, evidentemente, não se pode evitar. Temos também a impressão de que, seguindo quanto foi dito nos últimos anos, se está a apostar muito na maturidade afectiva também em relação a eventuais manifestações de homossexualidade.

Mas o ponto é outro. Depois de saírem do seminário – onde estes jovens se preparam para se tornar pastores vivendo «o ideal» da vida sacerdotal – e de serem inseridos no mundo concreto, habitado por homens e mulheres em carne e osso, o que acontecerá? Saberão responder de modo adequado às exigências das pessoas que estão chamados a guiar no seu caminho de fé na Igreja? A comunidade paroquial constrói-se em volta do pastor, um sacerdote que deve ser capaz de gerir os momentos de desânimo, de crise pessoal, sem envolver emotivamente os fiéis. Com efeito, é precisamente nestes casos que rebentam aqueles problemas de carácter afectivo que não foram enfrentados no seminário. Torna-se então perigoso estabelecer relações com as mulheres, porque pode haver a ilusão de encontrar numa paroquiana devota, a mãe ou a irmã, a amiga e confidente, confundindo as relações. Aquilo que dizemos é válido para todos os consagrados, mulheres e homens.

Seria bom portanto que os futuros sacerdotes tivessem a oportunidade de descobrir sem receio e com desejo sadio a riqueza do universo feminino, considerando-o um recurso precioso, necessário para alcançar a completação da sua vocação. Pois varão e mulher fomos criados, não para a divisão, mas para a complementaridade.

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17 de Agosto de 2019

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